Muito antes das teorias domingueiras da abelhinha distópica (para malta distraída ou nova nisto, leia-se “projecto MAIA” e seus derivados), sempre tive o hábito de demonstrar aos meus alunos o que tinha corrido bem ou mal nos momentos de avaliação. E nas “ferramentas” usadas (acho sempre patusco usar este tipo de terminologia, mas adopto-a amiúde para reforçar o ridículo), quase sempre me preocupei em fazer duas coisas: deixar pistas numas questões para responder a outras (por exemplo, nas respostas múltiplas, incluir opções que permitem responder em parte a questões de desenvolvimento) e testar a atenção com que os alunos lêem as questões antes de responderem. Durante anos a fio, incluí uma imagem em que surgia uma figura a dizer “Eu, Napoleão Bonaparte, declaro o bloqueio dos portos…”, seguindo-se a questão “Quem decretou o Bloqueio Continental?”, só para ver quem estava a cochilar no dia da ficha de avaliação, que então se designava como “sumativa”. Em regra, eram entre 10-20% dos inquiridos (entre as respostas, surgiam o D. João VI, o Beresford e, nos casos de maior criatividade, a D. Maria ou o Marquês de Pombal).
(não faço isto por mais do que curiosidade natural, pois nunca frequentei formações da treta sobre metodologias de abvaliação, ministradas por gente que só sabe ler powerpoint clonados e raramente aguenta um par de perguntas sobre os fundamentos empíricos das teoriazinhas que debitam de forma acrítica e muito pouco actualizada)
Nos últimos anos, tenho incluído a questão que já apresentei em post anterior, sobre a implantação da República. Como se pode verificar em peço a data, dando logo a indicação que o ano é 1910 e que se passou em Lisboa. Chega-me que a resposta seja “5 de Outubro” (outubro para os petizes nascidos pós AO). Não é nada de muito criativo. Não exijo muito, sei qo que vou. Os petizes estão no 6.º ano, não há que esperar muito mais do que a muitos deputados da Nação.
Dito isto, este ano, na sequência da constatação de que o ala atitude“nem me ralo, já estou passad@, basta um choradinho final” tem vindo a crescer, acabei por fazer uma pequena estatística das respostas a esta questão, para debater o assunto com as turmas, em modo de feedback dialogado (socrático?), de modo aos alunos poderem expressar a sua opinião sobre a situação, claro que sem identificar – na maioria dos casos, porque alguns são de bradar aos Céus e necessitam mesmo de singularização – os autores da generalidade dos tiros ao lado, muito ao lado.
Tenho três turmas de 6.º ano, com “perfis” razoavelmente diferenciados, sendo que a minha DT seria aquela em que as expectativas poderiam ser menos más. E, realmente, em 19 testes (calma, antes da transferência de 1 aluno, havia 4 casos a implicar redução de turma, sendo que um aluno faltou, por estar de partida para o Brasil, e outro está a meses dos 18 anos e parece não haver método ou “autoridade” capaz de o fazer voltar à escola, por muita referenciação ou relatório que se faça para CPCJ, Tribunal ou força policial), consegui que “apenas” em 5 as respostas fossem totalmente ao lado. (pouco mais de 25%, o que já considero “bom”). Não fiz análise das restantes 14 resposta… quantas ficaram em branco e quantas interpretaram o tempo como algo relativo e dependente do observador. Até porque foram os primeiros testes a ser entregues e concentrei-me mais em destacar outro tipo de incongruências, como apresentar a mortalidade com factor de aumento da população ou que as pessoas saiam dos campos para as cidades por causa do aparecimento do comboio. Etc.
O problema foi com a turma sem direito a qualquer redução, 27 almas, algumas delas a aprender as primeiras palavras de Português. Mas que, curiosamente, porque podem usar o telemóvel para traduzir os conteúdos, até acertaram no “5 de outubro”, nomeadamente a aluna paquistanesa e o aluno do Bangladessh (helás, venturosos, tenho um!). entre os restantes 25 alunos, tive 5 (cinco!) que acertaram na data (taxa de sucesso parcial de 20%), enquanto os restantes se distribuiram por não responder (8), enquanto 12 decidiram que a data, independentemente do dia e mês, se poderia distribuir entre 1891 e 1981 (acho que um dos alunos trocou os olhos ao copiar do parceiro), tendo um sortido variado a incluir, 1908, 1909, 1911, 1912 ou 1920. O giro é que, ontem, quando entreguei as fichas e procedi ao momento de feedback, toda a gente se riu muito quando eu chamei a atenção para o facto da pergunta já lá conter o ano, pelo que não percebia o que se tinha passado, sublinhando que já me conhecem há mais de um ano e sabem que as “ferramentas” devem sempre ser lidas com atenção. Resumindo, 7 em 27 acertaram, sendo que 2 nem sequer conseguem mais do que arranhar o Português de pátio de escola.
Hoje, com o encerramento das escolas da zona, não pude fazer a entrega da terceira turma, 20 testes (faltaram 3), pelo que pude fazer uma estatística mais completa, porque o verdadeiro professor que trabalha com os órgãos todos (não apenas o coração a sangrar de empatia) é o que prepara o seu feedback com dedicação e arreganho. Acertar a data, se incluir quem escreveu “5/9/1910” (sou bondoso!), foram 6 (30%), exactamente a mesma quantidade dos que nem tentaram responder. sobraram 8 respostas criativas, de que lhes deixo algumas amostrar mais abaixo. 40% dos alunos parecem ter descolado de qualquer tipo de realidade ou preocupação em ler ou compreender um enunciado que só não dá a resposta completa, porque eu não tenho, ou alguma vez tive, pretensões a ser visto como um exemplo de “flexibilidade” e “inovação”.
Poderão dizer que estou a usar isto para caricaturar o desempenho dos alunos e que, no fundo a culpa dos “inconsegumentos” é minha, apenas minha. Está bem! Que se lixe!! Sinceramente, minhas amigas e meus amigos, eu já começo a ficar-me nas tintas, porque isto não se passa apenas comigo e a constatação é que já pouca gente se rala e dá o 3 como garantido, porque a escala parece começar aí, devido a tantas e tantas contextualizações da situação que até sem saberem escrever o nome passam, com a divina benção do “sucesso”.
Nota final: ainda corrijo os testes a vermelho. Deve ser coisa do esquerdalho arcaico. Apesar de lagarto confesso, só ocasionalmente opto pelo verdusco.