6ª Feira

Era inevitável que se estabelecessem prioridades e se definissem critérios. Parecem que circulam várias versões de um documento que parece do tipo “vamos lá a ver se pega” e se pegar “como pega”. Esta é uma delas. No fundo é “quanto vale uma vida e como se calcula isso”. É a questão entre todas as questões, para quem ainda não sabe se existe alguma divindade (ou um monte delas, os hindus não podem estar todos errados). Se há questão “civilizacional” é esta. E algumas posições a seu respeito têm-me deixado quase espantado, ou não conhecesse eu a hipocrisia que por aí anda sempre que se fala no “valor da vida”.

Para um leigo, que quer acreditar que existe alguma ciência (ou Ciência) nisto e alguma lógica (espera-se que Lógica) eu definiria duas prioridades:

  • Os que podem morrer da doença (ou seja, os “grupos de risco”), de forma muito evidente, sem a vacina (quem tem patologias que a covid exacerba e conduz a uma morte quase certa, mais ou menos velhos).
  • Os que podem espalhar os contágios de forma “silenciosa” por serem globalmente assintomáticos (os mais novos).
  • Só depois passaria aos que, tendo a doença, revelam sintomas, mas com capacidade de os ultrapassar (o lote em que acho que estou, portanto, não me venham dizer que é uma opinião feita à minha medida).

Aceito outras opiniões, desde que as fundamentem de um modo diferente de “se já vão morrer quase na certa, que se lixem que as vacinas são caras”.

Não Gosto De Empurrões

Se há arrogância que admito sem problemas é a de ser capaz de procurar informação, de a analisar, fazer o cotejo do falso, do verdadeiro e do assim-assim e formar a minha opinião acerca de alguns assuntos. Opinião aberta a revisões, não me chocando muito mudar, mas desde que exista fundamento para isso e não apenas conveniência e nunca, por nunca ser, “empurrão”. Porque ainda há quem ache que isto anda com empurrões, o que é legítimo, desde que não o tentem comigo. Gosto de seguir o meu caminho, sem cenouras ou chibatas. Seja no quotidiano mais próximo, seja em outras questões.

Isto vem a propósito de quem acha que eu estou a favor ou contra isto ou aquilo por qualquer decisão inamovível ou Fé suprema. Vamos lã a ver… eu estive furiosamente contra o Partido de Sócrates e a sua querida MLR porque a um já conhecia antes de 2005 o perigo que representava e â outra considero uma medíocre oportunista, que se fez catapultar a partir de uma posição inicial de operacional de um plano que a ultrapassava em muito. Mas nada me move contra um Partido que não seja do Sócrates e daquela sua corte de linos, campos, varas e outros operacionais que até podem não chegar à barra dos tribunais mas não deixam de fazer parte do mesmo caldinho infecto. De que ainda sobraram galambas por aí, fora outros mais discretos.

E vem a propósito de máscaras, emergências e outras coisas assim, que aceito em parte, mas não no todo. Mas certamente não estou do lado dos que andam em redes sociais “pela verdade” a tentar conspirar manifestações de desobediência-beta, numa mistura patusca entre cosmopolitismo e labreguismo, algo que em Portugal bate muito forte em certas zonas socialmente afortunadas e com muita gente desocupada. Daqueles que teletrabalham e amam muito a vida, a menos que a sua petizada esteja por perto ou os velhos que morrem sejam os dos outros, que vão para lares da misericórdia.

Não sei se estou a ser muito duro ou “assertivo”, mas é que me enjoam muitas certas gentes a quem reconheço o direito à opinião desde que não ma queiram enfiar pela goela abaixo, E nisso resisto tanto quanto em relação ao actual PM e à sua forma muito carente de verdadeira humildade e honestidade de tratar a situação que atravessamos. E não gosto muito que uns pseudo-inteligentes apresentem as coisas a dois tons… ou estás pelo Costa ou estás contra o Costa. Ou… ou estás pelo Costa ou estás por nós.

(apoiei a criação da geringonça, não desta “coisa” que agora anda por aí… e na Educação, as reservas que tive em relação ao “mais com menos” de Crato só diferem nos motivos das imensas reservas que tenho em relação regresso à pedagogice da conversa fiada do secretário e seus cortesãos, que ao ministro só continua a faltar-lhe a rama…)

Não, estou por mim e pelos meus que, cada vez mais, pouco vão além do círculo familiar e das amizades mais restritas. Ao resto… que tratem da sua vidinha como bem entendem, desde que me desamparem a loja. E, muito em especial, que não me confundam com alguém com outro tipo de hábitos.

A História E O Humor Importam

O texto deste mês para o JL/Educação.

JL/Educação, 4 de Novembro de 2020

No dia 16 de Outubro, o professor francês de História e Geografia Samuel Paty foi decapitado por ter mostrado duas caricaturas de Maomé numa aula sua, alguns dias antes. Não conheço o contexto específico em que essa apresentação aconteceu, mas nunca poderá justificar o que se passou, desde logo porque se baseou em parte no alegado sentimento de ofensa de uma aluna que se veio a saber nem ter estado na referida aula (cf. “Attentat de Conflans : qui a informé le bourreau de Samuel Paty?”, Le Parisien, 20 de outubro de 2020[i]).

O caso levanta mais questões do que apenas o dos excessos do fundamentalismo islâmico, porque questiona directamente o papel do professor na sociedade e na própria escola, bem como aquilo que cada vez mais lhe é vedado fazer sob risco de diversas ameaças, das menos problemáticas às mais perigosas, como o despertar da fúria intolerante de grupos que se revelam incapazes de lidar com a diversidade, o confronto de olhares sobre a realidade ou mesmo o humor.

Como professor de História e fã confesso de banda desenhada e cartoons, costumo usar caricaturas em apresentações em algumas das minhas aulas, particularmente no caso da História Contemporânea. É verdade que, talvez por um mecanismo de censura inconsciente, não uso esse tipo de materiais quando abordo temas relacionados com a religião. Mas uso-as com alguma extensão em temas de tipo político, incorporando o humor na abordagem de questões polémicas e sobre as quais é importante ir para além das leituras áridas e maniqueístas. Apenas a título de exemplo, recordo as caricaturas que, desde finais do século XVIII caracterizaram a luta ideológica entre liberais e absolutistas, mais tarde entre as correntes socialistas ou de inspiração marxista e os seus adversários burgueses ou entre as diversas potências em conflito na I Guerra Mundial, não esquecendo a fortíssima componente visual da propaganda nos regimes autoritários de entre as guerras ou dos tempos da Guerra Fria.

Da caricatura mais descomprometida, como comentário à actualidade, à sátira que visa estereotipar de forma negativa os adversários, num contexto de luta ideológica (desde a tentativa de ridicularizar as sufragistas à oposição entre republicanos e monárquicos) esta é uma prática que em Portugal tem, desde as últimas décadas do século, tradição no combate político. Claro que o vulto maior foi e será sempre Bordallo, mas muitos se lhe seguiriam e muitas foram as publicações que deram espaço crescente à sátira política, com maior ou menos alinhamento político-partidário. Durante a I República, em especial nos anos da participação na Grande Guerra, assim como nos anos da Ditadura Militar e do Estado Novo, o jornal humorístico Os Ridículos foi uma das maiores vítimas da censura menos discreta (as “bexigas” durante o período republicano, com os espaços em branco das imagens cortadas) à mais hábil (que exigia, no período da ditadura, que os conteúdos censurados fossem substituídos por outros ou pelo menos por anúncios).

Não é por acaso que os regimes autoritários são os que mais dificilmente lidam com o humor, pois este representa a realidade sob um prisma que a intolerância considera criminosa ou blasfema. Seja no plano religioso ou no político, o riso aberto ou o simples sorriso aflorado é algo que atemoriza quem quer encenar um poder forte e sem contestação, pois causa insegurança, porque ridiculariza o que se pretende sério. Muito sério. Os fundamentalismos de qualquer tipo não deixam espaço para a auto-crítica, pelo que não admitem a derisão, a menos que seja dirigida aos que quer amesquinhar ou demonizar.

O que se passou com o professor Samuel Paty resultou da confluência de fenómenos que estão longe de ser modernos, como a intolerância, a distorção dos factos para diabolizar e “construir o inimigo” ou o incitamento a fenómenos de violência “justiceira” contra as alegadas ofensas ou blasfémias, com os mecanismos modernos da transmissão rápida das mensagens destinadas a acicatar a súria das massas até que alguém (indivíduo ou grupo) decida passar a uma acção de que nem sempre é assumida a responsabilidade, sendo comum a afirmação de ter sido um acto de inspiração divina. Foi uma “voz de Deus” que deu a ordem, foi a “mão de Deus” que a executou, sendo os indivíduos meros agentes de uma vontade que os transcende. Mas Umberto Eco também alerta para o facto de esta construção do inimigo ser quase uma necessidade identitária, difícil de ultrapassar em grupos que se procuram afirmar num ambiente que sentem como hostil.

«Ter um inimigo é importante, não apenas para definir a nossa identidade, mas também para arranjarmos um obstáculo em relação ao qual seja medido o nosso sistema de valores, e para mostrar, ao afrontá-lo, o nosso valor. Portanto, quando o inimigo não existe, há que construí-lo.” (Umberto Eco, Construir o Inimigo e outros Escritos Ocasionais. Lisboa, Gradiva, 2011, p. 12)

Samuel Paty, professor de História que a tentou abordar através do humor foi o “inimigo” que alguém decidiu construir para, na sua comunidade, afirmar a sua identidade e os seus valores. Acusando-o de mostrar “desenhos pornográficos” aos seus alunos, alegando a ofensa de alguém que nem esteve presente na aula, exigindo castigo do pecador blasfemo, até que esse incitamento acabou na sua decapitação.

Literal e simbólica, porque para além do Homem, também o Humor e a História foram atacados pelo homicida. E, numa leitura mais extensiva, o próprio papel da Educação nas sociedades modernas foi colocado em causa por quem considera que ela deve estar ao serviço de uma única visão do mundo, assim como a História deve ser apresentada de forma instrumental, para exaltação dos “escolhidos”.

É verdade que os fenómenos mais recentes (como o massacre na redacção do Charlie Hebdo em 2015 ou as ameaças ao cartoonista dinamarquês Jyllands-Posten em 2005 que levaram a que tivesse de viver anos sob protecção policial) colocam o foco principal no fundamentalismo islâmico, mas é bom relembrar as ameaças, certamente com consequências menos trágicas, feitas em 1992 ao cartoonista português António quando caricaturou o Papa João Paulo II com um preservativo no nariz ou a recente situação (Junho de 2019) de proibição de cartoons na edição internacional do The New York Times e a dispensa dos serviços de Patrick Chappatte e Heng Kim Song após a publicação em Abril de uma caricatura considerada “anti-semita” do mesmo António.

A morte de Samuel Paty, apesar das manifestações em sua homenagem que se foram sucedendo, em breve será apenas uma memória, esperando que mesmo essa memória não se desvaneça ou apague progressivamente, à medida que a História vai sendo encarada como uma disciplina menor, sem grande interesse, da qual se tem sistematicamente desinvestido devido à sua alegada natureza arcaica para aqueles que acham que a Humanidade do século XXI não precisa conhecer o seu passado, muito menos acontecimentos ou processos que ajudem a entender como chegámos ao presente. O professor de História é, neste contexto, o representante de uma espécie que se pretende em extinção, residual, portador de um saber inútil a menos que aceite colocar-se ao serviço da exaltação dos protagonistas do Poder. A História é encarada como uma espécie de apêndice curricular, a merecer menos atenção (descontemos os elogios públicos hipócritas) do que qualquer modismo passageiro (como o “empreendedorismo”) ou saber instrumental (a “prevenção rodoviária”), porque estes são “úteis para a vida diária”.

O papel dos historiadores ou dos professores de História na recuperação do passado é incómodo para os regimes baseados numa Fé ou Verdade Única, pois a sua missão é a de apresentar diferentes olhares sobre o que se passou, não apenas o dos vencedores transitórios. Mas a História e os seus agentes com sentido ético do seu ofício também incomodam os defensores da fragmentação da Verdade a um ponto que se torne impossível legitimar mais do que “verdades funcionais”.

A História “comprometida” é uma História truncada. Mesmo se não há História “pura”, totalmente neutra ou asséptica. Mas para o ser com maiúscula deve procurar sempre alguma forma de equilíbrio, mesmo quando não se impede de tomar partido. A História ajuda a compreender, exige esforço, resiste às simplificações, Incomoda. Tal como o Humor.

Samuel Paty era um professor de História com Humor e morreu por causa disso.


[i] https://www.leparisien.fr/faits-divers/attentat-de-conflans-qui-a-informe-le-bourreau-de-samuel-paty-20-10-2020-8404191.php

A Falta De Professores

As (curtas) declarações completas para esta peça do Educare.

Como se explica esta falta de professores e o impacto que terá no sistema de ensino? 
A falta de professores resulta de uma política errada de gestão dos recursos humanos ao longo dos últimos 20 anos, porque se associou uma desconsideração pública dos professores à proletarização crescente da sua condição material. Ainda há poucos anos tínhamos dezenas de candidatos ao concurso externo que ficavam por colocar. Com o argumento de serem “caros”, os professores sofreram uma dupla penalização: os contratados viram as suas condições de trabalho serem cada vez mais precárias, desde a forma como são colocados a concurso os horários à própria contagem do tempo de serviço (para efeitos de concurso ou mesmo para a Segurança Social); os professores de carreira viram a sua progressão ser estrangulada, enquanto desapareciam anos completos de trabalho realizado. Perante isto, não é de estranhar que exista pouca capacidade de atracção de novos elementos para a profissão. 
Os efeitos mais graves vão muito para além do muito citado “envelhecimento”, pois acaba por verificar-se um verdadeiro corte geracional entre os professores exercício, em que muita experiência se perde e não é compensada por qualquer “formação” (inicial ou contínua) que é assegurada há décadas pelas mesmas pessoas, que estão há muito ultrapassadas nas suas concepções da docência.

O que é urgente fazer para reverter esta situação?  
Tornar a profissão atractiva para quem queira desenvolver uma carreira sem estrangulamentos artificiais. Dignificar o trabalho dos professores contratados, reduzindo a precariedade que leva a que tenham de ser colocados em 2 ou 3 escolas para completarem um horário. Não mudar regras dos concursos sempre no sentido de dificultar a vinculação ou de conseguir horários completos na contratação. Alterar um discurso político que menoriza de forma sistemática os professores, como se fossem peças facilmente substituíveis. Já se percebeu que não são.

Escrito A 12 De Março

As escolas não fecham porque se tornaram enormes espaços multifunções, em que a função assistencial se sobrepõe à educativa. Sem as escolas, não há qualquer outro tipo de “rede social” funcional. Sem as escolas a funcionar, o país entra em colapso.

É chato, mas um tipo não tem culpa de ver além do seu “quintal”.

Penso Eu De Que…

(…)

Acresce a estes factos que, no atual contexto de pandemia e de acordo com os protocolos em vigor, o avaliador está impedido de sequer se deslocar a outras escolas do seu agrupamento por razões de segurança sanitária, pelo que ainda é mais inadequada e potenciadora de risco para a sua saúde e de terceiros a sua deslocação a uma escola a que não pertence e a sua entrada em salas de aula com turmas que não as suas.

(…)

Medo Ou Não Medo, Não É Bem A Questão

Um colega dizia-me como a “cultura do medo” ajuda a alimentar a indústria dos testes ao vírus a 100 euros a urgência no dito. Sim, concordo que há áreas de negócio em resplandecente prosperidade. E é verdade que já disse aos meus alunos, que não temo propriamente por mim, eles ou familiares mais próximos abaixo da minha idade ou por aqui, quando os mando meter o nariz para dentro do raio da mascarilha,

Mas há uma coisa que vos garanto… fosse vivo algum dos meus progenitores (e teriam 88, cada qual, nessa feliz eventualidade) eu não estaria na escola a dar aulas ou a fazer outras coisas, por vezes à mesma das 9 às 4 ou 5 da tarde como antigamente, apesar de me terem garantido, do alto ao baixo, que se iriam evitar cruzamentos e que isso é que justificava certas medidas.