Os Limites Do Pensamento Mágico Acerca Das “Bolhas”

No passado, num par de situações mais complicadas em que a minha intervenção no decorrer/resolver de uma situação não era possível, terei entrado pelo que uns chamam crença na sorte, esperança no acaso, Fé. Aquilo que podemos considerar “pensamento mágico”, ou seja, tudo vai acabar bem ou porque achamos que somos bons e não merecemos tão má sorte ou porque não temos maneira de controlar o que se passa e acreditamos que com a força de vontade a realidade poderá aceder aos nossos desejos. Tirando um caso (a confirmar junto do Vaticano ou da Autoridade Internacional para as Leis do Acaso) , a coisa nunca funcionou e duvido sempre que funcione.

E estamos a viver em cima de uma crença irracional em que tudo vai correr bem, porque se acha que até estamos a fazer as coisas da forma correcta e o melhor possível e que… “risco existe sempre”.

Não é bem assim.

Há muita coisa a ser mal feita, a começar pela inépcia de um discurso político que muda conforme os dias da semana, as horas do dia e o público-alvo, enquanto se vende “segurança” e se pretende “confiança”.

No concreto, conheço melhor o que se passa nas escolas, os tais espaços de alegado mínimo risco, no qual trajectos diferenciados irão assegurar que as “bolhas” se mantenham quase estanques e (quase) imunes a contágios. O problema maior, para além da impossibilidade do pensamento mágico funcionar a uma escala tão global, é que a teorias das “bolhas” é uma enorme mistificação e a sua fundamentação profundamente falacciosa. Todos os dias, cada “bolha” (de docentes, de pessoal não docente, de alunos) se reconstitui a partir de dezenas ou centenas de outras “bolhas” exteriores às escolas, sobre as quais pouco ou nada se sabe. E as “bolhas” também aumentam dia a dia, com a entrada de novos elementos (sim, as turmas começam a aproximar-se ou a ultrapassar os limites máximos “legais”, mesmo em contexto de pandemia). E cruzam-se em espaços que são comuns, por muito que digam que o não são, em particular em escolas onde continuam a existir muitos equipamentos partilhados por quase toda a gente.

Não pode ser de outra forma?

Em parte, talvez seja verdade, mas nem tudo tem sido devidamente prevenido ou, pelo menos, tem sido pensado olhando de cima e raramente do piso térreo do corredor ou do pátio das escolas. Há muita asneira mal disfarçada, muito equívoco “conceptual” (a começar pela “teoria das bolhas”) e muita crença em arco-íris resplandecentes. Tem sido feito “o melhor possível” e “sempre que possível”? Não chega. Já não está a chegar. Não vai chegar. Não ´é alarmismo. É apenas o conhecimento directo das coisas, tal como elas são. Tomara eu que não fosse assim. Mas está a ser.

Há quem esteja muito pior? Acredito, mas o argumento da mediocridade como benchmarking é muito débil.

E começo a ficar farto daqueles tapetes do ikea…

(e é tão interessante ver colégios “de topo” a ignorar por completo nos seus sites o que se passa, preferindo os “contactos pessoais”  – não presenciais, claro – para comunicar as ordens de marcha para casa…)

Ter Ou Não Ter Medo, É Essa A Questão?

Não me parece que o “medo” do vírus seja o medo que mais tolhe a sociedade neste momento, a sério que não. Por estranho que pareça, acho que o maior medo é o dos governantes (e alguns outros políticos) de ficarem expostos às consequências dos seus erros de avaliação, entre o cálculo político e aquilo que deve ser feito, independentemente de ganhos/perdas nas eleições. Há quem chute para o lado (Rui Rio a querer “deslocalizar” o Tribunal Constitucional é daquelas questões típicas de quem está para além de Plutão) e há quem venda o “medo” da paragem da economia.

E se querem que vos diga . em especial aos teorizadores do “medo do vírus” – que o discurso do “medo da economia parar” tem sido uma narrativa bem mais poderosa e espalhada de forma deliberada. Aliás, o grande problema é o efeito dessa narrativa nas pessoas (e até o notei nos alunos, no fim do ano lectivo passado) que passam a ter mais medo (bem real) de perderem o emprego, rendimentos, a sua estabilidade profissional e financeira do que medo de serem contagiados, em especial quando se sentem num grupo de baixo risco. E passam a esquecer que não é só o “eu” que está em causa.

Não me sinto particularmente receoso de contrair o vírus. Mas receio ser agente da sua transmissão, mesmo se não frequento lares de idosos, onde os seus efeitos da covid-19 são mais devastadores. Mas percebo que há quem não pense assim.

“É pá, em seis meses morreram menos de 2000 pessoas, quase tudo velhos, é assim tão grave?” é o subtexto inicial que desagua no discurso do “medo da economia parar”. O “risco” de morrerem mais umas centenas de velhotes é considerado aceitável perante as imposições da economia que não pode parar.

Claro, os “especialistas” dirão que sem a economia funcionar todos ficaremos sem emprego e tudo irá à falência e esse é um fortíssimo “discurso de medo”, mas o curioso é que há tanto nas ciências ocultas da economia que não passa de uma representação estatística da realidade. Mas é com esse discurso que se diz que 1) todos temos de ir trabalhar; 2) as escolas não podem fechar para todos irem trabalhar; 3) o risco de transmissão entre crianças e jovens é muito baixo; 4) o “risco” de morbilidade é baixo para a maioria da população, mesmo contagiada.

E eu acho que é verdade… que há efectivamente um “discurso do medo” em torno do SARS-CoV-2, mas é o “medo da economia parar” apoiado em algumas falácias e muita “ciência” económica. O meu carro quando pára, pára, não pára 10% ou mesmo 15%. Nesse caso, desacelera e nem sempre é por más razões. Pode ser para evitar um acidente.

A analogia pode não ser a melhor, mas penso que dá para perceber que o discurso do medo mais actuante há longas semanas é o do medo económico, o do medo do desemprego, da perda de direitos laborais. Um medo que se afirma só ser possível combater indo trabalhar, deixando os filhos na escola e cruzando os dedos com os avós nos lares. Indo trabalhar, nem sempre com as condições adequadas de segurança e a informação completa sobre o que pode acontecer depois, especialmente em ambientes onde passou a dominar a crença do “tudo vai acabar bem”, eu vou escapar.

Sim, existe um fortíssimo “discurso do medo”. Que não tolhe os movimentos, mas qualquer contestação, que é apresentada como “irrealista”. E não é em primeiro lugar contra os críticos do uso da máscara, porque esses também apostam no medo desse mesmo uso, das suas consequências sanitárias, sociais e políticas.  

A estes discursos do medo juntam outros “medos” mais ou menos artificiais em torno do “estado mental” das crianças ou adultos que usem a máscara durante muito tempo. Esquecendo-se que em muitas partes do mundo o seu uso já é obrigatório por causa da poluição atmosférica.

Do outro lado, apontam-se os “traumas” de quem não possam sair de dia todos os dias e socializar. E eu lembro-me do que era crescer em tempos durante os quais havia um ou dois canais de televisão, net nem imaginá-la e sair de casa para passear era evento semanal ou mensal para a maioria das famílias. Será por isso, que agora temos por aí tanta gente traumatizada por ficar uns meses com “socialização limitada”? Que raio de “resiliência” tem quem não aguenta uns meses de mobilidade e sociabilidade presencial reduzida?

Repito-me… o “discurso do medo” está aí e em força, Mas não é o “medo do vírus” e, curiosamente, acho que muitos “negacionistas” estão a ler a situação toda pelo lado errado. A máscara e o distanciamento não são estratégias de “medo”, mas, ao contrário, de transmissão de uma sensação de segurança. Para que todos possam manter a economia a funcionar.

A questão sanitária tornou-se subsidiária da económica e política. O medo dos políticos serem descobertos na sua pequenez calculista, motiva o discurso do medo económico que se sobrepõe ao medo de qualquer contágio pelo vírus. E esse discurso vai-se entranhando e cada vez se nota mais nas reacções quotidianas das pessoas.

O número de óbitos por covid-19 passou a ser relativizado tanto pelos que acham que não é verdadeiro, como pelos que acham que é um sacrifício aceitável perante as “consequências devastadoras da paragem da economia”. Para mais, até parece que quase só morrem os velhos, não é?

 

Coisas Que Me Parecem Simples Mas A Outr@s Nem Por Isso

Lia há umas horas uma antiga colega bem divertida, a escrever a sério sobre os perigos imensos de usar máscara e ia mesmo perguntar-lhe qual a solução que ela propões para as as aulas dela, quando a bateria do meu computador decidiu que era hora de desligar e de eu pensar duas vezes antes de chatear pessoas amigas. E fez bem, porque as máquinas têm sempre razão, mesmo se decidirem que devemos ser extintos e tratarem disso como no Descender do Jeff Lemire.

Mas, mesmo assim, gostaria de deixar claras umas quantas coisas que a mim parecem simples e evidentes, mas que parecem ser extremamente complexas para outras pessoas.

  • Gosto de usar máscara? Não.
  • Gosto de dar aulas com máscara? Não.
  • Gosto de ter os alunos de máscara na sala de aula? Não.
  • Preferia que tudo fosse como “antigamente”, com todos de cara ao léu, a perdigotar alegremente? Sim.
  • Acredito que existe uma conspiração global para usarmos máscaras sem justificação nenhuma? Não.
  • Acho que há gente que se está a passar com tudo isto e nem sequer vou distinguir entre os paranóicos de um lado e os do outro? Sim.
  • Prefiro o incómodo de usar máscara ao incómodo de transmitir (ou ser atingido por) algum contágio, sabendo que o posso evitar? Sim.
  • Acredito que somos governados por elites poíticas extremamente medíocres e que colocam os interesses particulares dos seus grupos acima do “interesse colectivo” que tanto gostam de usar como razão para as suas sacanices legislativas? Infelizmente, sim.
  • Acredito que a terra está a ser governada por uma aliança de illuminati com grupos maçónicos, seitas apocalíptico-satanistas e lagartos com origem extraterrestre e camuflagem humana, que se reúnem em florestas remotas para orgias debochadas e tramar conspirações diversas? Não, embora gostasse de ver isso.

(já agora … não gosto de escolas onde acham que não são necessários dispensadores à entrada das salas e que bastam umas borrifadelas no portão e uns quantos dispensadores à entrada dos blocos ou pelo meio da escola, como se acreditassem que isso é uma medida eficaz contra o que quer que seja…)

Que Fique Claro…

… que estou consciente de que há imensa gente a dar o seu melhor na preparação das escolas para o regresso na próxima semana. Tant@s colegas que merecem todos os elogios pela dedicação, preocupação e trabalho inestimável.

Mas há dois reparos que gostaria de fazer, um no cravo, outro na ferradura.

  • Em alguns casos, as condições e circunstâncias impedem que o melhor seja suficiente para ultrapassar os problemas como eu, como professor, já experimentei na pele, O meu melhor não chegou. E segui em frente, porque a vida profissional é mesmo assim. Nem sempre conseguimos. E há que lidar com isso e aprender. Esta situação de pandemia é um desafio inédito e há que ter essa consciência e a humildade de perceber que nem sempre se acerta, por muito que se queira.
  • Em outros casos, espero que em menor quantidade pelo país, o melhor não chega porque, infelizmente, nem em situações normais daria, por falta de consciência das próprias limitações. Este é o tipo de situação que sempre procurei evitar, não me metendo em algo para que não tivesse a necessária capacidade. Só que nem toda a gente pensa assim e não raro há quem se sinta a salvação única personificada. E seja incapaz de admitir o erro por manifesta falta de humildade.

Uma Questão De Perspectiva (E Estratégia)

Compreendo quem tenha uma forma diferente de encarar a discussão em torno do reinício das aulas presenciais para todos os níveis de ensino. Mas considero um erro estratégico centrar a discussão em questões relacionadas com os professores e o seu papel no eventual sucesso (ou não) desta “reabertura”. Não é que as questões sejam de importância menor, longe disso, mas colocá-las no centro do debate tornam, mais uma vez, a classe docente como um alvo fácil de muita opinião publicada e de todos aqueles que seguem a “narrativa” do poder de que “tudo está a ser feito” para que todos estejamos em segurança. Ficamos como uma espécie de sitting ducks à espera de levar mais uma saraivada de impropérios que, no seus melhores momentos, nos fazem passar por “egoístas”. Sim, há problemas graves, a começar pela forma como a lei é retorcida a gosto de governantes ocasionais que mandam os outros para diante, mas depois só comparecem em modo “virtual”. Sim, a situação dos colegas “de risco” é crucial e acreditem que não a desconheço, muito pelo contrário. Mas se há algo que deveríamos ter aprendido ao longo dos últimos 15 anos é que colocar-nos no centro de uma discussão deste tipo equivale a oferecer, em bandeira prateada, o “bode expiatório” ideal para os poderes centrais e locais se desculparem se alguma coisa descarrilar.

Assim como colocar o “envelhecimento da classe docente” em quase todos os debates, sem explicar que a culpa do “envelhecimento” resulta de políticas, com rostos conhecidos, parece dar a entender que somos nós que envelhecemos de propósito para lixar as coisas. Parece ridículo? Pois… mas o discurso sobre os “velhos” que pouco ou nada fazem parte tanta vez de “dentro”, como se houvesse por aí muitos peter pans.

Desculpem-me se, há já algum tempo, considero mais útil uma abordagem que exponha menos o flanco, o peito e tudo o mais às balas. Sou também encarregado de educação e os meus receios são tantos ou mais nessa qualidade como os de professor ou marido de professora e deveríamos saber usar isso em termos de comunicação pública. Demonstrar que é falso o discurso do “tudo está a ser feito” porque é efectivamente falso e explicar porquê.

Eu sei que é tentador, do ponto de vista de algumas organizações, apresentar um número gordo de professores que irão colocar baixa (eu até acho que serão mais…), só que isso soa a ameaça e o ricochete, no actual contexto, pode ser muito negativo. A experiência demonstra que a fala grossa de alguns não tem servido de grande coisa e em vários momentos ficaram a clamar depois do barrete enfiado até aos pés.

Quando o representante das “famílias” alinha, de forma nem sempre muito hábil, no discurso do poder que lhe dá a mão, é nossa missão como professores explicar tudo o que está mal. Não apenas connosco. Com clareza, objectividade, exemplos. E transmitir que o discurso “positivo” de hoje (como em Março) não passa de uma encenação que pouco tempo depois se revela não ter fundamentação. E que pode ser de uma enorme irresponsabilidade.

Se deve ser travado um combate pelo respeito dos direitos laborais dos professores em situação de maior vulnerabilidade nesta pandemia? Claro que sim, desde logo junto do Provedor, expondo a dualidade de critérios existente aos docentes (não poderiam em tele-trabalho os professores assegurar muitas das tarefas relacionadas com a preparação da passagem ao ensino misto ou não-presencial?) e nos Tribunais, sempre que se possa demonstrar o desrespeito flagrante pelas regras da D.G.S.

A Fazer De Coro Grego No JL/Educação

Depois de 7 páginas de ensaboadelas positivas do SE Costa, do Filinto Lima, do Adelino Calado, do homem da Confap, do pessoal das Inquietações Pedagógicas, etc, etc, tudo a querer dar a entender que podemos confiar e que tudo vai correr bem, vem o desmancha-prazeres do costume a escrever que pensa exactamente ao contrário e que conversa fiada não transmite confiança a ninguém. E assim a publicação fica integral, com as notitas de rodapé que parecem irritar os paginadores.

A erosão da confiança

Um novo ano lectivo está a arrancar e, quase por certo mais do que o anterior, será um ano atípico, com muitas variáveis que é praticamente impossível prever em toda a sua diversidade. Por isso, ainda mais do que em situações tida como “normais”, é muito importante que os decisores políticos e todos os envolvidos no apoio à tomada de decisões na área da política educativa (ou em outras) e na sua comunicação ao público tenham um mínimo de sentido ético e de responsabilidade perante todos os cidadãos. Porque um dos créditos mais importantes que qualquer personalidade pública, em especial na área da política, é o da confiança. E não o do reconhecimento da chamada “habilidade política”, porque essa é matéria daquele tipo de “jogo político” que apenas tem contribuído para que grande parte da população se afaste da vida política activa e desenvolva uma atitude de crescente cinismo perante o papel dos políticos e respectiva credibilidade.

O “populismo” anti-sistema, nem sempre definido do modo mais rigoroso, nasce tantas vezes dessa perda de credibilidade de quem deveria ter a preocupação primeira de manter a credibilidade e a confiança no funcionamento do sistema político e não apenas de calcular a oportunidade política de determinada declaração ou decisão. Sei que não é fenómeno novo o uso e abuso do poder em proveito de uma clique de maior ou menor extensão, quantas vezes alegando o “interesse colectivo” ou o “bem comum”, mas não é a repetição que torna aceitável tal prática ou que sejamos obrigados a considerá-la como a norma estabelecida.

Mas voltemos ao arranque do ano lectivo de 2020-21 e à necessidade de existir um discurso transparente, de verdade e do rigor possível, perante as circunstâncias em que se está a dar o regresso ao trabalho escolar, inicialmente apenas pelo pessoal docente e não docente, mas em seguida por mais de um milhão de alunos, com reflexos directos ou indirectos no quotidiano diário da maior parte da população.

Sobre o que se vai passar nos próximos meses, ou mesmo semanas, escasseiam as certezas e multiplicam-se dúvidas à medida que se vão conhecendo novos dados científicos sobre a propagação dos contágios ou sobre a evolução da situação em outras zonas do mundo ou mesmo no nosso país. O equilíbrio entre a exigência de informar de forma rigorosa e a necessidade de não gerar pânico e manter uma sensação de segurança é difícil, mas não pode ser substituído por uma lógica de instrumentalização política, recorrendo a argumentos falacciosos, truncados ou mistificadores. Mas a tentação por privilegiar a transmissão de uma impossível sensação de segurança sobre o arranque das aulas tem levado a declarações públicas a oscilar entre a irresponsabilidade e uma espécie de pensamento mágico sobre a realidade. Como se, se todos “pensarmos positivo”, os riscos de contágios se dissolvessem num horizonte de coloridos arco-íris. Um pouco como as bandeirinhas nacionais nas janelas em tempos de Scolari e da nossa senhora do Caravaggio.

Li e ouvi declarações que roçam o absurdo nessa demanda de mostrarem que “tudo está a ser feito” para que os riscos associados ao recomeço das aulas presenciais seja o menor possível. Declarações de pessoas com responsabilidades acrescidas pelas posições que têm a nível nacional ou nas suas comunidades educativas. Declarações que truncam os factos, deturpam de forma consciente as condições reais no terreno e alinham numa variante de unanimismo demagógico que funciona como uma cortina de fumo, até surgir alguma ventania que a leve, altura em que dirão, sem grande pudor, que nada podia ter sido feito de forma diferente. E não tenho grandes dúvidas que Setembro arranca com a renovação das mensagens tendentes a transmitir “confiança”, com um discurso cheio de “positividade” porque, afinal, “não podemos parar”. Só que quem conhece como as coisas funcionam, dificilmente se consegue reconhecer nestes quadros cheios de gente sorridente de adjectivos fáceis, mas verbos ambíguos.

Em relação ao quotidiano escolar, a verdade é que, com a excepção de algumas arestas limadas nos horários dos alunos, eles são no mesmo número que eram, no mesmo espaço que existia. E que se aposta, com alto risco associado, que os comportamentos nos espaços escolares (e em seu redor) se mantenham dentro das normas de segurança, quando se sabe que isso é algo que só se pode explicar com recurso a uma qualquer Fé.

Na data em que escrevo (31 de Agosto), já se vão conhecendo alguns dados sobre o modo como o reinício das aulas está a ser preparado ou já a decorrer em outros países, num momento em que se verifica uma ressurgência dos casos de contágio em várias zonas da Europa e a sua multiplicação em outras partes do mundo. Perante isso, a Organização Mundial de Saúde tenta conciliar o interesse do regresso dos alunos ao ensino presencial e a um quotidiano escolar vagamente “normal” com as exigências de segurança que uns levam mais a sério do que outros, de acordo com avaliações dos riscos envolvidos que oscilam de acordo com as prioridades e meios disponíveis.

No Dubai, por exemplo, nas salas de aula, muitos lugares ficam vazios para assegurar a distância entre os alunos e os professores estão equipados com máscaras com microfones[i]. Um cenário difícil de assegurar em muitos outros locais. O que não impede que possam ser tomadas medidas destinadas a minimizar as possibilidades de contágio. Na Grécia, o número de alunos por turma foi reduzido para 17 e na Sérvia e Bósnia para 15. Em Espanha para 20, mesmo se existem dúvidas quanto à forma como isso irá acontecer, pois chega a prever-se a organização de aulas em espaços exteriores às salas tradicionais. E exige-se o uso de máscaras a partir dos 6 anos (1º ciclo), tanto em Espanha, como na Grécia, enquanto na Itália isso é exigido sempre que a distância de segurança não puder ser mantida. Também neste país, foram encomendadas quase 2,5 milhões de mesas individuais para os alunos[ii].

Em Portugal, nada disso se vai passar: as turmas continuam com a mesma dimensão, nos mesmos espaços e com a mesma distribuição, o que levanta muitas dúvidas sobre a eficácia de qualquer “distanciamento”. Alega-se que as escolas são dos espaços mais seguros em termos de contágio, mas não se diz que isso decorre de conclusões preliminares com base em amostras parcelares, colhidas quando se reabriram as escolas apenas para a frequência dos alunos do Secundário com exames. Garante-se que os riscos para os mais novos são muito reduzidos, mas não se explica que está em causa todo o movimento dos alunos entre os seus agregados familiares e as escolas. Não se destaca que mesmo que as crianças e jovens em idade escolar não desenvolvam sintomas graves quando infectados, isso não significa que não sejam agentes transmissores para familiares com situações de risco.

Chega a insinuar-se, com escassa subtileza, que o maior (único?) problema na reabertura das escolas é o “envelhecimento do pessoal docente” e o eventual receio dos professores em regressar às aulas por motivos apresentados como egoístas. Um governante esclareceu os directores escolares que os docentes em situação de risco terão de colocar “baixa médica”, sem atender a todo o enquadramento legal da questão. Ou em explicar o que se faz com turmas que fiquem sem um professor (ou mais) durante vários dias.

Como encarregado de educação não sinto confiança nesta forma de governar a Educação em termos de pandemia, pois quando os horários já estão feitos, ainda não se conhecem orientações claras para disciplinas que têm aulas práticas, de que a Educação Física é a que tem presença maior no currículo em todos os níveis de ensino.

Sim, é essencial retomar as aulas presenciais, para benefício maior dos alunos. Mas a reabertura das escolas não deve ser feita como se tudo estivesse previsto por estar escrito em “planos de contingência” ou protocolos que grande parte dos destinatários não lê ou aos quais, mesmo quando lhes são explicados, pouca ou nenhuma atenção dão.

A confiança ganha-se ou mantém-se com respeito pela verdade, não com truques semânticos ou argumentações relativistas, em que se nega o que antes se afirmou ser verdade insofismável, mas sem nunca se reconhecer o erro e muito menos que alguém chamou a atenção para essa possibilidade.

[i] https://www.khaleejtimes.com/coronavirus-pandemic/empty-seats-teachers-wearing-headset-mics-inside-a-dubai-classroom-on-first-day-of-school-2

[ii] https://medicalxpress.com/news/2020-08-european-schools-reopen-smaller-classes.html

 

Agora, No Público

O texto de há um par de dias, com ligeiros acertos, pronto para desagradar e gregos e persas. Mas fica desde já escrito, até para conhecimento presente e memória futura.

Cidadania e Desenvolvimento: uma polémica hipócrita

O que me incomoda mesmo é que as escolas tenham deixado de ser, nessa vivência quotidiana, espaços de Democracia e Tolerância e que acerca disso quase ninguém se indigne.

Pelo Educare

Os cenários e as certezas

Anunciaram-se meios para o projecto de uma Escola Digital, mas não se conhecem em detalhe como isso será implementado, como serão disponibilizados os meios, com base em que critérios e, muito importante, quando estarão disponíveis.

(…)

Resumindo, todos queremos que o próximo ano lectivo seja em regime presencial por razões sanitárias (a pandemia estaria controlada), por motivos pedagógicos (é a melhor solução para alunos e professores) ou mesmo por motivos psicossociais (foi evidente que uma parte da população não está preparada, nem tem condições, para ficar em casa a apoiar o estudo da sua prole), não esquecendo os económicos e financeiros (que acabam por se sobrepor aos restantes em muitas medidas).

Infelizmente, a maior certeza é que não sabemos se assim poderá ser.

pg contradit