Esta Semana No JL/Educação

Quase me engasguei quando vi a primeira página e percebi que lá estavam textos de quatro ex-ministros da Educação e do actual titular. Apesar de, no conjunto, terem ocupado o cargo mais de metade dos últimos 25 anos, é interessante como se lamentam da falta de medidas nesta área da governação, nomeadamente na questão da formação de professores. Quem lê alguns dos textos fica com a sensação que, afinal, estiveram na pasta da Agricultura e Pescas ou que foram manietados por poderosas forças imobilistas e conservadoras (sindicatos, a própria classe docente, essa malandra, que manda em tudo. que os impediram de governar.

Enfim. Não me vou estender. Fica o que é meu.

No passado mês escrevi sobre algumas lições gerais da pandemia na área da Educação, quando ainda não tínhamos iniciado a segunda vaga de ensino remoto de emergência, sendo que a “emergência” deriva em grande parte da não aprendizagem de parte dos ensinamentos colhidos há cerca de um ano.

Desta vez, gostaria de abordar outro nível de lições, de tipo mais prático, sobre o funcionamento do ensino à distância que temos e que continua a insistir numa visão que privilegia mais a burocracia e o controlo do trabalho de alunos e professores do que na sua agilização e adaptação às novas cicunstâncias.

1. Cada nível de ensino e faixa etária tem características próprias, não devendo ser todos os alunos tratados da mesma forma em nome de um conceito deajustado de igualdade. Isto significa que é um erro tomarem-se medidas que não tenham em conta as especificidades e exigências de cada nível de escolaridade, não apenas do ponto de vista sanitário, mas de igual modo quanto à organização do trabalho a desenvolver com os alunos e com as pedagogias a aplicar durante o regime não-presencial. O encerramento de todos os estabelecimentos de ensino foi uma medida acertada, mas tardia. Teria sido mais adequado ter sido feito um encerramento faseado que, para além das questões relacionadas com o processo de ensino e aprendizagem, teria permitido uma mais fácil adaptação das novas rotinas familiares. Da mesma forma, seria importrante que a reabertura seguisse também uma lógica de faseamento, de acordo com os níveis de risco sanitário, a autonomia dos alunos em regime não-presencial e a importância do convívio social para as crianças e jovens de diferentes idades.

2. O ensino remoto não pode replicar o ensino presencial, tanto nos horários como nos métodos de trabalho. O que parece uma evidência não parece ter sido assumido com seriedade em muitas escolas nesta segunda vaga de confinamento geral. Em muitas escolas, os horários do regime de E@D (ensino a distância) procuraram replicar o mais fielmente possível o das aulas presenciais, não compreendendo que são ambientes de aprendizagem muito diversos, que implicam um tipo de interacção muito diferente, provocando um maior desgaste nos envolvidos, em especial quando as actividades se desenvolvem em permanente sincronia e em sucessivas vídeoconferências. Há a clara sensação de se ter querido transmitir a percepção que se deveria assegurar a mesma carga horária de trabalho semanal em sessões síncronas em relação à que existia nas aulas presenciais. Isto apesar de recomendações oficiais em sentido inverso, sugerindo-se que só no Ensino Secundário o trabalho síncrono deveria estar próximo do presencial. Há casos de cargas horárias semanais síncronas de 70-100% dos horários em sala de aula tradicional no 1º e 2º ciclos do Ensino Básico, com 3 e 4 sessões diárias por vídeoconferência, o que é uma verdadeira violência para os mais jovens e um claro desconhecimento da sua capacidade de concentração neste tipo de ambiente de aprendizagem. Igualmente grave é o facto de se ter confundido sincronia com vídeoconferência ou de não se ter compreendido que o ensino remoto funciona tanto melhor quanto sejam planificadas actividades assíncronas que respeitem o ritmo de trabalho diferenciado de cada aluno.

3. Quantidade de trabalho não equivale a qualidade desse mesmo trabalho. Na Educação também se aplica uma variante da chamada “lei dos rendimentos decrescentes” ou da “produtividade marginal” da teoria económica. A partir de um determinado ponto, a adição de mais “unidades de trabalho” (que, neste caso, é de tempo de aulas) não traz vantagens em termos de produtividade e, pelo contrário, mostra-se contraproducente porque implica um esforço acrescido que não é compensado pelos ganhos. A sobrecarga dos alunos (e dos próprios professores) com mais aulas e sessões síncronas, não significa um equivalente ganho nas aprendizagens e, muito em especial, não se traduz em melhores aprendizgens. O culto de um certo “paradigma da quantidade” como elemento fundamental para se medir o trabalho é um erro comum que acaba por desprezar que a qualidade não se mede com descritores meramente quantitativos.

4. A definição clara de fronteiras entre tempo pessoal (privado) e espaço profissional (público) é muito importante para a manutenção de um equilíbrio decisivo para a saúde mental dos indivíduos e neste caso estou a pensar principalmente nos professores que se encontram no cruzamento de diferentes fontes de pressão, desde as chefias escolares aos encarregados de educação, passando pela opinião pública. Na primeira vaga de E@D foi notória a forma como o espaço da escola entrou pela casa de alunos e professores e as casas daqueles e destes umas nas outras. Assim como se verificou um quase total e pouco saudável desaparecimento do tempo privado dos professores, a quem todas as solicitações chegavam a qualquer momento. Muitas vezes por culpa própria, mas que na altura se compreendeu pela inesperada situação que se atravessava e pela urgência em comunicar com rapidez o que se estava a decidir e a fazer. Mas, quase um ano depois, já deveriam ter sido desenvolvidos mecanismos e canais de comunicação que impedissem que se repetisse o que foi um erro, mesmo que exista quem diga que não e que é assim que as coisas devem acontecer. Permito-me discordar, porque eu não mando mensagens a qualquer hora ao meu médico a perguntar-lhe se devo tomar uma aspirina ou um ben-u-ron ou se chega um cházinho de limão com mel, sempre que sinto o nariz a pingar e um certo desconforto no corpo. Muito menos é imaginável criar um grupo de whatsapp com os contribuintes cá de casa e o funcionário das finanças do meu bairro fiscal. Mas os professores aceitaram fornecer o seu número pessoal para o que desse e viesse e usaram os seus telefones pessoais para assegurar que a emergente rede pública de E@D funcionasse. E estão a voltar a fazê-lo.

5. Uma outra questão recorrente é a da burocracia que aumenta a cada nova situação, raramente desaparecendo qualquer camada de exigências de registo de informação, por mais arcaica que seja. O avanço do digital raramente levou ao desaparecimento do analógico. Ou conduziu a uma simplificação ou aligeiramento dos procedimentos. Em muitas escolas existe uma preocupação obsessiva em assegurar que se regista tudo o que se faz ou que deve ser feito ou que se pensa que fica bem ser registado que se fez. E esse registo deve ser monitorizado e o que se faz deve ser avaliado, monitorizando-se essa avaliação e avaliando-se se a monitoriação funcionou. Em plataforma local criada para o efeito ou aproveitando ferramenta central. Mas nunca descurando que convém deixar cópia em papel, não tanto pela consciência da vulnerabilidade dos suportes virtuais, mas mais por uma espécie de marca d’água do pensamento administrativo-burocrático que invadiu o exercíciuo da docência. Claro que isto nem sempre é assim, felizmente. E haverá quem diga que estou a exagerar. Talvez por reacção de defesa ou, de forma mais sicera, porque desconhecerão que em tempos de E@D há escolas onde até os sumários passaram a estar registados em duplicado e as actividades em triplicado (antes, durante e depois de acontecerem).

6. A avaliação dos alunos é outra matéria sensível e as teses em confronto são bem distintas e nem sempre o debate é pacífico ou tendente a uma troca de ideias que vise o equilíbrio da solução encontrada. Também aqui se fala muito em “paradigma” e na necessidade de o mudar. Sempre em nome do “sucesso”. Sempre com os olhos postos nas estatísticas de curto prazo, buscando nelas a legitimação das crenças transformadas em políticas de remendos. É outra área na qual os poderes locais replicam muitas das práticas do poder central. É raro que pensem para além da conveniência. Em tempo de E@D replicam-se mecanismos do ensino presencial ou verifica-se uma enorme dificuldade em repensar práticas. Eu, que admito ser adepto de procedimentos de avaliação que não sejam meras vias rápidas para aprovações de escasso mérito e um claro crítico das teses que transferem toda a responsabilidade de qualquer insucesso para os docentes, acho que este é um tempo que exige que se pensem formas diferentes de avaliar o trabalho dos alunos. Que sejam flexíveis mas com um mínimo de fiabilidade. Que sejam diversificadas sem se tornarem uma espécie de manta de retalhos. Que entendam que o actual contrexto é singular, mas que pode ser a ocasião certa para se ir além de oportunismos. Mas confesso a minha desesperança quanto a isso.

No Público Online

Eu podia ficar calado, mas não seria a mesma coisa.

Li com natural interesse e atenção a carta aberta que amanheceu esta terça-feira na comunicação social. Embora no momento em que a li já tivesse mais de duas centenas de subscritores, só o currículo conjugado da centena inicial deixa qualquer pessoa subjugada e com receio de levantar a mínima reserva ao saber, que assim fica por demais evidenciado. Só lamento que, nos casos aplicáveis, quase todos tivessem deixado de fora a qualidade que partilham comigo e que é a de também serem mães, pais e, portanto, encarregados de educação.

Apesar de intimidado, alguma destemperança natural faz-me questionar alguns dos pressupostos e propostas que se fazem em tal documento, por considerar que carecem de um necessário bom senso, que nem toda a formação académica do mundo consegue prover.

Quem? Eu?

E com um artigo que por aí há-de aparecer, vou ficar de forma irrevogável na lista negra dos cartistas e demais “istas”, para usar a terminologia do Carneiro Jacinto no mesmo programa.

Tem vídeo e tudo, que é para o registo ficar para a posteridade digital. Porque a SIC lhe está a dar este destaque é assunto que fica para estudo aprofundado.

A reação de Paulo Guinote a uma carta que pede a reabertura urgente das escolas ao primeiro-ministro, restantes membros do Governo e ao Presidente da República.

Sobre O E@D

As respostas completas (longas) para esta peça do Educare.

.Qual o futuro do ensino à distância? Justifica-se ou não se justifica? Poderá integrar um modelo de ensino daqui por diante, num modelo misto? 

Neste momento não é possível fazer uma previsão fundamentada, excepto para o Ensino Superior, no qual se percebe que o ensino à distância se tem vindo a afirmar como uma modalidade complementar ou mesmo alternativa ao ensino presencial. E justifica-se como elemento de um ensino de tipo misto, pois permite desenvolver actividades diversificadas com um maior número de alunos, que nem sempre é possível realizar no modelo presencial.

No Ensino Secundário e, em especial, no Ensino Básico parece-me que só será um recurso em situações de emergência ou como ferramenta auxiliar do ensino presencial. E isso será assim em especial para os primeiros ciclos de escolaridade, nos quais é necessário um trabalho prévio de preparação dos alunos para este tipo de ensino, assim como de formação dos próprios encarregados de educação para o apoio a esta modalidade.

Embora muitos digam que este é o futuro da Educação, considero que mesmo no caso do Ensino Secundário a generalização do ensino à distância como ferramenta complementar terá de passar por um período de transição, marcado pela generalização dos meios digitais de trabalho nas salas de aula, o que está muito longe de estar garantido, por falta de meios técnicos suficientes. Não podemos confundir o eventual sucesso de projectos já em desenvolvimento com a possibilidade de os alargar, a breve prazo, a todo o sistema público de ensino.

No caso do Ensino Básico e dos primeiros anos de escolaridade, penso ser insubstituível o ensino presencial, pela dimensão humana e de empatia que a relação pedagógica deve envolver nos anos iniciais de formação dos alunos. Nesse caso, o ensino à distância servirá principalmente como um espaço virtual para a realização, entrega e avaliação de algumas tarefas.

.Uma coisa é a questão técnica, outra é a vertente pedagógica do ensino à distância. Quais as fragilidades e potencialidades deste regime de ensino

A seu favor, um modelo de ensino à distância bem estruturado tem a sua flexibilidade (em termos de tempo e métodos de trabalho) e capacidade de envolver um número elevado de alunos. Como acontece já com os MOOC em contexto de formação profissional, de aprendizagem ao longo da vida ou mesmo de cursos de especialização de nível superior. A flexibilidade de potenciais abordagens (síncronas e assíncronas) e a diversidade de temáticas e materiais que podem ficar disponíveis, por um tempo longo ou mesmo indeterminado, são pontos positivos claros. No caso de alunos mais velhos, a metodologia “self-paced”, em que os alunos são em parte responsáveis pela regulação do modo como desenvolvem as aprendizagens, é uma outra vantagem.

Os principais problemas, para além do já referido elemento humano que fica limitado pelo distanciamento que reduz muito a capacidade de professores e alunos desenvolverem uma relação mais individualizada, passam por questões como a falta de fiabilidade da avaliação desenvolvida, porque as possibilidades de fraude são evidentes, ou como o equívoco de considerar que o ensino à distância é uma mera réplica do ensino presencial em termos de gestão do tempo ou de abordagens pedagógicas. O ensino à distância não pode limitar-se a ser uma transmissão de vídeos com professores a explicar as matérias como se estivessem numa aula, porque assim a interacção como os alunos ainda é menor. E muito menos pode corresponder a uma sessão de “sessões síncronas” como se fossem aulas convencionais. Há que pensar de um modo diferente, mais exigente numa fase inicial de planificação do trabalho, de produção de materiais de apoio e de concepção de ferramentas fiáveis de avaliação.

Até ao momento, infelizmente, aquilo a que temos assistido em muitos casos é, por muito que se anuncie como um “novo paradigma”, a uma réplica à distância, com menor qualidade, do ensino de tipo mais tradicional. Uma aula presencial tem um potencial interactivo maior do que assistir a um vídeo ou mesmo a responder a um questionário online. E o mesmo se passa com a “diferenciação” pedagógica. Em termos pessoais, considero que em sala de aula, curiosamente, é mais rápida a possibilidade de adaptação do trabalho a fazer com os alunos que apresentam dificuldades, O feedback contextualizado, para além do certo/errado, é mais rápido no ensino presencial. Mesmo os fóruns de debate que surgem em cursos online só funcionam de modo eficaz quando têm vários responsáveis a responder às dúvidas e a aconselhar formas alternativas de abordar os problemas e ultrapassar as dificuldades verificadas.

.O que nos tem ensinado a experiência do ensino à distância até agora? Funciona ou não funciona? As escolas estão preparadas? Os alunos estão preparados? Os pais estão preparados? 

O ensino à distância no final do ano lectivo de 2019-20 acabou por ser reconhecido como um “remendo” ou um “remedeio”. Serviu para que a maioria dos alunos tivessem “qualquer coisa” que os mantivesse ligados às escolas e às aprendizagens. Mas percebeu-se depressa que o entusiasmo com os meios digitais implica muito mais do que ligar um computador e este à net para se ter um verdadeiro modelo alternativo de ensino. Na primeira vaga da pandemia, “funcionou” no sentido de que existiu, mas ficou muito longe de funcionar de forma satisfatória.

Os alunos do ensino não-superior, e como já referi os do Ensino Básico por maioria de razão, precisam de muito mais do que uma disciplina semestral (ou mesmo anual) de T.I.C. com uma carga horária muito reduzida, para conseguirem desenvolver uma consolidar uma lioteracia digital que ultrapasse a de utilizadores de recursos lúdicos ou de regras muito básicas de uso seguro de redes sociais. Necessita de uma abordagem transversal ao currículo. E que esse trabalho se desenvolva em articulação com as famílias dos alunos, caso contrário não conseguirá ter um verdadeiro sucesso.

.A comunidade escolar tem condições para que este ensino funcione? Fala-se de um aumento de desigualdades, de desequilíbrio de oportunidades. 

Neste momento, ainda não há condições para a generalização deste modelo. Não porque crie necessariamente novas desigualdades, mas porque acentua as que já existem e as tornam mais evidentes. Seja de tipo material, como a falta de acesso a equipamentos ou acesso em condições precárias, seja ao nível do capital cultural das famílias, porque muitos alunos não têm no seu contexto familiar quem esteja em condições de os apoiar.

Nas escolas, há também um evidente desequilíbrio de meios, com escolas muito bem equipadas (com apoio de autarquias ou através de parcerias com empresas do meio digital ou editorial) e outras sem terem sequer condições de segurança para terem salas equipadas com os equipamentos indispensáveis para que todos os alunos possam aceder a um modelo de ensino de base digital. Não chega ter 1 ou 2 salas equipadas, mas muito mais do que isso. Já hoje se verifica que entre colégios privados ditos “de topo” (com elevadas propinas e meios financeiros avultados) e a generalidade das escolas públicas existe uma clara diferença de oportunidades.

Há um investimento muito avultado a fazer, não apenas na aquisição de equipamentos, mas muito em particular na sua manutenção e actualização, pois rapidamente ficam obsoletos ou, no mínimo, pouco competitivos. É um investimento que não fica para uma década sequer, exigindo meios financeiros permanentes. Não é o mesmo que comprar mesas, cadeiras e armários.

Ontem, Na RTP3

A partir dos 11 minutos da gravação. Lamento se o tom não foi o mais “positivo” e se insisti muito nas promessas não cumpridas por parte de quem tem o dever de não se desresponsabilizar sempre os tempos ficam mais agrestes. Como não levo guião ou cartilha pré-definida, tendo a responder ao que me perguntam, em vez de descarregar a cassete (ou o mp3).

Se podia ter dito outras coisas? Podia. Mas também podia ter fingido que não andamos a fingir.

Domingo – Dia 17

Algumas pessoas têm-se revelado extremamente activas na tarefa de nos explicar tudo o que podemos fazer no ensino â distância. Eu confesso que preferia que se concentrassem naquilo que precisamos fazer em primeiro lugar. Porque eu posso fazer muita coisa de que não tenho necessidade. E às vezes nem devo fazer assim tanta coisa. E preferia que se concentrassem no essencial (assegurar o acesso, explicar conceitos básicos de literacia digital) e não tanto se podemos fazer malabarismos mil em 3D. Isso é que seria mesmo #Solução. E não tanto #Exibição.

Porque ainda isto não abriu oficialmente e já estou a relembrar tudo o que detestei na primeira vaga de E@D.

Pelo Educare

(…) Se é inegável que o fecho das escolas é indesejável e que o ensino presencial se revelou bem mais eficaz do que todas as teorias futuristas de uma Educação Digital anunciaram, também parece algo exagerado apresentar esse fecho como uma catástrofe geracional, quando em apenas uma semana (de 18 a 24 de Janeiro) se registaram mais de 1600 óbitos causados directamente pela pandemia. A carga de dramatismo colocada na suspensão das actividades lectivas atingiu níveis hiperbólicos, com expressões como “a destruição do futuro de uma geração” ou variações em torno do sacrifício que é para as famílias ficarem com as crianças em casa por 15 dias.

Pelo Jornal De Letras

Ao contrário de quem agora passou de utópico a realista, eu assumo em cada momento as minhas posições. No “dia antes” sem esperar por ver de onde sopra o vento. É o defeito de se ter as convicções acima das conveniências. E nestas matérias, por acaso, até me parece ter estado certo quando, desde cedo, alertei para as falhas em decurso, contra a certas ausências, lá está… à espera de verem para onde as coisas caíam. Parece que agora chamam “realismo” a mero calculismo ou oportunismo. A ver se acertam no dia seguinte.

Escrevo em mais um dia dramático, numa já longa sucessão de outros dias assim, em que se batem recordes de mortes causadas pela covid-19 e de novos contágios. Depois de cerca de uma semana com uma média superior a 150 óbitos, passou-se para o patamar superior aos 200. Para quem ainda relativiza estes números ou insiste em compará-los com o de outras doenças, em particular as que não são infecto-contagiosas, gostaria de sublinhar que, em termos proporcionais, mais 220 mortes diárias em Portugal equivalem a mais de 7000 nos Estados Unidos da América ou de 4500 no Brasil, os dois maiores países ocidentais governados durante o ano de 2020 por negacionistas da pandemia.

Para se ter uma noção em termos de História, na época contemporânea, Portugal não atravessou nenhuma guerra com efeitos tão mortíferos. Na Grande Guerra, perderam a vida cerca de 2100 soldados portugueses em França e um pouco acima de 5600 nos vários territórios africanos, num total inferior a 8000 baixas (João Moreira Tavares, “Mortos Feridos e Desaparecidos” in Portugal na 1.ª Guerra Mundial – Uma História Militar Concisa. Lisboa: 2018, p. 783). Durante os treze anos da Guerra Colonial, o número de baixas ficou aquém das 8500, incluindo cerca de 2500 soldados de recrutamento local (Resenha Histórico-Militar das Campanhas de África -1961-1974. Lisboa, 1988, pp. 264-266). O único momento em que o país sofreu um choque fisiológico mais violento foi o de outra vaga pandémica, a chamada “gripe espanhola” ou “pneumónica” que dizimou dezenas de milhar de portugueses entre 1918 e 1919.

Atendendo a toda a evolução dos hábitos de higiene sanitária, da medicina, dos conhecimentos acerca da prevenção e tratamento de doenças epidémicas, os 10000 óbitos que se devem ter sido ultrapassados quando este texto for impresso são um total impressionante. As vacinas anunciam-se prontas e já em uso, mas o processo de vacinação será longo e moroso, ao ponto de, antes de estar terminado, ser necessária uma segunda campanha, por ser o prazo da imunização contra o vírus apenas de alguns meses. O nosso presente é de uma singularidade dramática extrema, porque a escala dos efeitos desta 2ª vaga corresponde às piores expectativas daqueles que, ainda há poucos meses, eram acusados de pessimismo e de só encontrarem “problemas”, onde outros viam alegres e imaginários desconfinamentos e mesmo “oportunidades”, com destaque para a área da Educação.

Claro que todo este contexto teve naturais repercussões na Educação, não só na transformação do quotidiano escolar (e não apenas nas fases não-presenciais), mas em especial no modo como testou a solidez de algumas concepções e teses muito divulgadas desde finais do século XX e apresentadas como fundamentais para se compreender a “Educação do século XXI”. Teses que acabaram por ter um choque com a realidade que fez com que muita da sua argumentação visse a sua solidez desfazer-se em pleno ar, como escreveria Marshall Berman acerca de outras narrativas com o seu quê de mítico.

Em menos de um ano, várias foram as lições que se aprenderam, nem sempre de forma pacífica, acerca do que é essencial e do que é acessório. Do que é estruturante e do que é circunstancial. Do que permanece, apesar dos ataques e críticas, e do que tem a volatilidade das modas. Vou aqui singularizar um punhado dessas lições, nascidas ou reforçadas pela pandemia, na perspectiva de quem já foi demasiadas vezes adjectivado como conservador ou mesmo arcaico:

  1. O elemento humano continua insubstituível na relação pedagógica e é indispensável para um eficaz processo de ensino e aprendizagem. Todos os aparatos tecnológicos com que nos têm procurado seduzir, como se fossem a solução para uma “Educação do Futuro”, não passam de ferramentas, extensões que podem tornar mais fácil e rico o trabalho d@s professor@s, mas que ainda estão longe de os substituir em operações que tentem ir para além da transmissão automática, mesmo que algo interactiva, de informações. A empatia que envolve e torna única a relação entre professor e aluno não tem ainda qualquer recurso digital que o possa substituir. A Inteligência Artificial tem um longo caminho a percorrer a esse nível. Há quem agora já reconheça isso com tanta veemência que quase esquecemos que há pouco mais de um ano afirmava o contrário.
  2. O ensino que tantos têm chamado, de forma pejorativa, “tradicional”, porque assente num modelo presencial, em sala de aula e em que a transmissão do Conhecimento tem um papel central, ainda é o que garante a realização de aprendizagens mais significativas e duradouras para os alunos. Foi notório que o período do ensino remoto, salvo notáveis excepções, significou um empobrecimento educacional e uma menor inscrição cognitiva das aprendizagens, mesmo quando as condições disponíveis foram as adequadas a esse contexto. O isolamento instala-se ao fim de algum tempo e não é o simples contacto visual num ecrã que o consegue minorar. A presença física do professor, com toda a sua linguagem não-verbal, perde-se quase por completo. A capacidade de identificar nos alunos menos participativos os sinais da necessidade de um reforço da atenção torna-se um exercício muito difícil. Assim como a eventual atracção pelo novo meio de comunicação e acesso à informação perde, gradualmente, o seu apelo. O acompanhamento individual e personalizado é muito mais limitado quando há uma mediação tecnológica.
  3. As novas gerações podem estar seduzidas pelos suportes digitais e aparentarem um domínio avançado das novas tecnologias, mas a verdade é que lhes falta uma literacia digital básica que permita um uso crítico e selectivo da enorme massa de informação que está ao seu dispor. Além de que, sem uma formação sólida em alguns dos saberes fundamentais, é ilusória qualquer pretensão de ancorar quaisquer “novos saberes”. O deslizamento digital sobre o ecrã não cria uma relação forte com os conteúdos visionados de forma apressada e em permanente busca de “novidade”. A “inovação” é o domínio do fugaz. E na Educação isso não é compatível com aprendizagens consolidadas e passíveis de uma utilização adequada em novas situações, A relação com o tempo no modelo analógico é muito mais favorável ao estabelecimento de relações significativas entre os conhecimentos. A mão que escreve sobre o papel algo que foi pensado implica operações intelectuais muito diferentes da que se limita a seleccionar um naco de texto visto num site de acesso rápido, a copiá-lo e colá-lo.
  4. A desigualdade não se combate com proclamações, decretos ou cosméticas legislativas demagógicas destinadas a produzir um “sucesso” sem verdadeira verificação externa. Conceitos como “inclusão” revelaram toda a sua superficialidade perante a evidência concreta da enorme (e crescente) desigualdade de condições e oportunidades que marcam grande parte da população. O mito da Educação como “elevador social” ficou bem patente, quando os alunos ficaram mais dependentes dos seus ambientes familiares, sem a protecção niveladora que a escola e sala de aula acabam por permitir. Mas, por muito que as escolas se esforcem por menorizar as enormes diferenças entre as circunstâncias específicas dos alunos, é impossível uma verdadeira “justiça educativa”, sem que fora dos portões se assegurem condições de justiça social e económica às famílias. A Educação não consegue fazer todo esse trabalho, mesmo se tantas vezes leva muito do seu tempo e esforço a tentar resolver aquilo que não deveria ser sua responsabilidade. A pandemia revelou até que ponto a nossa sociedade continua dual, com assimetrias enormes e uma parte significativa da população em condições muito precárias.
  5. O discurso, repetitivo, herdado de uma tradição ideológica muito marcada em temos históricos, que proclamou uma e tanta outra vez a necessidade de transformar a “escola do século XIX”, habitada por “professores do século XX”, de forma a “adaptá-la ao século XXI” ficou na situação incómoda de ter de reconhecer (ou disfarçar, assobiando para o lado) que sem esse modelo de escola e esses professores, não há alternativas verdadeiramente credíveis ou funcionais. Que a propaganda a “salas de futuro” não passa de uma operação de cosmética; que a “flexibilidade” falhou quando deveria ter dado resultados; que a “autonomia” é um chavão e pouco mais. Mais importante, que muitas “evidências” repetidas anos a fio, não são para levar a sério, como aquela da crítica aos exames como via de acesso à Universidade. Perante a “oportunidade” de “mudar o paradigma”, ninguém mexeu em nada, ficando tudo como antes.