6ª Feira

Dá-me um certo conforto saber qual o meu lugar, em especial num contexto de desordem como que vivemos. Saber, com clareza, o que não quero. A que grupos não quero pertencer. Saber, com toda a certeza, que há migalhas que não valem a nossa dignidade, por transitória que seja a nossa passagem pelo mundo como matéria consciente. Estando nos antípodas daquelas filosofias muito zen, sou, contudo, obrigado a admitir que dá alguma paz ultrapassar o frenesim do desejo de ser outra qualquer coisa. Uma coisa é buscarmos e lutarmos pelo que achamos o melhor para a nossa condição e dos que consideramos nossos, outra, para mim muito diferente, é parecer que se quer ser sempre outra coisa, por se estar frustrado com o que se conseguiu ser, por se achar merecedor de honraria maior. Porque, em tantos casos, andamos a enganar-nos e, pelo caminho, acabamos por querer enganar os outros.

“Um Mau Acordo É Melhor Do Que Nenhum Acordo?”

Parece que esta mensagem anda a ser passada pelo sindicalismo institucional em algumas escolas, naquelas reuniões em forma de monólogo, para preparar o pessoal – não percebo se o mais velho, com alguma capacidade crítica e que se lembra de certos “acordos”, se o “sangue novo” com que pensam reconstituir o número de quotizados – para o que já sabem ser um mau acordo. A lógica é sempre aquela do… se não assinarmos, eles impõem o que querem. Curiosamente, a lógica que a CGTP raramente aceitou, excepto ocasionalmente durante a geringonça.

Ora, essa lógica é uma bosta e isso explica-se facilmente porquê.

O “mau acordo” é, no fundo, aquilo que a tutela praticamente imporia de qualquer maneira, mesmo sem assinatura.

Para além disso, quando se assina um “mau acordo” fica-se vinculado ao que foi assinado e perde-se a legitimidade para contestar seja o que for (relembro, mais uma vez, a CGTP a esse propósito), acabando por se ser apenas mais um elo na cadeia de domesticação dos “representados”.

Pelo que um “mau acordo” é, em regra, tão mau quanto nenhum acordo, mais as mãos amarradas.

O que vem aí é muito mau e inaudito, até porque não foi anunciado em qualquer programa eleitoral ou de governo. É mau para todos, mesmo se os “novos” pensam que assim até se podem safar e os “velhos” pensam que já não será com eles. Estão todos errados. Se não percebem porquê e como, de que modo a “alocação” de recursos humanos pode afectar todos de modo negativo, desenrasquem-se, pensem, que eu sou mau a fazer desenhos. E é estúpido andar gente a pensar que escapa entre os intervalos do granizo, a menos que já tenha uma “relação de proximidade” estabelecida e atractiva.

Assinar um “mau acordo” é voltar ao “entendimento” de 2008 e ao acordo concreto, em relação à add, estabelecido com Crato de 2012, por muito que andem aí a falar ainda de troikas. Há quem ainda se lembre do que fizeram nessa altura. É nada fazer de radical em relação ao modelo de gestão, desde que se coloque uma quantidade aceitável de director@s amigas no poder. Assinar um “mau acordo” é repetir a estratégia imbecil do período inicial da “geringonça”, em que deram 2-3 anos de avanço a quem nunca pensou verdadeiramente reverter fosse o que fosse, até que em 2018 se deu mais uma indignação que acabou em novo “mau acordo”.

De “mau acordo” em “mau acordo” andamos nisto há quase 15 anos. Mais ao menos ao mesmo tempo que os cromos de sempre os negoceiam e tentam vender-nos fruta podre como se fosse a única possível.

Como escrevi mais acima, o que espanta é que esta malta recomende como mal menor e faça exactamente aquilo que os camaradas mais crescidos dizem ser errado.

Pelo JL/Educação

Uma conversa matinal com uma colega professora, em hora formalmente dedicada a apoiar alunos que acham, ou melhor, têm a certeza de não precisar desse apoio. Colega mais avançada na idade, ali perto das margens da reforma, mas que insiste em levar o seu trajecto até ao fim, apesar do desânimo que se foi entranhando ao longo dos últimos quinze anos, período em que tantos ideais que ainda sobreviviam foram completamente arrasados pela “boa governança” dos recursos humanos em Educação. Colega que não se inclui no lote de quem é suspeito de “padrões irregulares” em baixas médicas que não pratica. Que ainda se esforça por tentar ensinar o que muitos não querem aprender (Matemática), com a legitimação dos teóricos de que as aprendizagens só são significativas ou têm sentido se forem do “interesse dos alunos”, como se ao fim de uma década de vida, já se soubesse o que futuro pode exigir.

Conversa em modo de comparação de estados de espírito. E a admissão de, ao terminar a semana, essa colega se questionar sobre o sentido de voltar na semana seguinte, perante uma realidade que se avoluma na aspereza. Quando o discurso do “envelhecimento”, a par da evidência cronológica indesejada, agravou atitudes de desrespeito quase constante a partir de fora. Quando qualquer “explicadora” ou ocupadora de tempos livres se sente legitimada para dizer aos alunos que “a professora está errada”, mesmo se fez um 12º ano oferecido na base do “sucesso para todos”, nem que seja com 10 valores para despachar as estatísticas.

Respondo que a mim, essa sensação de inutilidade do esforço surge, não sei se pelo contrário, logo a abrir a semana quando, aberta a porta do carro, olho para o declive de acesso ao portão e observo como se evidencia a generalizada falta de civismo no espaço envolvente, por parte daqueles que deveriam a partir de casa dar o exemplo mas preferem exibir a truculência como se fosse um valor e uma injustificada arrogância como se isso compensasse as frustrações de um quotidiano precário e frágil. Do qual se pensa tirar desforço no pequeno mundo da escola, onde a quase todos é permitido descarregar tudo aquilo que, algures, fora dali, são obrigados a calar. Como se a Escola e os professores fossem alvos a abater para equilibrar todas as esperanças que lhes foram tolhidas. Mas, lá saio e faço o meu caminho, a cada 2ª feira, na certeza de dificilmente as coisas ganharem mais sentido do que no final da semana anterior.

A busca de sentido para o quotidiano escolar não é um exclusivo dos alunos, apesar do que algumas auto-nomeadas autoridades na matéria reclamam. Por vezes, com recurso a testemunho seleccionados a dedo à porta das escolas com inquéritos teleguiados. Muito pelo contrário, afirmo eu, que tenho escassa vergonha em admitir que busco um sentido para a vida escolar há mais tempo do que têm de vida quase todos os meus alunos, porventura todos, porque há uns que apenas se inscreveram para cumprir a formalidade de estarem doze anos na escola, mesmo que só lá tenham passado menos de metade, com muito boa vontade contabilística e ainda maior das autoridades que mandam arquivar as sucessivas “sinalizações”.

A perda de sentido da vida escolar tem, para os adultos que por lá andam, o peso acrescido do tempo passado e da consciência da escassez do tempo que resta para ver alguma mudança significativa, na direcção certa. Para os mais novos, essa carga é bem menor, e o horizonte de esperança bem mais alargado, mesmo se ilusório.

Ouvimos e lemos tanta coisa sobre a nossa profissão, sobre o nosso desempenho, sobre a nossa falta de adequação aos novos tempos, sobre tanta necessidade de formação, que a dado momento quase se interiorizam as acusações e se desiste de tentar compreender a incompreensão ou de tentar contrariar, esclarecendo, a ignorância. Aquela mais bruta que desagua na violência das agressões físicas, mas de igual modo a mais insidiosa violência psicológica e até moral de quem exibe pergaminhos académicos de “investigação” e “reflexão”. Não vale a pena, porque do outro lado se ergue um muro imenso de certezas inabaláveis.

Ao nível de alguma parentalidade, já se anda a lidar com uma geração que, em vários contextos sociais, cresceu sem saber lidar com o fracasso das esperanças e, na falta de coragem ou capacidade para contestar os verdadeiros responsáveis pela sua situação, descarrega nos professores as suas incapacidades de “sucesso”, aquele que lhes disseram, anos a fio, que era direito seu. Tudo isto a par de uma elite político-mediática que parece achar que o seu saber, o seu “olhar” externo sobre a Educação e a organização das escolas é mais objectivo e rigoroso, do que o daqueles que lá passam o seu tempo, hora após hora, turma após turma. Uma elite que, lá por ter passado pelas salas de aula como alunos e até eventualmente como docente ocasional, em biscate passageiro, considera que sabe tudo o que há a saber sobre o currículo, o trabalho em sala de aula, a gestão da indisciplina, os valores e atitudes a transmitir no contexto escolar.

Choca-me a forma ligeira, superficial, epidérmica, como há quem consiga ter tantas certezas quando passa o tempo a lançar dúvidas sobre o trabalho alheio. Pior ainda quando isso se passa com um manancial de “especialistas”, que gostam de se apresentar como “cientistas da Educação” de variada especialidade, da economia e gestão dos recursos humanos à organização curricular, em defesa de nichos de mercado que lhes garantam a sobrevivência e relevância junto dos decisores políticos. Gente que repete os mesmos chavões ao longo das décadas, colhidos em leituras dos seus tempos de formação, projectando no presente de agora, presentes de outros tempos, de que ainda não conseguiram curar as cicatrizes. Em alternativa, temos as novas gerações dos seus discípulos que, mal acabaram de sair do aviário académico, já prontamente se apresentam disponíveis para replicar, como “formadores” dos envelhecidos docentes, as sebentas que lhes foram servidas como o pensamento único e belo.

Sim, os tempos mudaram e os professores e o trabalho docente devem acompanhar as mudanças, mas seria interessante que fosse feita uma triagem com algum critério das mudanças a adoptar. Não me parece que o “professor do século XXI” deva ser uma espécie híbrida, combinando o burocrata cumpridor de todas as directrizes superiores com o funcionário do economato escolar.

Tanto discurso sobre a necessidade de formação dos professores para quê, exactamente? Para distribuir e receber manuais escolares, seguindo-se a exigente tarefa de apagar os rabiscos neles feitos para que posam ser reutilizados? Será para isso que se fez uma profissionalização ou mesmo um mestrado bolonhês em ensino? Para registar em tabelas de excel todo e qualquer registo, em forma de descritor, sub-descritor, indicador ou sub-indicador, numa demanda de pretensa objectividade, enquanto se defende uma avaliação “humanista”, “integral”, numa “perspectiva holística” do indivíduo enquanto um todo?

Há sentido no trabalho docente quando a maior parte do tempo é gasta, em actividades de tipo administrativo, sem qualquer vantagem para as aprendizagens dos alunos? Quando isso resultou da transferência para os docentes de tarefas que de modo algum estão no “conteúdo funcional” do seu estatuto profissional, apenas para poupar em pessoal não docente, na sequência da centralização dos serviços administrativos nas escolas-sede dos mega-agrupamentos e da “racionalização” (no sentido literal de aplicação de “rácios”) do pessoal não docente?

Viktor Frankl termina o seu posfácio de 1984, com o título aproximado de “Em defesa de um Optimismo Trágico”, do seu clássico Um Homem em Busca de Sentido, com a afirmação de que “o mundo está em mau estado, mas tudo ficará ainda pior se cada um de nós não fizer o seu melhor”. O problema é que cada vez há mais gente a fazer o seu pior e a obrigar os outros a nivelarem-se por essa sua mediocridade. O que só reforça o trágico em quem busca desesperadamente um sentido para docência reduzida a uma sua triste caricatura, que o pulular de “projectos” e pretensas “inovações” requentadas só acentua.

Um dos maiores disparates que por aí circulam, com origem conhecida, é o de termos “alunos do século XXI” em escolas organizadas como no século XIX, ensinados por professores do século XX. Tomara que assim fosse, pois, que me lembre, no analógico século XX não tinha de fazer nada destas tarefas que só servem para desqualificar a docência como actividade destinada a transmitir pelo menos o essencial do conhecimento humano.

Razões Aceitáveis E Não Aceitáveis Para (Não) Fazer Greve, Escrito Por Um Praticante Pouco Assíduo

Não sou daqueles “lutadores” a 120% em tudo o que é manif, greve, petição, vigília ou abaixo assinado. Os meus pecadilhos na Educação não me obrigam a penitências públicas de vela na mão e não assino nada só porque sim, porque fica bem dar a aparência de movimento.

Logo… quando faço greve é mesmo porque estou convicto da necessidade de dar um sinal de que algo está mal e que a opinião pública não fique a pensar apenas que, como a SIC passava em rodapé depois das 9, que tudo isto se resume à questão doa aumentos salariais. Que são importantes, perante a perda do poder de compra, mas não são a única razão. Até porque isso pode esconder a incompetência daqueles que podiam ter evitado ou prevenido muita coisa, mas preferiram continuar as políticas de “racionalização” d@s antecessor@s, sem qualquer reversão vagamente digna desse nome. O que Lurdes Rodrigues deixou e Crato agravou, o Tiago não soube (ou sequer quis) reverter e muito menos o actual ministro que já mais gente percebe não ser o que ele se esforçava por parece, enquanto secretário.

Dito isto, aceito como boas as razões para não fazer greve que resultem da indiferença de muita gente perante algumas causas, porque estão de novo na função, porque estão demasiado precários, porque consideram que as suas agruras são outras, mesmo se isso é não acautelar o futuro. E aceito, por maioria de razão, quem já desanimou disto, quem já fez muitas greves, quem já teve frustrada a esperança em demasiados momentos e acha que esta greve na da mudará, de essencial ou mesmo de acessório, excepto alargar a folga orçamental do ME.

Já tenho mais dificuldade em aceitar as justificações do tupo “ahhhh…. coitados dos alunos que ficam sem aulas”, “o nosso dever é para com os alunos”, “isto até não está assim tão mau vejam lá os desempregados…” ou “eu não faço porque x, y ou z não faz e depois ganha o mesmo ou mais do que eu” ou ainda “nem sei quem vai fazer greve na minha escola”. Isto não esgota o lote das tretas que nunca usei quando assumi não fazer greve.

Repito o que já escrevi: não acredito muito nos efeitos desta greve, em contexto de maioria absoluta e com uma oposição débil e fragmentada, excepto a parte dos “novos sindicalistas” do Chega que ainda não vi fazer nada. Nem de propósito, o ministro faz hoje publicar no Negócios uma entrevista em que anuncia dinheiros e dá a sensação de tudo estar a decorrer com normalidade. Claro que é daquelas entrevistas que só ao de leve têm alguma aspereza, pois o ministro e o seu aparelho fazem uma espécie de filtragem prévia aos incómodos que lhe podem aparecer. E não digam que não o fizeram desta vez. Pena é que muita gente tenha medo de, perante poderes absolutos, exercitar verdadeiramente o quarto poder. Porque há quem depois julgue que pode atropelar todas as críticas, falsear os factos e criar um mundinho de sonsa realidade alternativa.

Em grande parte é contra essa sonsa realidade alternativa que faço greve e sinto muito pouca simpatia pelas desculpas sonsas para não a fazer. Se não acreditam na greve e discordam de ela só fazer sentido se produzir algum (de preferência muito) incómodo, digam-no, não se escondam atrás de m€rdinh@s, desculpem, tretas.

A Meio da Manhã na CNNPortugal

Está por aqui a gravação da intervenção na CNNPortugal na qual, perto do fim, questiona a “honestidade” de quem fala muito nela. O cão que se ouve não é meu, mas a culpa foi do parzinho serôdio que parou no passeio defronte. O raio do bicho não gosta de estranhos e não se calou durante todo o tempo em que ali estiveram numa conversa que podiam ter feito, enquanto tomaram o cafézinho na afamada pastelaria, na esquina do quarteirão.

No DOC SIPE

Desonestidades

(…)

A medida que o ministro encontrou foi a de permitir a contratação e vinculação directa de docentes pel@s diector@s de escolas e agrupamentos, recusando as críticas a tal modelo “localizado” de recrutamento de “proximidade” por ser permeável a “padrões irregulares” ou “distorções” (para recuperar termos usados em outras circunstâncias), pois ele considera considera – lá estamos de novo – que “todos somos honestos”, só que neste caso nem sequer coloca a possibilidade de criar “instrumentos de vigilância” para prevenir seja o que for.

Ou seja, a “honestidade” é enunciada em duas situações, mas com conotações diferentes. Em relação aos professores vem com o “mas” acoplado, mas em relação aos directores surge sem quaisquer reservas. Porque o ministro considera que todos são honestos, claro, mas uns serão mais honestos do que outros. E ele sabe bem quem deve incluir e a quem dar “autonomia”.

Penso Que Haverá Gravação, Disponível A Breve Prazo

Da conversa de há pouco, na qual só pareceram estar presentes pessoas ligadas à Educação, com a simpática ausência do especialista em outras coisas, que se escusou de aparecer às últimas. Espero que (não) fosse porque eu não sou tão fofinho quanto outr@s colegas de painéis televisivos.

Como alguém já multiplamente vetado em debates, nunca faria o mesmo, pelo que lamento não ter podido saber o que alguém que agora se posiciona à esquerda do PS teria a dizer sobre esta modalidade de “liberdade de escolha” que agora anda por aí a fazer delirar @s director@s. Agora parece que já são todos “liberais”, quando se trata de escolher professores, alunos é que dizem que não, que não seria inclusão.

Adianto apenas que, na parte final da conversa tive de dizer que nem percebo porque se anda a levar a sério aquela proposta da SEDES (shortlist com 5 nomes para as escolas escolherem quem contratar ou vincular) depois do que sabemos da BCE ou, em outro ambiente, da CRESAP. Isto para não falar da admissão da presença de elementos das autarquias nos júris de selecção dos candidatos.

Um Bom Critério Para Aferir Dos Princípios E Carácter…

… de indivíduos e mesmo de “organizações” é observar como tratam os mais frágeis: crianças, idosos, doentes e mulheres. Sendo elevada a feminização da classe docente, nem é preciso demonstrar de forma demorada como o desrespeito pela classe afecta em especial as professoras. Sim, claro que estou a pensar no nosso ministério (com minúscula) da Educação (com maiúscula a minguar)

Quanto aos “idosos”, basta ver como se tem dirigido, de forma recorrente, um discurso contra os professores “envelhecidos”, apresentados como preconceituosos, privilegiados, desactualizados e pouco flexíveis e inovadores, mesmo se em termos empíricos “muito há ainda para conhecer”, para citar uma frase que ouvi há não muito tempo sobre outros assuntos correlacionados.

Acerca dos doentes, já me repito mais do que o necessário ao destacar as infelizes e despropositadas insinuações – disfarçadas com ressalvas em segundo momento ou plano de fundo – acerca de quem pede mobilidade por motivos de saúde ou apresenta baixas médicas com “padrões irregulares” na opinião do ministro sonso e seus ecos nas escolas.

Por fim, as crianças, em defesa de cujo “interesse” muita gente fala de boca cheia e coração vazio, são quem mais é prejudicado com medidas que são as verdadeiras responsáveis por estarem sem professores mais tempo do que o indispensável e com a falta de medidas que, fora da escola, lhes permitam a ela chegar sem a necessidade de tantos mecanismos compensatórios das desigualdades que se extremam fora dos portões.

Por isso, se no passado não hesitei em apontar o dedo – de forma que sei ser apresentada como pouco elegante em certas tertúlias do belo pensamento e da retórica de gente pretensamente bem intencionada, mas a quem algum tipo de submundo certamente esperará – a outr@s que considerei falhos de princípios e desonestos nas argumentações, não vou agora encolher-me e dizer que, lá porque o tom é mais delicodoce, esse tipo de carências não é por demais visível na actual corte costista para a Educação.

O Texto Que Era Para Sair, Mas Não Saiu

No JL/Educação deste mês decidiram repetir o meu texto de Julho e não saiu o texto que, já o confirmei, enviei para esta edição a meio da passada semana. Deve ter sido por efeito do pastelão verborreico que lá vem do outrora secretário e agora ministro Costa. Alguém deve ter adormecido e nem percebido no que estava a fazer.

Fica aqui o que deveria ter sido publicado e foi escrito mais ou menos pela mesma altura do texto para a FFMS, mas nada como insistir na tecla para ver se percebem alguma coisa da música.

Entretanto, parece que acabará por sair daqui a duas semanas, na edição “normal”.

Professores Mínimos

O ano lectivo arranca com a nuvem da escassez de professores a pairar sobre as escolas. Escassez que existe há vários anos, que não foi enfrentada em devido tempo, mas cujas características também não foram devidamente explicadas, deixando a opinião pública vulnerável a “narrativas” que nem sempre se preocupam com a verdade, agora tornada relativa quase como regra no debate das questões da governação na área da Educação.

Alguns especialistas na área da Educação têm fugido do tema, porque é incómodo abordá-lo com objectividade e não apenas com a demagogia dos decisores políticos. Porque a “falta de professores” tem um contexto histórico e um conjunto de factores explicativos que perturba as análises mais “afectivas” da docência, típicas de quem se refugia nas leituras de outrora e prefere discutir “inovação pedagógica”, repetindo fórmulas gastas e vitimizando-se quando lhes dizemos que esse caminho não vai dar a lado algum.

Assim sendo, convém contextualizar brevemente a tão repetida “falta de professores”. Desde os primeiros anos do século XXI aprofundou-se uma tendência para a proletarização da profissão docente enquanto carreira e a precarização do seu exercício para os que se encontram na situação de contratação. Os entraves à progressão na carreira criados a partir de 2007 e o agravamento de regras draconianas para a contabilização do tempo de serviço e remuneração dos professores contratados, fizeram milhares de professores antecipar a sua aposentação, enquanto afastavam milhares de candidatos à ocupação de lugares por substituição dos docentes titulares que ao longo do ano se viam obrigados a colocar baixas médicas mais ou menos prolongadas. A contabilidade dos tempos ao minuto e à hora para efeitos de Segurança Social, a necessidade de andar de escola em escola para conseguir um horário completo e a absolutamente desnecessária PACC, são apenas alguns dos motivos que levaram milhares de docentes com vários anos de prática docente a escolher outras opções profissionais e, no limite, candidatarem-se apenas ao concurso externo para ingresso na carreira, escusando-se a percorrer o calvário das ofertas/contratações de escola e das bolsas/reservas de recrutamento.

Em simultâneo, os professores que se mantiveram na carreira, foram naturalmente envelhecendo, fenómeno que parece ter apanhado desprevenidos muitos especialistas instantâneos em gestão dos recursos humanos, decisores políticos e pessoas que escrevem e falam sobre tudo na comunicação social. O “envelhecimento” dos docentes parece ter surgido como algo da sua exclusiva responsabilidade, quase como se fosse uma vingança qualquer, as pessoas tivessem decidido ficar mais velhas de moto próprio e, como uma das consequências, verem surgir ou agravar-se condições de saúde mais problemáticas e incapacitantes de um desempenho permanente nas escolas, sem faltas ou baixas médicas.

Nada disto parece muito difícil de compreender. Assim como as medidas mais óbvias para o contrariar, mesmo se já surgiriam com grave atraso. A primeira seria a de melhorar as condições de trabalho para os professores de carreira (eliminando o sistema de quotas para progressão, melhorando as condições salarias, reduzindo o trabalho burocrático) que cada vez apresentam mais sinais de desgaste e de desejo de abandono da profissão e a segunda seria a de melhorar essas condições para os professores contratados para substituições, permitindo que os seus horários sejam completados quando ocupam o lugar de alguém com redução da componente lectiva, contabilizando o tempo de serviço de forma justa para efeitos de Segurança Social e permitindo que as escolas mantenham bolsas de professores para a realização de substituições de curta duração, mesmo se durante algumas semanas possam estar sem componente lectiva.

Em vez disso, quais foram as medidas tomadas, para além de uma investida comunicacional dando a entender que a falta de professores se deve simplesmente à sua falta de profissionalismo e à insistência em apresentar baixas médicas que se insinua serem, muitas vezes, de natureza fraudulenta?

A primeira foi a de mandar atribuir horários a todos os professores dos quadros, independentemente das suas condições de saúde e de se saber que, mal o ano arranque, serão obrigados a colocar nova baixa médica, pois muitos são os que já viram esse tipo de condição validada em Junta Médicas de Medicina do Trabalho.

A segunda foi restringir as possibilidades de mobilidade por doença, recuperando a tese de que muitas serão fraudulentas, por se concentrarem em zonas específicas do país, mas nada fazendo para fiscalizar essa situação ao longo do tempo. Anunciaram-se 7500 juntas médicas para verificar os pedidos de mobilidade, mesmo os já deferidos, mas que só irão funcionar quando o ano lectivo já tiver arrancado, ou seja, de forma não preventiva, permitindo que muitas turmas fiquem sem professores desde a primeira semana de aulas.

A terceira foi anunciar uma revisão das habilitações para a docência que, no essencial, transforma os requisitos para o acesso aos mestrados profissionalizantes em Ensino nas condições de acesso ao exercício da profissão, revertendo completamente a lógica implementada desde 2007 nesta matéria.

Não querendo retirar gravidade às outras duas, gostava de me concentrar nesta última medida por corresponder ao que eu designaria como a opção pelos “professores mínimos”, mesmo depois da reformulação da proposta original do Ministério da Educação (escrevo a 30 de Agosto). Inicialmente, a proposta contemplava a simples conclusão da licenciatura em Educação Básica para a leccionação de disciplinas do 2.º ciclo como Português, História e Geografia de Portugal (grupo 200), Matemática e Ciências da Natureza (grupo 230), assim como apenas 60 créditos (ECTS) para leccionar línguas estrangeiras (Inglês, Francês, Alemão ou Espanhol), o que corresponde um ano de uma licenciatura no sistema bolonhês.

Quem conhecer a estrutura curricular da generalidade das licenciaturas em educação Básica (e eu consultei várias, não sendo aqui praticável reproduzir os planos de estudos), sabe que ao fim dos seus três anos, os assim “licenciados” tiveram apenas entre 2 a 5 disciplinas naquelas áreas científicas, sendo a carga horária menor, por exemplo no caso de História, do que a existente no Ensino Secundário, correspondendo, em regra a 12 créditos. No caso das Ciências, somam em média 15 créditos. As coisas melhoram apenas parcialmente no caso da Matemática. O que é mais ridículo é que, antes da reformulação da proposta, um licenciado em História (180 créditos na disciplina) não poderia aceder a leccionar H.G.P. ao 5º. ano, mas poderia dar aulas ao 12.º, pois só são exigidos 120 créditos. Os requisitos para dar aulas em quase todos os grupos que incluem tanto o 3.º ciclo como o Secundário ficam-se pelos 120 créditos na “formação científica”, mas parece que, entretanto, por exigência sindical, passou a considerar a “formação científica e pedagógica” o que permite ainda maior confusão em tudo isto.

Foi afirmado que nada disto corresponde a um “abaixamento da fasquia” da exigência para se dar aulas. O que é uma meia-verdade, pois já no recrutamento de “técnicos especializados” se admitem candidatos com habilitações mais ou menos ad hoc. Ou menos que meia-verdade porque se transformaram os requisitos de acesso a um mestrado profissionalizante nos critérios de acesso ao exercício da docência, quando isso era um recurso apenas em casos excepcionais.

Não deixa de ser verdade que depois da implementação das “aprendizagens essenciais”, que tornaram esqueléticos os conteúdos de algumas disciplinas, em particular no Ensino Básico, talvez cheguem “professores mínimos” que tenham mais créditos em “Perspetivas Integradas sobre a Realidade Social” e “Perspetivas e Contextos em Educação” (1.º ano da licenciatura em Educação Básica na ESSE de Lisboa) do que em História e Geografia para dar aulas de H.G.P. ou quase tantos como em disciplinas ligadas aos conteúdos e ensino das Ciências.

Até pode ser que exista quem ache que o tradicional saber “enciclopédico” disciplinar está ultrapassado e que o que interessa é “ensinar a ensinar” e “ensinar a aprender”, só que humildemente acho que é preciso saber o que se está exactamente a ensinar, até para poder verificar se foi aprendido.

Esta opção pela lógica dos “professores mínimos”, que estão ali mais para entreter e “gamificar”, terá como primeiras e principais vítimas os alunos. O que será verificável apenas no médio e longo prazo. Se ainda existirem instrumentos de verificação externa das aprendizagens, algo que, como se percebe, parece estar a caminho da extinção.

Texto No Site Da FFMS

Os professores fazem falta?

(…) Não há falta de professores qualificados, mas sim falta de condições para que eles desejem manter-se ou regressar à docência.

(…) A criação de uma espécie de «professores mínimos» – recuperando práticas caídas em desuso há cerca de 30 anos – não é a resposta certa para tornar atractiva a docência.