Rangel, Quase Liberal De Esquerda?

Calhei ouvir boa parte do discurso de apresentação da candidatura de Paulo Rangel à liderança do PSD e o que mais ouvi foi falar em “igualdade” e criticar as “desigualdades”. Ouvi falar na necessidade de mobilidade social, do “elevador social” e em críticas às “elites” de todos os tipos ao carácter “aristocrático” da sociedade portuguesa. Por momentos, pensei que era uma intervenção bloquista no Parlamento. Depois, quando ele chegou aos “três eixos” de acção, desliguei, pois começou a elencar (como agora se diz) os apoios que já congregou (uma palavra mais gira que “juntou”) e começou a falar em cristãos sociais, liberais, conservadores e aquilo passou a parecer uma espécie de promoção de uma casa da mariquinhas, desculpem, de um albergue castelhano.

(o senhor do espesso semanário cansou-se, finalmente, do rio?)

5ª Feira

Pensava que graças à mítica “bazuca”, a questão do orçamento não levantaria assim tantas ondas, até porque nestas alturas já se sabe que a maior parte do bolo vai para as clientelas costumeiras. É verdade que agora mais alargadas para o lado canhoto, apesar do sucessivo descalabro autárquico da muleta mais fiel da geringonça. Quanto ao “centrão”, estando formalmente no poder ou não, ps e psd raramente têm muito de que se queixar. Pelo que o aparente dramatismo, com chancela presidencial, da eventual não aprovação do Orçamento para 2022 ainda soe mais artificial do que é habitual. Parece encomendado, para garantir que apanha as oposições em dificuldades. Rio explicou ontem os meandros da situação laranja (e no cds não é muito diferente), enquanto à esquerda se lambem as cicatrizes das autárquicas e se fica sem saber se é tempo de assobiar para o lado, se é para mostrar voz grossa e tentar recuperar eleitorado.

O ministro da Inexistência (leia-se “Economia”) dizia ontem que o eleitorado do Bloco e do PCP não compreenderia que ajudassem a chumbar o Orçamento. Só que a verdadeira questão é que neste momento parece que só lhes resta o eleitorado que vota automaticamente, porque o outro já fugiu. Para a abstenção e para o Chega.

6ª Feira

No semanário que define a Situação, o PM do momento garante que os incompetentes continuarão no Governo enquanto ele necessitar de alguém que disfarce a sua própria mediania, num país que gosta de nivelar pelo medíocre. A nível central e local confirma-se que as “lideranças” sempre se procuram agigantar ao cercarem-se de quem só lhes consiga fazer sombras às canelas.

Ainda na mesma entrevista o primeiro Costa declara ter quase tanta confiança na competência da DGS quanto na do PCP para lhe fazer as vontades mais complicadas de justificar

Muito Pouco MEL

Aquilo parece uma daquelas vigílias à porta do ME. Só com grandes planos se consegue dar a sensação de estar mais do que a dúzia dos do costume, neste caso de “notáveis” em busca de um lugar numa potencial variante continental da solução governativa açoriana. Mais valia terem encomendado um espaço mais aconchegante.

Aguentei Pouco Mais de Um Minuto…

… a ver e ouvir o António Costa a retomar o seu lugar na agora Circulatura do Quadrado. Apanhei-o com ar sonso a dizer que não lhe competia analisar os resultados das presidenciais, mas que o resultado da Marisa Matias talvez fosse decorrente da atitude menos colaborativa do Bloco em relação ao governo e que o João Ferreira tinha consolidado (ou qualquer coisa assim) os resultados do partido que mais tem ajudado a solução “de esquerda” da governação. Esta última parte foi mais explícita do que a anterior, porque o homem para além de se baralhar muito nas concordâncias, tem o hábito de achar que consegue ser subtil e que aquele sorriso azeitoso é charme natural. Não vi o resto, porque até eu tenho limites para o que consigo aturar de auto-complacência e atentados ao pudor em público (até porque o Jerónimo me parece camarada recatado em tais matérias).

(entretanto, leio que “Costa defendeu o ministro da Educação dizendo que “ninguém proibiu” o ensino online” e não há realmente pachorra para tanta aldrabice)

2ª Feira – Dia 4

Tem estado quase toda a gente entretida a discutir a ascensão da “extrema-direita” naqueles moldes muito provincianos que é habitual entre os politólogos (oficiais ou de redes sociais) cá do burgo. Salvo raras excepções, parecem muito preocupados com a “reconfiguração da Direita” e o que poderá fazer o PSD, se der a mão ao Chega para chegar ao poder. A esse respeito, apenas duas notas, que não me apetece entrar muito neste tipo de debate de faróis nos mínimos. Em primeiro lugar, um raro elogio a Rui Rio que ontem foi quase o único a apontar para a geografia do voto em André Ventura e a sua implantação nos bastiões que em tempos foram do PCP e que tradicionalmente votam mais à esquerda; ele tem razão, o voto em Ventura é mais um voto de protesto do que um voto ideológico. E isto conduz-nos à segunda nota que é o de o Bloco e o PCP se terem deixado “normalizar” tanto na geringonça que correm o risco de canalizar o tradicional voto de protesto “contra o sistema”, pois eles próprios aceitaram participar nesse sistema que tanto criticavam, não lhe trazendo especiais modificações; daqui decorre que uma das possibilidades de combater o Chega é exactamente “normalizá-lo”, porque a atracção pelo poder é imensa em Ventura e, chegando à mesa dos “grandes”, deixará cair muito do que agora ergue como bandeiras, para ter uma parcela das benesses e honrarias. E depois de se ver de que massa é mesmo feito (de um oportunismo sem verdadeira substância), o eleitorado de protesto irá abandoná-lo, em busca de outro partido anti-sistema. Desde o PRD que as coisas são assim, mais ao centro, à esquerda ou à direita.

Imaginem Isto Em Tempos Em Que Existisse Mesmo Oposição

A sucessão de disparates no ME começa a ultrapassar o vagamente razoável e está a par, se não suplanta, as trapalhadas dos tempos do Santana e da “tia” que era da família daquele senhor padre muito conhecido na altura.. Não é apenas o que isto desorienta as escolas e as famílias dos alunos, mas o que significa como sinal de um permanente amadorismo. Apesar de já ter tido tempo para fazer dois ciclos de estudos bolonheses na 5 de Outubro, o ministro Tiago continua aquela lástima que se viu na entrevista ao Expresso. Percebeu-se (e não foi apenas agora) que a carreira política está acima de qualquer coerência ou seriedade. O secretário Costa prefere os momentos e tempos de “sedução” a docentes “páusicos” de qualquer género, que gostam de conversa doce que faça sonhar com o fim dos anos 70 ou algo parecido e detesta ter de meter as mãos em tretas destas.

Nem vale a pena perder tempo com aquela de as turmas não irem ser divididas porque, afinal, os alunos cabem todos nas salas e o “distanciamento social” como prevenção é uma espécie de mito urbano moderno para o cientista Rodrigues.

Os manuais eram para devolver, apesar de se quererem recuperar aprendizagens no próximo ano; no Parlamento é votada a não devolução e o ME manda devolver na mesma até que alguém lhe deve ter explicado a estrutura dos poderes nos regimes liberais, porque no 6º ano ele estava distraído, porque História era uma chatice, e lá se disse que era mesmo para não devolver, embora grande número, na dúvida, tivesse devolvido.

Agora são as matrículas. Qualquer director de turma sabe que foi instigado com intensidade para convencer os encarregados de educação a usar o Portal das Matrículas; houve mesmo escolas que nem consideraram a possibilidade de matrículas presenciais. Deram-se datas, mas percebeu-se rapidamente que a última semana de Junho foi o melhor período para o usar, mesmo antes de se saberem os resultados das avaliações. Em pouco tempo, com a palavra passada, o portal começou a não aguentar os acessos simultâneos que eram previsíveis. E os directores de turma começaram a recomendar que se fizesse tudo pela madrugada, como antigamente com os primeiros irs por via electrónica. Quando tudo aconselharia que, em tempos como estes, as matrículas para quem permanecesse no mesmo agrupamento fossem automáticas. Mas não. Agora fala-se em “ataque informático” para justificar uma medida que deveria ter sido tomada há duas semanas. Não sei se existiu e até espero que não, pois os meus dados estão lá. Mas se houve mesmo, que segurança sentirão os pais dos alunos dos anos iniciais de ciclo ao irem lá colocar as suas informações?

Só que não temos oposição, por razões há muito sabidas. O Bloco anda a ver se apanha as últimas migalhas, enquanto encena umas questiúnculas e uns arrufos. O PCP anda a ver se ainda tem migalhas e não sabe bem o que fazer, não percebendo que já ninguém fica convencido com o perigo do papão da “Direita” chegar ao poder. Porque a “Direita” não existe. O PSD não tem uma mão cheia de gente que apareça e fale com credibilidade sobre seja o que for e o seu líder fica muito feliz só porque tem tempo de antena para dizer umas coisas. Se até o histórico militante laranjinha número 3 é o candidato preferido do actual PM, percebe-se que Rio está lá, porque é preciso estar lá alguém que nem perceba que só está lá para a cadeira não ficar vazia. Quanto ao CDS, apesar da boa iniciativa relativa aos manuais, é uma caricatura em miniatura dos seus piores tempos. Os outros? Os “novos”? A sério? Alguém leva mesmo a sério o Ventura (alguém que o convide para vice do Benfica e ele chega-se logo), a Joacine ou as zumbas do PAN?

O governo governa como bem quer e entende, podendo falhar tudo e mais alguma coisa, porque “o Marcelo” quer ser plebiscitado e bater o recorde de percentagem na eleição para um segundo mandato e não há qualquer tipo de “contrapeso” com verdadeira capacidade de intervenção. A maioria da comunicação social está estrangulada pelo medo de falir e aceita quase tudo, assinando de cruz. O poder judicial funciona até esta ou aquela instância, mas depois esbarra quase sempre numa parede imensa de cumplicidades.

Nem nos tempos mais ferozes do “engenheiro” se viu tamanha anomia e incapacidade de acção da oposição.

A democracia não é isto, mesmo se há cortesãos que batem palmas e se congratulam por esta forma “nova” de união nacional.

A preocupação maior é se os cámones vêm para o allgarve ou não. Tudo isto é triste, tudo isto é um mau fado.

joao_abel_manta_turistas_1972

Resumo Do Momento Político

O Centeno está farto disto e sabe que, em tempo de vacas magras, se perceberá que ele é mais troikista do que o Gaspar e a Maria Luís juntos. Basta ver a “reversão” que “repôs rendimentos”, rapidamente sacados por via fiscal.

O Costa, António não gosta de parecer que não é ele que manda mesmo, mesmo quando não manda mesmo em vastas áreas da governação. E quando tem de dar a cara por coisas lamentáveis como a alimentação a ouro líquido, da banca e afins.

O Marcelo gosta de aparecer como o grande conciliador, mas com um toque de severidade, que – como uma espécie de patriarca bíblico com um pé no Antigo testamento e outro no Novo – castiga as más práticas com palavra, mas recompensa o arrependimento com afectos.

O resto são figurantes, abaixo de actores secundários, da situação à anémica oposição, não esquecendo os geringonceiros órfãos, que se tentam posicionar o melhor possível para apanharem as migalhas de notoriedade pública que lhes possa garantir carreira futura quando os outros se reformarem ou forem à vida deles, além-fronteiras.

marioneta-de-madera