Não estou especialmente preocupado com o facto de Ventura ter 30% ou mais dos votos nas presidenciais. Afinal, há muita direita orfã, a começar por certos galifões (e galifonas) que estavam com a esperança de ter o Cotrim na 2.ª volta e se esmera(ra), num discurso tão bacoco quanto o de certas esquerdas matarruanas em tempos idos. Não me admira a migração “anti-socialista”, como se Seguro fosse “socialista”, por muitos nós e torções que se deem ao conceito. O que leio, a pessoas com altas pretensões intelectuais e certificações académicas ostensivas, é ao nível do mais burgesso que li e ouvi ao pessoal da ortodoxia mais ortodoxa do PCP nos seus tempos áureos. Mas esses, vão e vêm.
Mas o verdadeiro problema é aquele pessoal que, mesmo com as evidências evidentes, mais do que votar em Ventura, acredita mesmo que ele pode ganhar. E esses são os “fanáticos” que formam o “núcleo duro” actual do eleitorado do Chega. O que é muito, tendo em conta a tibieza das lideranças dos partidos “líder” do arco da governação. Numas eleições antecipadas, estes 17% são uma base muito complicada de fiéis para gerir em partidos que, como o PS e o PSD, mesmo com a gula do poder, estão em desagregação interna, em torno de grupos de interesses, muitas vezes conflituantes.
Com a esquerda “radical” pulverizada e em convulsão, à espera do parto de um qualquer novo movimento messiânico, ter um hardcore de 17% que acredita aparentemente que Ventura tem mesmo condições de chegar a Belém devia fazer pensar a muita gente que anda demasiado preocupada com o que lhe pode cair do PRR ou com os negócios que pode conseguir com a apresentação de fotos ao lado do futuro PR..
(DN, 5 de Fevereiro de 2025)