Tentem Não Atrapalhar, Por Favor!

Na peça de hoje do jornal I sobre a iniciativa para recuperar o tempo de serviço, temos a secretaria sindical do ME a fazer declarações verdadeiramente “redundantes” (mais logo colocarei imagem):

Mas, para a Fenprof, esta iniciativa “é redundante” porque “não faz sentido estar a fazer o esforço de reunir 20.000 cidadãos para fazer uma lei que preveja a recuperação do tempo de serviço quando isso já está na lei”, apesar de não ser cumprida pelo governo. “A negociação em curso é apenas para definir o prazo e o modo como a recuperação do tempo de serviço vai ser feita”, não estando em causa para os sindicatos a recuperação total dos nove anos e quatro meses de tempo de serviço.

Vamos lá a ver umas coisas:

  • A questão do “esforço” é com quem se esforça, não convosco. Nunca critiquei o “esforço” que fazeis nas vossas reuniões (internas ou em romaria ao ME) ou iniciativas. Isso é lá a vossa forma de estar e modo de vida. Posso é criticar a evidente falta de resultados.
  • O que “não faz sentido” é vocelências andarem a fazer-nos perder tempo há dois anos e meio, fazendo fretes ao governo até ele não precisar já do vosso apoio, porque o Rio está disponível para todos os acordos ao centro que ajudem a lixar qualquer “radicalismo”.
  • “Redundante” é pedirem “formas de luta” (quase a pedido do ministro Tiago) para que demonstremos a “insatisfação” dos docentes, mas depois só quererem as que os vossos serviços burocráticos decidem e enquadram.
  • Por fim, entre o que “não está em causa para os sindicatos” e aquilo que eles têm alcançado nestes últimos anos vai um “desvio colossal”.

Resumindo: não atrapalhem. Isto é um complemento da acção sindical para dar mais visibilidade ao assunto como, pelo menos, o Dias da Silva parece ter entendido. Se não der resultado, deixem estar, empataremos convosco em eficácia.

Empurrao

 

 

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Será um Projecto Flexível?

Abordar durante umas semanas com as turmas do 9º ano a História da segunda metade do século XX a partir das tendências da música popular? Como se percebem muito melhor as décadas de 50 a 90 se as olharmos pelas tendências musicais que mais as marcaram? Não é uma ideia especialmente original, mas agora é mais fácil com os suportes digitais. Que pena a Educação Musical “morrer” no 6º ano no currículo do Ensino Básico. Porque, obviamente, eu não sou o mais competente para explicar a parte especificamente musical da coisa, pois sou mais da geração do vídeo. E com o regresso do vinil, será giro voltar a ver as velhas capas… quiçã em articulação com EV (e as lyrics com o Inglês and so on and on…)

Cultura Pop

(sim, a “capa” tem apenas uma selecção, redutora, das “vanguardas”…)

 

Desfasamentos

Só quem conhece os ritmos dos tempos escolares por dentro é que consegue entender verdadeiramente que um ano lectivo não pode, nem deve, começar a ser pensado a meio ou no final do 3º período do ano anterior, em especial em período de provas de aferição (as boas, que são as de agora), provas finais ou exames, para não falar em outras exigências de final de ano lectivo ou mesmo as questões de concursos e conexas. Há uma espécie de período mais calmo, ali por Janeiro-Fevereiro, até ao Carnaval, que é aquele em que existe alguma “respiração” para que as “novidades” cheguem, comecem a ser digeridas e preparadas com um tempo adequado a alguma ponderação e não na base do empurrão de última hora. Depois, beneficiando desse período, pode vir sim, a fase da “operacionalização” das mudanças.

Infelizmente, o tempo político e legislativo é praticamente imune a este tipo de considerações e produz diplomas quando calha, embora curiosamente com preferência para o final dos anos lectivos, a pior altura para o fazer. A preparação dos diplomas, os debates, a agenda e a propaganda política exigem um ritmo diferente ou apenas são indiferentes a tudo isso. As negociações com os grupos de pressão ou com os potenciais apoiantes na defesa das medidas são mais importantes do que o bom funcionamento das escolas e temos três tipos de produção legislativa desajustada no tempo: a torrencial (muda tudo de uma vez), a recorrente (a que muda quase todos os anos, como acontece com os programas) e a fora de tempo (atrasada, dificultando – talvez de forma voluntária? – a  sua aplicação de um modo ponderado).

Um outro tempo, dizem, é o mediático, epidérmico, de curta duração, que empurra decisões na sequência de eventos singulares mas dramáticos ou com impacto na opinião pública. Um tempo que torna ainda mais complicada a tal “respiração” para que as medidas sejam, mais do que discutidas em circuitos fechados ou de sentido único, aplicadas após análise. Isso ainda acontece, não existindo episódio de violência numa escola ou um qualquer descalabro em instalações, para se “descobrir” pela enésima vez o problema da “indisciplina” ou da “falta de investimento”. Só que essa tendência para a fixação em epifenómenos se tem voltado a cruzar com uma função perversa de alguma comunicação social que é a de funcionar como caixa de ressonância e eco dos decisores, numa espécie de pacto renovado entre quem decide e quer ter boa imprensa e quem dá notícias e precisa da boa vontade das fontes oficiais. E voltámos a ter, após alguns anos de algum escrutínio crítico – e com óbvias excepções – a produção de notícias conforme a chegada dos dossiers temático-políticos das centrais de comunicação do governo ou ministérios, levando a um empobrecimento evidente do papel específico da comunicação social na análise de propostas ou decisões apresentadas como incontroversas, inadiáveis ou por demais evidentes.

As consequências de tudo isto: o reforço da sensação de isolamento das escolas e dos professores perante, não apenas a tutela por mais auditórios que encha com requisições à força de audiência por parte das amizades directivas convergentes, mas uma informação e opinião publicada cada vez mais distante do seu quotidiano ou então alinhada apenas pelo pensamento central unificado em torno da Educação como chata obrigação orçamental, enfeitada com pózinhos de perlimpimpim retirados do baú dos tesourinhos pedagógicos deprimentes.

phases

A Versão Longa

Do tal texto que ficou por publicar, está aqui no Patrícula Elementar, por simpatia da Sarah Adamopoulos, porque este Quintal me pareceu pequeno para tantos caracteres. Fica só o novo título e o final. Para o resto é só clicar.

Dar aulas

(…)

Tive sorte, eu. Muita sorte, nesta minha primeira sala de professores, na minha primeira escola. A minha velha escola.

Fui ficando. Mesmo com algumas digressões e interrupções. Voltei a ela, andei por muitas outras. Quando fui fazer outras coisas, acabei por voltar. A outras escolas, muitas, durante muito tempo. Fiquei. Não me obrigaram. Foi onde me senti melhor. Afinal já são mais de 45 anos, deste ou daquele lado das mesas.

PG 4

 

Estaria Impróprio Para Publicação?

Há coisa de uns 5-6 meses pediram-me um texto sobre o sentir dos professores e o seu quotidiano para publicação numa revista em que esse tipo de temas nunca apareceu. Perguntei data de entrega do texto e limite de espaço. Sublinho que não foi sugestão minha, que já me deixei disso há uns anos. E quem me fez o pedido nem é pessoa do meu relacionamento habitual, mesmo se aprecio o que escreve; apenas contactámos episodicamente. Cumpri o prazo e a extensão. Um mês depois e a cerca de mês e meio da prevista publicação, perante a ausência de qualquer resposta, perguntei por mail se a coisa estava publicável naqueles moldes, se era preciso algum tipo de edição ou mudança. À segunda tentativa foi-me respondido que na semana seguinte começavam a ser preparados os textos para a revista e que me dava a resposta. Até hoje. A revista já saiu (há umas quantas semanas) e, sem surpresas, nada apareceu por lá. Sendo grande, é uma revista com muitos textos e de boa qualidade e outros de qualidade menor, do tipo relatório final de um seminário bolonhês. Assumindo que sou parte interessada na avaliação, acho que o meu escrito não seria o pior se lá estivesse. Confesso que não fiz mais qualquer inquirição acerca do assunto, até porque não gosto de me impor (ou ao que escrevo) em ambientes em que desgostem de um certo realismo docente. Também já me deixei disso. Já estou velho para assinalar descortesias.

Ficam aqui os primeiros 6000 dos 25.000 caracteres da prosa final.

caligrafia

A Velhice dos Professores Eternos

– Professor? Posso perguntar uma coisa que não tem a ver com a matéria?

(estava a ser um final de manhã agradavelmente calmo, atendendo à turma em questão, daquelas que não é por terem poucos alunos que a paz se consegue com facilidade durante 90 minutos, mesmo com muita diferenciação e contorcionismo pedagógico para explicar a sintaxe)

– Sim, claro, diz lá o que queres saber.

(confesso, não desgosto quando a conversa levanta voo dos tipos de sujeito, dos complementos… embora a A., 14 anos, diversos deles de um assertivo insucesso escolar, contra tudo o que nela era habitual, se mostrasse algo hesitante em avançar com o resto da inquirição, sendo esse o primeiro sinal de que algo ainda menos normal do que o habitual poderia estar para acontecer)

– … … ahhhh… não leve a mal a pergunta, pode ser?

(a seu lado a L., 13 anos de uma rudeza digna de qualquer estereotipado estivador de barba rija, baixava os olhos numa atitude de recolhimento absolutamente fora do normal, sendo isso que me despertou em definitivo de um certo e bastante raro torpor mental durante estas aulas de um pca de 5º ano, turma de “percurso currículo alternativo” como se designa oficialmente, mas turma com problemas comportamentais acrescidos numa designação mais fiel aos factos, com uma dúzia de alunos sempre prontos para antecipar o apocalipse apenas pelo gozo da coisa)

– Pode… diz lá… levo poucas coisas a mal… já devias saber isso ao fim destes meses.

(para que fique registado, o tal torpor só era possível devido ao balanço inconclusivo em forma de tréguas ao longo de um punhado de meses com umas nove horas semanais de aulas de português e história, ficando acordado entre as partes – turma, professor – que qualquer escalada acabaria sem vitória final para os “agressores”)

– Pronto, é assim, setor, está a ver aquelas mulheres que têm relações com muitos homens?

(ops… uma curve ball, desta eu não estava à espera… estado de alerta em definitivo, isto vai ser mais interessante do que o esperado… até desculpo o regresso ao tratamento irritante por “setor”… ao mesmo tempo o resto da turma também já está tão alerta quanto eu, mas daquela forma estranha para eles que é o silêncio… cheira-lhes a algo…)

– Ver, ver, não estou agora, mas não interessa, já percebi do que estás a falar. O que têm essas mulheres que te interesse agora?

– É assim, elas têm muitas relações com os homens, está a ver, ao longo do dia.

– Ou da noite, mas agora não interessa nada, continua…

– É assim, elas têm de tomar banho depois, certo?

E eis como a aula de Português desaparece e começa toda uma outra coisa. Para a qual não há “formações” que ajudem a preparar, porque são situações espontâneas, inesperadas, em que os alunos são pessoas jovens a perguntar aquilo que sentem necessidade de saber e se sentem à vontade e com confiança para perguntar a alguém que consideram capaz de lhes responder, de não recusar esse tipo de conversa, sem medo de entrar por territórios complicados. Quando se estabeleceu uma relação de confiança depois de todas as disputas, medições de forças, conflitos em busca do equilíbrio certo de poderes.

Mas isto significa que os professores são confrontados com situações inesperadas a um ritmo elevadíssimo e não se trata apenas da chamada “gestão de conflitos” na sala de aula. A intensidade da interacção é de difícil compreensão para quem está fora da profissão, para quem a olha de fora com variados preconceitos, desde o mal disfarçado complexo de inferioridade à ostensiva exibição de uma superioridade intelectual ou social, passando pela necessidade de exorcizar velhos demónios do passado. Por vezes, tudo misturado. A combinação desta dupla pressão, a do quotidiano desgastante com a de alguma opinião publicada em estilo de comentário de tertúlia ou esplanada, produz efeitos devastadores em grande parte dos docentes, levando a níveis muito elevados de stress com consequências que vão do avolumar do desânimo, alheamento e mesmo uma crescente indiferença e apatia à fúria nem sempre bem contida, nascida de sentimentos de incompreensão e falta de controlo sobre a sua própria situação. Sim, ainda há quem tente matizar um dos extremos com algum humor e auto-derisão, mas isso nem sempre é um exercício fácil.

Nada é mais irritante – eu sou dos que tenta controlar as coisas com o humor mas inclino-me muitas vezes para a fúria moderadamente contida – do que ler ou ver gente que se faz passar por especialista ou perita em matérias educativas e muito em particular no quotidiano das escolas, no que é “melhor para os alunos”, pois “sem eles não há Educação” (como se pudesse existir apenas sem professores) a produzir opinião com fundamentos truncados e mesmo conscientemente manipuladores como se fossem teses indesmentíveis e definitivas. Não se trata apenas da demagogia política; essa já se espera, faz parte do território e um político a falar a sério de assuntos sérios é uma espécie extinta e sem hipóteses de renascimento. Trata-se de algumas criaturas que aparecem como tendo “estudado”, feito “investigação” nas matérias e se sentem com competência e autoridade intelectual para ensinarem os professores a ensinar, decretando a necessidade de mais “formação” para quem eles consideram estar desactualizado nas teorias a que chegaram (os tais especialistas) tarde nas suas leituras introdutórias a uma qualquer tese para progressão na carreira político-académica. A fúria que nos cresce ao ler e ouvir certos discursos é imensa e nem sempre se consegue gerir essa sensação de vulnerabilidade perante o disparate alheio da melhor maneira. Cada vez que nos querem fazer acreditar que, no “século XXI” andamos a replicar práticas de Oitocentos, há algo que ferve perante a ignorância presumida de quem não leu Pestalozzi, Fröbel, Montessori ou Dewey em devido tempo. Ou que por os ter descoberto tarde, considera que todos se podem medir pela mediocridade própria.

(…)

Uma Espécie de Axioma

Quando leio ouço alguém afirmar que está a defender “o superior interesse dos alunos” já sei que estou perante alguém que está a defender os interesses particulares de alguém que não os alunos.

Axioma

(porque “o superior interesse dos alunos” é em muitos aspectos umas construção ideológica resultante dos pré-conceitos de alguém, indivíduo ou grupo, sobre a função da escola e do que se pode considerar a posição do “aluno” no contexto escolar)

Uma Quarta-Feira Qualquer

Desta vez sem gralhas embaraçosas no título. O texto segue, no essencial, um par de posts que aqui publiquei, o último deles sobre a Cimeira Internacional sobre a Carreira Docente, terminando assim.

Este tipo de conferências, debates, seminários, têm reforçado o seu carácter “fechado”, endogâmico, sem qualquer tipo de contraditório, funcionando como câmaras de eco, visando formatar uma elite que irá, depois, multiplicar o discurso ouvido do topo para a base, enquanto nas escolas se mantém um modelo de gestão que se baseia na hierarquia, nomeação e obediência acrítica às circulares, recomendações, portarias e decretos emanados da tutela, sem qualquer interesse em recuperar uma participação mais activa dos docentes na organização escolar. Defendem-se “práticas colaborativas”, desde que elas não se apliquem ao modelo de gestão. Postula-se a “autonomia” desde que ela se mantenha dentro dos limites definidos superiormente. Anuncia-se a “flexibilidade”, mas apenas se aceita a que corresponde a uma aceitação invertebrada de conceitos “inovadores” que já mostraram no passado a sua falência quando associadas a um desinvestimento real nos professores.

Em suma, esta é uma apenas mais uma quarta-feira, como qualquer outra.

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