3ª Feira

O dia quase começa a ouvir, na TSF, a agora secretária de Estado da Administração Pública Inês Ramires (não se lembram dela na Educação, pois não? mas esteve lá muito tempo) a debitar o guião que lhe deram acerca dos aumentos de salários na Função Pública E disse algo como “propomos estabilidade num tempo de incerteza” acerca da proposta plurianual de aumentos, o que é uma mistificação, porque em tempos de incerteza acerca da evolução da inflação, amarrar a maioria dos funcionários públicos a um aumento minguado é ir além da troika, ou seja, fazer cortes salariais dos grandes, só que sem o confessar. E não adianta vir qualquer ilusória “ala esquerda” do PS dar a entender que se tivesse mais poder no Governo faria diferente, que isso é milho para os pardalitos do Bloco e do PCP que, claro, estarão formalmente contra, mas no fundo adoram a ideia de esmifrar a nossa “mítica” classe média, desde que existam dinheiritos para estudos e investigações nos observatórios e centros certos. Ou umas nomeações à medida da reconstrução das memórias. Os boaventuras e equiparados explicam.

5ª Feira

Será esta a maioria absoluta que mais rapidamente se desagregará ou que da forma mais absoluta se encapsulará no “núcleo duro” encostado ao centrão das negociatas? Já quanto ao Pedro Nuno santos, se não queria continuar a ser ministro da Situação, já tinha idade para nem chegar a entrar. Assim, sairá empurrado ou ficará resumido à nulidade.

Super-Ministério?

Na fase do atirar-barro-à-parede-e-depois-logo-se-vê-o-que-agarra, fala-se em super-ministérios e em particular num que englobasse outra vez todos os níveis de ensino e a investigação e Ciência. Claro que já há vozes superiores a clamar contra isso, porque querem ter o “seu” ministério, onde possa estar um dos seus pares, mais ou menos alinhado com estes ou aqueles, que possa ajudar a decidir as coisas com maior diálogo, digamos assim (nesses ambientes, acham que alguém vem com a conversa “o aluno no centro da Educação”?). No meu caso, tanto se me faz, embora de acordo com aquela lógica de as Universidades passarem a escolher os seus alunos de uma modo mais “específico”, fizesse sentido unir as pontas, fazer as pontes, coiso e tal, mais ou menos chavão.

O problema é achar alguém que consiga ter uma posição com suficiente reconhecimento nas várias áreas, com carisma para não ser engolido em tanta competência ou ser ultrapassado por secretários de Estado que percebam mais do assunto do que @ própri@. Eu tenho uma ideia clara sobre quem o poderia ser, mas acho que seria andar com a carreira, a credibilidade e o seu poder de influência às arrecuas. Claro que não penso em Marianas Vieiras da Silva, mesmo com toda a água benta da linhagem ou do apoio do primeiro-ministro que foi e será. Um regresso, com maiores competências do ministro Tiago, só mesmo como anedota.

E depois haveria toda uma equipa de secretári@s a escolher entre quem é preciso recompensar pelos serviços prestados e isso seria complicado se @ escolhid@ fosse pessoa de fibra e pouco sensível aos bastidores. É por isso que acho que aquele em que estamos quase tod@s a pensar (Nóvoa) dificilmente poderia ser, pois não me parece que o seu perfil sirva para figura decorativa, num saco de gat@s assanhad@s, habituad@s aos favores e tenças da Corte Costista de primeiro e segundo nível. Mesmo se já vejo por aí muita gente a sacar citações a preceito.

Quem Quer Atravessar O Deserto Durante Quase 5 Anos?

É a questão que se coloca à agora chamada “direita tradicional” (PSD+CDS). Será que quem antes tanto lutou pelo poder tem mesmo esse espírito de sacrifício, para mais sabendo que nem deverão conseguir chegar ao fim da “seca”, por tantos exemplos anteriores? O Expresso tem por ali umas notícias a relançar Rangel e Melo, mas penso que é um daqueles empurrões envenenados, a menos que seja com a garantia de uns quantos lugares em administrações quando tiverem de ser afastados para dar lugar aos que irão verdadeiramente herdar os ossos que o PS deixar por roer daqui até quase ao final de 2026.

Os Apeados

Estas eleições e a maioria absoluta que dela resultou tem várias consequências, a maioria (absoluta) no meu entendimento negativas, mas há outras com o seu quê de curioso ou caricato.

À direita, quando se começou a cheirar a eventual “poder”, por via de uma “geringonça de direita”, com ou sem vitória do PSD, apareceram logo umas figuras a apresentar serviço, a ter súbita opinião sobre temas acerca dos quais tinham guardado prudente recato anos a fio. Houve por ali umas curtas semanas em que, acreditando que o antes impossível teria deixado de o ser, tivemos direito a públicas frontalidades, antes praticamente desconhecidas. Aquel@s que antes deixavam outros chegar-se à frente, preferindo a sombra, apareceram ao sol de Inverno e acabaram escaldados. Queriam tanto ser laranja, que acabaram mesmo amarelo torrado. O que tem a sua graça.

À esquerda, com a consolidação do Bloco como 3ª força parlamentar em 2015 e 2019, feita a “geringonça”, para além de eleitores, o BE passou a atrair uma quantidade assinalável de “penduricalhos”, seduzidos pela possibilidade de chegarem à mesa das coisas boas por via da necessidade do PS ter os bloquistas do seu lado. A confusão ideológica que faz parte da matriz do partido formado por vários partidos e movimentos que eu ainda me lembro de andarem à pancada (mesmo fisicamente) em outros tempos, fez com que esta adesivagem acontecesse sem grandes problemas, até porque quem diz venham mais cinco, diz venham mais cinquenta. E o Bloco perdeu identidade, como diriam outros, a coisa “deslaçou-se” e viu-se até que ponto os seus núcleos urbanitos e académicos, tão estimados nas próprias tertúlias de alguma direita cool, se tinham afastado afastado das suas bases tradicionais, enquanto os ocasionais voltaram ao PS, foram ter com o Rui Tavares ou pura e simplesmente ficaram em casa. Agora, com o desinchar do balão artificial, os “penduricalhos” ficaram ali a-dar-a-dar nos ramos da árvore meio seca e notam-se muito, no falhado oportunismo. O que também tem a sua graça.

3ª Feira

No rescaldo das eleições, Boaventura Sousa Santos fez sair hoje no Público a sua análise da situação política, em particular do Bloco de Esquerda. Não me diz respeito, vou passar adiante. Mas ouvi a intervenção do BSS na TSF em que teorizou sobre mais coisas e, na complexidade do seu pensamento, tropeçou nos próprios pés. Porque não se pode afirmar que “não existem posições irreversíveis em política” (acerca de eventuais novos namoros à esquerda) e depois dizer que é imperativo existirem “linhas vermelhas” (acerca das relações com a “ultra-direita” e da forma como Merkel actuou, por oposição à ambiguidade de Rio). Não estou a dizer qual das posições é a certa, as duas ao mesmo tempo é que é capaz de só estar ao alcance grandes mentes.