O que sinto quando falo com pessoas que fazem a sua vida longe da Grande Lisboa e em especial da margem sul, a velha amaldiçoada de tão vermelha que foi. Acho que há pessoas a comentar temas como a Saúde, de forma automática, outra em modo diletante, não tendo a noção do que é estar no meio de uma situação que, em alguns aspectos, nem no início dos anos 80, se verificou. Ter gente a morrer porque é preciso chamar uma ambulância de Carcavelos para assistir a uma idosa na Quinta do Conte é trágico. Há dois dias, foi um idoso que morreu no Seixal, após tropeçar em casa, porque a ambulância demorou quase três horas a chegar. O ridículo é que em ambos os casos existem hospitais públicos a 15-20 minutos de distância e uma miríade de clínicas e hospitais privados ainda mais próximos. Claro que as culpas vão morrer solteiras e longe de qualquer pessoal vagamente responsável. Uns dias antes, no caso de um acidente rodoviário num acesso à margem sul, a ambulância que chegou também vinha de margem norte (Sintra) e teve de abrir caminho, lentamente, em hora de ponta, pelo meio do trãnsito.
Há quem ache que isto é uma espécie de castigo merecido, a sério que há. Basta ver certos comentários em redes sociais e não só, de gente com alguma certificação académica, mas muita estupidez natural. Há quem ache que isto é uma “falha do Estado”, entidade vaga, servindo este argumento principalmente para tentar deslocar meios para outros grupos de interesses. Não… é uma falha dos decisores públicos, da camarilha política que está mais preocupada em distriuir as benesses do PRR, em encomendar estudos de merda para diagnosticar as feridas abertas que são visíveis para todos e para apresentar soluções asininas. Há quem ache que o que se gasta em Saúde (ou Educação) é apenas “despejar dinheiro sobre os problemas”. Sim, se for mal despejado. E tem sido tão mal despejado. O que irrita é que depois acusam estes e aqueles de “populismo”, quando é esta cambada de incompetentes carreiristas (incompetentes quando estão no serviço público, mas excelentes gestores quando transitam para o sector privado) que alimenta o crescente sentimento de revolta de boa parte da população, que se vê em situações de aflição em que a racionalidade não abunda, nem pode abundar.
A margem sul… em particular a que fica mais para poente, é uma espécie de terra de ninguém, de terra incógnita, o deserto-jamé daquele obtuso governante muito das esquerdas, a terra a evitar, a menos que se vá para algum campo de golfe da zona, para a Comporta brincar aos pobrezinhos ou em trânsito para o Allgarve, pelo pessoal beto-chic da iéle e arredores (preferem as Angolas e as Arábias), onde parece que a “mentalidade ronaldo” não chegou, muito menos os jactos privados e as sélfes com os bezos top. Faz lembrar aquela mentalidade de outrora, daqueles pregadores muito religiosos, que acham que se alguém vive mal, precariamente e algo de mau lhe acontece, é porque pecou e foi marcado com o ferrete dos caídos em desgraça divina.
Sim, é nesta altura que as origens me sobem á venta e tenho um desprezo “de classe” muito promunciado em especial em relação aos pindéricos que, vindo de onde vim ou perto, fazem tudo por se tentar limpar das marcas dessa origem. Aquele pessoal que arrebica muito o discurso, para ver se não se nota a grunhice essencial. A sério que os desprezo mais do que o pessoal daquelas aristocracias cheias de pergaminhos, para quem o “povo” é giro, tão mais giro quanto mantido à distância e se possível do lado de lá de cercas sanitárias.