O Debate Dos Debates?

Depois de um número que desconheço de debates sem qualquer interesse ou chama entre líderes políticos a jogar à defesa, estratégia do quadrado reforçado para não perder votos, sem qualquer ideia verdadeiramente mobilizadora, eis que nos anunciam “O Debate” entre os dois representantes de Portugal que Balsemão levou há uns anos a conviver com as figuras mundiais do Clube Bildeberg (sobre o qual não tenho uma visão especialmente tenebrosa, em especial depois de ter lido o que Jon Ronson escreveu sobre o encontro deles em Lisboa/Sintra).

Um debate entre António Costa e Rui Rio é mais soporífero do que a 214891ª edição da Quadratura/Circulatura do Triângulo Isósceles e menos variado do que as tiradas dos Dupondt. Porque eles, no essencial, concordam, pois Costa embolsou a esquerda “radical” durante quatro anos em que todos baliram à moda do Centeno, uma espécie de Vítor Gaspar grisalho e de uma Maria Luís Albuquerque gaguejante. Duvido que Rui Riuo se sentisse desconfortável como vice de um governo com a maioria dos actuais ministros e secretários, pois até o galamba se rendeu às rendas. Talvez mudasse o Cabrita por um autarca do PSD e na Educação há sempre ali o Justino à espreita. Quanto muito alargaria o leque de famílias a ser nomeadas, pois há uns quantos laranjinhas a precisar de lugar executivo no currículo para poderem “dar o salto” para uma qualquer empresa privada em regime de liberalismo monopolista ou de oligopólio firmemente cartelizado.

Para que o raio do debate tivesse interesse, mais do que transmitido por três canais ou retransmitido nas homílias dominicais, seria preciso que Rui Rio, em vez de se achar muito bom, fosse mesmo apenas bom. Porque “apenas bom” dá para meter as vacuidades retóricas de António Costa no bolso, mas eu sou dos que sempre acharam que ele não consegue dizer duas frases sem assassinar a concordância e enterrar qualquer ideia original. Era preciso que Rui Rio percebesse que o país não vive na sua cabeça e que nem todos conseguimos perceber a sua genialidade. Não basta que ele enuncie virtuosas qualidades, mas que as possamos observar, não apenas nele mas na sua titubeante “equipa”.

Era preciso que Rui Rio fosse mais do que se limitou a ser, um líder transitório, útil para negociar subsídios europeus sem azedume e, no limite, servir de bengala a um eventual Bloco Central se o PAN desinchar.

Seria preciso que ele fosse “apenas bom”.

RioCosta

 

O Texto Para O JL/Educação de Setembro

E que destoa um bocado do enorme optimismo das restantes prosas envolventes. Publico-o na íntegra apenas agora, porque a edição já está em venda desde 4ª feira, pelo que não haverá problema. E porque amanhã é o arranque mesmo a sério-sério.

Sei por onde não vou…

Não me lembro do facto em si por razões naturais, mas sei a partir do que os meus pais me contaram que o primeiro televisor entrou na minha casa quando eu tinha apenas três meses de idade.

A programação ocupava poucas horas do dia, mas era seguida com atenção pelo petiz que eu era, fosse o que fosse que estivesse a passar quando o aparelho se encontrava ligado. Até o boletim meteorológico cativava, nas suas linhas brancas de baixas e altas pressões sobre um oceano negro. Desenhos animados eram poucos, a horas e dias certos. A escassez, aliada à novidade da tenra idade, fazia com que o interesse redobrasse e as memórias se inscrevessem com nitidez. Entre elas uma voz de alguém que dizia poesia e que cativava pela expressão com que o fazia, parecendo que contava uma história como ninguém então contava. Só mais tarde soube que o dono da voz já tinha então morrido e que se tratava de reposições do programa de 1959 e a verdade é que também não consigo localizar com exactidão no tempo os momentos em que me diverti com A procissão ou a primeira vez que ouvi a vibração crescente como Villaret declamava o Cântico Negro de José Régio. Só sei que recordo a forma encantatória como ouvi as palavras em ondas a sucederem-se e a culminarem no “Não sei para onde vou/Sei que não vou por aí!”

O “não” repetido foi o que mais me impressionou então e me voltou a impressionar de cada vez que ouvi de novo o cântico, pela voz de quem erradamente pensava ser o autor do poema, impacto que só teve aproximação quando ouvi o Manifesto Anti-Dantas pela voz de Mário Viegas, coisa de uma década depois.

Acima dos detalhes e pormenores impressionou-me a certeza da dúvida de quem não sabe por onde quer ir, mas que sabe com toda a determinação por onde não quer que o levem. E essa certeza do que não se pode aceitar de modo algum, mais do que do que se está disponível para aceitar, esse cepticismo irredutível, foi ganhando mais e mais sentido à medida que fui crescendo, ganhando algum entendimento das coisas, do mundo em meu redor e de toda a escuridão que nos querem fazer passar por caminho luminoso.

E é assim que me encontro no arranque de mais um ano escolar/lectivo, em plena campanha eleitoral em que muito se promete, para pouco cumprir ou fazê-lo de forma distorcida ou truncada. Em que a Educação desapareceu das prioridades, objectivos, temas, propostas nucleares de quase todos os partidos com assento parlamentar. Como se o caminho traçado nos últimos anos fosse, tanto para os partidos que sustentaram a actual situação governativa como para os que se lhe opuseram, o único possível e aquele que teremos de necessariamente trilhar em várias dimensões da política educativa, do modelo de gestão escolar ao processo de esvaziamento curricular, não esquecendo a erosão das práticas de avaliação externa.

Encenam-se algumas discordâncias pontuais, mas o essencial tem permanecido quase de modo inquestionável nos últimos 15-20 anos com um claro agravamento na última década. E esse é um caminho que me desagrada e que me recuso a trilhar sem manifestar com clareza a minha discordância a cada nova convergência estratégica dos actores em presença que por mais sedutores que se apresentem apenas querem domesticar toda a diferença, toda a desconformidade com o seu modelo único de pensamento que em nome de uma teórica tolerância e flexibilidade se traduz em práticas de uma extrema intolerância e rigidez. Que defende algo e pratica o seu inverso. Que desvaloriza o conhecimento. Que afirma defender a simplicidade e aposta na complexidade, em especial como forma de punir quem não adira aos credos dominantes de uma clique ideológico-académica que defende há décadas uma novidade que secou há muito, apenas sobrevivendo porque se agarrou ao poder com mínimos interregnos.

Num trabalho pessoal assinalável, a minha colega Maria de Fátima Patranito (62 anos de idade, 44 de serviço público, mais de 32 como docente) fez a síntese possível e sempre incompleta de todo o trabalho que os docentes desenvolvem em torno do essencial que deveria ser o do contacto com os alunos. Para além de diversas tarefas que se realizam na sequência de exigências sucessivas, que em nada se reduziram com os meios digitais, ela identificou cerca de uma dezena de tipos de reuniões, que se repetem diversas ao longo dos períodos num total que ela estimou entre as 60 e 90 por ano, conforme as funções desempenhadas. E eu acrescento que deixou de fora algumas, talvez por na sua escola ainda as não terem inventado como necessárias. Relatórios e questionários de preenchimento obrigatório identificou 17, mas também aqui terá pecado por defeito e deixou de fora toda uma panóplia de planificações que nestes tempos vão muito além da disciplina original de cada docente, em virtude do desdobramento de áreas curriculares. A envolver tudo isto contabilizou cerca de 750 mails enviados e recebidos ao longo do ano no seu correio institucional, embora admitindo que apagou alguns (por exemplo, de entidades a solicitar divulgação de atividades de tipo cultural ou outro) e deixou de fora os contactos com os encarregados de educação da sua direcção de turma.

O caminho da híper-burocratização do quotidiano docente é um dos que mais rejeição me desperta, dividindo-se a responsabilidade pela tutela que tudo quer controlar  numa lógica de micro-gestão assente em plataformas digitais e os poderes instituídos nas escolas quando adoptam a lógica da representação dos actos e optam por sobrecarregar quem ousar não produzir o sucesso nas quantidades previamente definidas em planos quasi-quinquenais.

E é inevitável lembrar-me do início do Cântico: “Vem por aqui” — dizem-me alguns com os olhos doces/Estendendo-me os braços, e seguros/De que seria bom que eu os ouvisse/Quando me dizem: “vem por aqui!”/Eu olho-os com olhos lassos,/(Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)/E cruzo os braços,/E nunca vou por ali…”.

Ou tento não ir até aos limites do possível, mas cada vez se torna mais complicado, porque a democracia fugiu das escolas e deixou em seu lugar um espartilho de dependências hierárquicas que recompensa a domesticação e a adesão acrítica a lógicas de obediência e penaliza a diversos níveis todo o tipo de comportamento crítico e divergente. Em nome de uma eficácia financeira e administrativa, muitos pretensos defensores da docência reflexiva e das pedagogias emancipatórias estão a consolidar um sistema de ensino público que cerceia a liberdade individual dos docentes e promove a subordinação e as práticas de tipo feudo-vassálico na distribuição de horários e créditos horários. Sabendo-se que os serviços administrativos centrais do ministério da Educação perderam toda a sua autonomia técnica, capacidade de regulação e poder para fazer cumprir as leis em vigor (mesmo as que padecem de evidentes falhas e “alçapões”) para se tornarem meras extensões da tutela política, subvertendo por completo a lógica de uma administração pública ao serviço dos cidadãos, idealmente neutra e respeitadora da Lei acima da conveniência política.

Sim, tornou-se mais fácil e cómodo abdicar de princípios e trair convicções, na esperança da nomeação, do favor, da tença tida por merecida por quem nos quer à força no seu caminho. Mas… “Não, não vou por aí! Só vou por onde/Me levam meus próprios passos…/Se ao que busco saber nenhum de vós responde/Por que me repetis: “vem por aqui!”?/Prefiro escorregar nos becos lamacentos,/Redemoinhar aos ventos,/Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,/A ir por aí…”.

Ainda não desisti de seguir pelo caminho que me leva à minha escola, às salas de aula e aos alunos, bem como aos muitos colegas que ainda me merecem um imenso respeito pela forma como insistem em sobreviver numa realidade transformada em simulação, em matrix dominada por indicadores de “sucesso” e “eficiência”, em que a enunciação de pedagogias inovadoras corresponde a práticas de formatação servidas por guiões com caminhos pré-definidos e metas únicas e em que o pretexto do combate ao insucesso e abandono escolar é um manto com que se ocultam negócios diversos, de autarcas a ex-governantes e burocratas transformados em consultores e alegados especialistas em tudo aquilo que não conseguiram fazer enquanto decisores ou suas extensões.

E é neste momento que o Cântico cede lugar ao Manifesto em pessoal adaptação aos novos tempos:

“Portugal inteiro há-de abrir os olhos um dia – se é que a sua cegueira não é incurável e então gritará comigo, a meu lado, a necessidade que Portugal tem de ser qualquer coisa de asseado!

Morra o Caminho Único, morra! Pim!”

PG Verde

As Minhas Respostas Para A Peça Do Jornal De Negócios…

… que saiu hoje (conteúdo completo apenas para assinantes).

Tiago Brandão Rodrigues: o ministro à “sombra”

Vindo de fora do setor, da política e do país, Brandão Rodrigues entrou como um desconhecido, fugiu das luzes nos momentos turbulentos e termina o mandato sem um legado em tons vivos.

Aqui vai o que escrevi:

1-    Como avalia, de forma genérica, o desempenho do ministro da Educação, Tiago Brandão Rodrigues?

O ministro Tiago B. Rodrigues cumpriu de forma muito disciplinada a missão que lhe foi confiada neste governo, nomeadamente a de manter os sindicatos do sector sob controle durante mais de dois anos, assumindo um papel político de “ombro amigo” que chegou mesmo a merecer elogios a alguém tão exigente nestas matérias como Mário Nogueira. Como ministro propriamente dito da pasta, ficou por se lhe conhecer uma marca distintiva, pois as principais políticas desenvolvidas com impacto no quotidiano das escolas ou na orgânica do sector têm a assinatura do secretário de Estado João Costa e da secretária de Estado Alexandra Leitão.

2-    Aponte um dossiê que considere que tenha corrido bem e outro que tenha corrido mal – justificando.

Penso que o dossier que correu melhor ao ministro foi exactamente o da manutenção de uma política de aplainamento da carreira docente, em termos de progressão profissional e salarial, pois conseguiu, como referi, manter uma assinalável “paz social” no sector até ao início de 2018. Se isso não foi apenas responsabilidade sua, não se deve retirar-lhe o mérito de ter sido o rosto de uma relação amistosa com a generalidade dos sindicatos durante esse período.

Uma área em que as coisas correram mal, embora esta avaliação esteja muito sujeita à subjectividade de cada um e à forma como encara o que “qualidade” em Educação, foi a da completa cedência ao sector político mais permissivo em termos de avaliação dos alunos e à adopção de um discurso marcadamente datado em termos ideológicos sobre a monitorização das aprendizagens dos alunos, aceitando deslocar ainda mais do que antes todo o ónus da prova para os professores, desresponsabilizando quase por completo os alunos pelo seu próprio desempenho. De certa forma, a falta de experiência do ministro no sector, aliada à sua falta de conhecimentos teóricos nesta área, tornou-o uma presa fácil de uma retórica atractiva e acredito que bem intencionada, mas profundamente demagógica.

3-    Além do desconhecimento do setor, no início do mandato muito se falou também da falta de experiência / influência na política e nos palcos mediáticos. Que balanço faz destes outros aspetos, incluindo os que são mais de “perfil” do ministro?

Este ministro iniciou o mandato sem qualquer escrito conhecido sobre Educação, o que não será inédito. Mas o que talvez seja mais notável, pela negativa, é terminar esse mandato sem qualquer intervenção pessoal marcante sobre uma única matéria educativa, limitando-se a reproduzir lugares-comuns conhecidos, pelo menos, desde os anos 60 ou 70 do século XX. Há titulares da pasta que, por si só, concordemos ou não com eles, trouxeram um “peso” específico (Roberto Carneiro, Marçal Grilo, David Justino), aqueles que vieram cumprir uma missão definida superiormente, mas que a tornaram sua (Maria de Lurdes Rodrigues, Nuno Crato) e os que passaram pela pasta como simples rosto pacífico para consumo público (Isabel Alçada) como Tiago Brandão Rodrigues. Digamos que funcionou como um medicamento com suaves propriedades analgésicas e calmantes durante a maior parte do tempo e raramente conseguiu transmitir a ideia de que era ele que conduzia qualquer política. Nas áreas mais técnicas (pedagogia, gestão curricular, inclusão) a obra que fica deve-se a João Costa, enquanto nas mais polémicas (relação com ensino privado, gestão da carreira docente, greves no sector) a condução das medidas ficou a cargo de Alexandra Leitão. Isto para não falar nas matérias que passaram completamente ao lado do próprio ministério como sejam os casos da descentralização de competências ou do investimento público no sector.

Quanto a outros pontos de vista deixo aqui um dos destaques, com duas observações:

PG JNeg12Set19

  • Caro Filinto, o ME deve ter ido muito a escolas a norte do Mondego e acredito que entre o Douro e o Minho tenha sido figura muito presente, mas a sul do Tejo e em outras zonas mais agrestes, parece-me que só ia onde o mandavam ir ou a escolas com direcções amigas de alguém na 5 de Outubro ou na 24 de Julho. Se falou muito com os directores? Talvez, mas o resto do pessoal não ganhou grande coisa com isso. E sabes bem que eu cada vez tendo a confundir menos o clube d@s director@s com o resto da classe docente ou mesmo com a “voz das escolas”.
  • Por outro lado, quanto ao senhor da confap, o “segredo” não é ter o número de telefone deste ou daquele (isso arranja-se com mais facilidade do que parece), mas sim saber resistir à tentação e ter a capacidade de NÃO o usar. Eu sei que somos muito diferentes em termos de práticas, mas nunca é suficiente sublinhá-lo.

Amanhã, No JLetras, Começo Assim…

Sei por onde não vou…

Não me lembro do facto em si por razões naturais, mas sei a partir do que os meus pais me contaram que o primeiro televisor entrou na minha casa quando eu tinha apenas três meses de idade.

A programação ocupava poucas horas do dia, mas era seguida com atenção pelo petiz que eu era, fosse o que fosse que estivesse a passar quando o aparelho se encontrava ligado. Até o boletim meteorológico cativava, nas suas linhas brancas de baixas e altas pressões sobre um oceano negro. Desenhos animados eram poucos, a horas e dias certos. A escassez, aliada à novidade da tenra idade, fazia com que o interesse redobrasse e as memórias se inscrevessem com nitidez. Entre elas uma voz de alguém que dizia poesia e que cativava pela expressão com que o fazia, parecendo que contava uma história como ninguém então contava. Só mais tarde soube que o dono da voz já tinha então morrido e que se tratava de reposições do programa de 1959 e a verdade é que também não consigo localizar com exactidão no tempo os momentos em que me diverti com A procissão ou a primeira vez que ouvi a vibração crescente como Villaret declamava o Cântico Negro de José Régio. Só sei que recordo a forma encantatória como ouvi as palavras em ondas a sucederem-se e a culminarem no “Não sei para onde vou/Sei que não vou por aí!”

Stop

(o mais certo é estar perdido no meio de prosas gongóricas sobre o festivo arranque do ano escolar e, quiçá mesmo, algum excerto de prosa competente… que continuo a ler em doses mínimas até chegar ao fim)

O Texto Completo (Do Público De Hoje)

O ano que começa em Novembro

Estamos em período de arranque do ano escolar e em breve do ano lectivo (são diferenças subtis e técnicas do maravilhoso mundo da terminologia educativa), de novo em período de plena campanha eleitoral. O que significa que tudo arranca formalmente em Setembro, mas só dois meses depois se perceberá ao certo o rumo do ano. Basta recuar quatro anos para perceber que tudo o que estava previsto por esta altura foi sendo pacientemente desfeito a partir de Novembro, tornando-se necessário rever todo o trabalho desenvolvido nas primeiras semanas de Setembro.

Não é que seja excepção que no sector da Educação se legisle em qualquer altura do ano, sem qualquer cuidado especial pelo impacto que isso possa ter no quotidiano escolar, em particular no dos alunos que tanto se usam como pretexto para a generalidade das medidas tomadas, em particular as que levantam maior resistência na opinião pública ou na classe docente. Aliás, a regra é legislar a esmo, como recentemente se viu acerca das medidas relacionadas com a defesa dos alunos transgénero. Com anos para tratar adequadamente de um assunto delicado, faz-se um despacho a meio de Agosto, sem qualquer aviso prévio, e espera-se que as coisas aconteçam, surgindo depois alguns governantes em trânsito entre o veraneio e o final de mandato, com ar de fastio, a acusar quem deles discorde das maiores das incompreensões.

Por tudo isto, o arranque deste ano escolar/lectivo deve ser encarado com calma e sem demasiada excitação, porque muito do que agora se possa fazer poderá vir a ser desfeito ainda no primeiro período, conforme o resultado das eleições, o perfil da futura equipa governamental na área da Educação e jogo de equilíbrio entre os grupos de pressão em presença. Tudo isto a juntar ao início da implementação em dezenas de municípios da “descentralização de competências” na área da Educação que, em muitos casos, se traduz no início de um caminho de que poucos perceberão o verdadeiro sentido, para além da captação de fundos europeus.

Uma das ocupações deste período pré-eleitoral é a de identificar o que é prometido, como se isso fosse verdadeiramente importante para o futuro. A tradição de muito prometer e pouco fazer vem de longe, assim como de fazer algo que nem sequer aparecera em parte alguma. Como são recorrentes formulações vagas do tipo “dignificar a profissão docente” ou “mobilizar medidas para promover o sucesso/combater o insucesso” nas quais tudo e nada cabem lado a lado.

Perante isso, mais do que fica escrito para uma posteridade efémera, prefiro procurar o que não está lá. Como professor ou como encarregado de educação. E há muita coisa que não está nos programas eleitorais, como a ausência da Educação, enquanto tema autónomo das “Cinco questões nucleares para o futuro do País” do PCP aos “5 Objectivos para esta legislatura” do CDS, passando pelas 6 propostas do PSD, pelos 4 desafios estratégicos do PS ou pelos 5 pontos principais do programa do Bloco de Esquerda. Talvez por ter mais áreas individualizadas com propostas (acima da dúzia), o PAN é o único partido que apresenta a Educação de forma individualizada.

Sobram formulações vagas ou então sem qualquer explicação sobre a forma como se pretendem implementar as medidas propostas, como e com que cronograma. Pelo que é tão ou mais importante ler-se o que lá não está, nem sequer nas entrelinhas. E por maioria de razão no partido que se anuncia como o vencedor antecipado das eleições. Não está lá a reversão ou sequer flexibilização do modelo de gestão escolar, até por imposição da agenda municipalizadora. Não está uma clarificação do modelo de avaliação dos alunos, não se sabendo se, em caso de maioria relativa e estabelecimento de alianças (permanentes ou transitórias), serão viabilizadas propostas de extinção de exames e provas finais defendidas à esquerda. Se o processo de descaracterização curricular, com a menorização de saberes fundamentais em favor de abordagens resultantes de paixões transitórias, irá continuar. E não está qualquer preocupação explícita ou implícita com a especificidade da carreira docente, sendo de temer a opção por uma adaptação do modelo de avaliação dos docentes ao dos restantes trabalhadores da Administração Pública.

Só em Novembro saberemos tudo isto ou o que nem ainda imaginamos. Em boa verdade, estes dois meses serão apenas uma espécie de período de espera. Com a certeza de que a Educação deixou de ser uma prioridade governativa para a generalidade dos partidos com assento parlamentar.

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A Bíblia Também Não Tem Bibliografia

Confesso um preconceito que poderá ser disparatado, mas quando folheio pela primeira vez um livro sobre qualquer área académica, em especial sobre as que me são mais próximas como a História, a Educação ou sobre o campo mais alargado das Ciências Sociais e Humanas, gosto de ver a bibliografia em que o(s) autor(es) procuram sustentar as suas teses, na presença ou ausência de algumas notas ou referências de pé de página ou final de texto que fundamentem o que é afirmado ou infirmado, mesmo que se trate de uma prosa ensaística mais ao correr da pena. Ou em especial nestes casos. Detesto a exibição bacoca de uma erudição virtuosa (aqueles artigos com mais espaço nas páginas ocupado por notas do que propriamente pelo texto nuclear), mas há limites para a apresentação de certezas sem que elas se sustentem em algo reconhecível, para além de profissões de fé ou de estribilhos como”todos sabemos que” ou “é evidente que” ou “é óbvio que”. É essencial que, mesmo quando se repete o que acha evidente, se explique o porquê e se demonstre. Sem isso todos podemos escrever qualquer coisa e apresentá-lo como dogma, atirando para quem discorda o anátema da intolerância ou “teimosia”.

O livro de João Costa e João Couvaneiro envereda por esse caminho. O de achar que é tudo tão evidente que nem vale a pena fazer a fundamentação empírica das suas “evidências”. Que nem uma variante do método científico é necessário para que as suas verdades sejam auto-explicativas. Em 150 páginas, há 9 notas de fim de página, sendo 3 de documentos produzidos pelo actual governo/ministério. Há uma (a primeira) relativa a um texto de natureza “técnica” e é de 2010. Basta comparar com as 6 páginas de prefácio da responsabilidade de António Nóvoa que, de forma perfeitamente natural e no contexto do que é afirmado, cita João Guimarães Rosa, Michel Serres, Mikhail Epstein, George Steiner e John Dewey. Quem se sente seguro de si e do que sabe, não receia identificar as raízes do seu pensamento. Ou aqueles a que se opõe. Quem se ensimesma, talvez por insegurança ou preguiça, recusa o confronto aberto e argumenta no vácuo referencial.

Simplicidade não é simplismo. Clareza na escrita não deve ser equivalente a pobreza de substância.

Quando se pretende replicar a posições adversas, não é estratégia incomum a caricatura ou a omissão de referências exactas, para ser inverificável o que se atribui a um outrém indefinido. Essa foi a estratégia de João Costa e, lamento, de João Couvaneiro. Referem posições críticas, reduzindo-as a formulações simplistas, sem emissores reconhecíveis, para lhes ser mais fácil manipular a argumentação na resposta. Receiam nomear e citar com rigor o que foi dito ou escrito, para poderem afirmar que estão a discutir “ideias” e “conceitos” em abstracto. Mas a verdade é que na introdução até chamam a ética à pedra para legitimarem a prosa produzida que apresentam como “reacção” e “resposta”. Mas não dizem a quem estão a reagir ou responder. Preferem reduzir a expressões caricaturais o pensamento alheio. Nisso fazem muito lembrar o livro-testemunho da ministra MLR, incapaz de ir além da sua circunstância pessoal.

Pessoalmente, acho de uma imensa falta de coragem, o que se quer passar por “elevação”. Não chega a ser sobranceria, pois carece da devida sustentação. Fica-se, no fundo, pelo “achismo” quando se pretende apontar isso a quem não alinha com uma tendência específica do pensamento pedagógico da segunda metade do século XX.

Agora… pensem que escrevi isto e só li o prefácio e a introdução, passando os olhos sobre o resto. Ao contrário dos autores, tenho todo o interesse em citar com clareza tudo o que discordo, porquê e com base em que pensadores, estudos, “evidências”. É essa a longa tradição do verdadeiro “pensamento crítico”.

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