A Crónica Mensal

É o elogio possível do conhecimento (ensino e aprendizagem) da História em tempos em que a gostam de desvalorizar.

Pós-Modernidade Medieval

As duas últimas semanas de aulas que leccionei em regime presencial corresponderam, em História do 8.º ano, à abordagem dos conteúdos relacionados com os progressos científicos do século XVII e o desenvolvimento do método científico, seguindo-se a introdução aos princípios do Iluminismo.

Atendendo à situação que então já se vivia de expansão da covid-19, aproveitei para abordar o tema na perspectiva dupla de vivermos um tempo que é herdeiro tanto desse novo espírito científico, nascido na Idade Moderna, como de práticas típicas da Idade Média que pensaríamos completamente ultrapassadas..

Mascara

El@s Nunca Deixaram De Estar Entre Nós

Os ex-titulares de alma e coração ou os neo-titulares de aspiração. No terreno, conhecemo-los desde sempre e não se definem pela idade, como se tenta fazer passar, mas pela “atitude pró-activa”, sempre dois pontos à frente de todos para fazerem parte de grupos de controle, avaliação ou monitorização, desculpem, equipas de trabalho. Há duas variantes principais… quem diz detestar grelhas e burocracias mas corra logo a desenvolvê-las quando as “circunstâncias assim o exigem” e quem nunca deixou de achar que o modelo original de add da “reitora” só pecava por demasiado benevolente.

É a malta que aparece nas redes sociais sempre com disponibilidade para tudo e mais alguma coisa e critica azedamente quem acham quem critica as superiores e esclarecidas orientações da tutela. E reforça que “estamos em pausa lectiva, não em férias” e que acha bem que seja tudo non-stop, provavelmente por terem o seu próprio vazio temporal existencial por preencher. E se não tiverem umas tabelas para aplicar sentem que a vida se esvazia de sentido. É também aquele pessoal que diz que “se usámos sempre os computadores em casa, porque se estão a queixar”, não distinguindo o que é feito por opção pessoal do que é apresentado como se fosse um dever inquestionável da condição docente. É gente que tem muita dificuldade em separar como se usa o tempo e o espaço privado, mesmo quando se está em redes de sociabilidade, e a obrigação de estarmos em modo de domínio público 24/7, numa espécie de neo-servilismo digital.

É gente que lê pouco e pouco variado. E aborrece-se imenso com quem lê mais do que as vulgatas e sebentas dos poderes que estão. Lêem muito as arianas, mas nunca leram os originais. Acreditam que a flexibilidade e diferenciação pedagógicas são portentosas novidades, quando a mim já amareleceram as páginas do que li sobre isso. E há ainda quem faz que esqueceu. E entusiasmam-se com o tele-ensino como se fosse a “oportunidade” para entrar no século XXI, quando em termos conceptuais pararam num limbo sem tempo.

Mas não cedem à vaidade de quererem reconhecida a sua excelência em documento formal e só lamentam não existir cerimónia pública de agradecimento pelos pares menores.

É triste.

Efectivamente.

Os cágados de pernas para o ar.

 

 

Não É O “Quem” Que Me Chateia, É O “Como”

Há quem desenvolva complexos de perseguição absolutamente incompreensíveis. E parece que estou de volta a mais de uma década para antanho. Calma, isto é um blogue e eu apenas escrevo, não vos quero tirar qualquer pão da boca ou honraria do peito (que isto no 10 de Junho do próximo ano vai ser um fartote de medalhas), apenas escrever o que penso. Não tenho nada de pessoal contra a larga maioria do pessoal que anda por aí a rondar pelas cortes costistas, apenas tenho contra a combinação de inépcia e calculismo político das “boas práticas”. Chateia-me como fazem as coisas, sejam da cor e formato que forem. Se fossem outros, achava o mesmo se as “recomendações” fossem despropositadas e mal pensadas ou se achassem que o “estado de emergência” justifica que ignoremos algumas regras básicas de legalidade e direitos de cidadania.

Vejam a coisa por este prisma… eu só vos posso chatear o neurónio, enquanto alguns de vocês têm e tiveram o poder para lixar a vida a muita gente e ainda têm a lata de se armarem em vítimas. Tenham decoro. Façam o vosso trabalho bem e acreditem que vos baterei palmas. Só que… até agora, parecem aqueles alunos que se acham o máximo e pensam escapar à crítica na base da cábula ou da espreitadela à mesa do lado. Por isso gostam tanto da “monitorização” e de “indicadores de qualidade”. Para os outros.

pepe

 

Vou Ali Fustigar-me Já E Em Força!

A entrada do exercício diarístico de hoje está levantar alguma celeuma longe do blogue, pelo fbook, por parte de quem acha que lá estou eu a levantar problemas e não a apresentar soluções nem sugestões construtivas, mesmo se já o fiz por diversas vezes.

Vamos lá a tentar perceber como isto funciona.

Um tipo apresenta sugestões ou ideias, ficam ao vento, porque quem sabe está a preparar coisas melhores, em grupos grandes de reflexão e está tudo em “equipa” a delinear estratégias. Ok, tudo bem, sou pouco gregário e muito menos estou com paciência para tempestades cerebrais de horas que depois dão umas páginas de excel com moradas e mails.

As estratégias ou recomendações aparecem, sem rumo estratégico aparente, mas meramente com o objectivo táctico de preencher um vazio crescente, e um tipo critica algumas opções e levanta dúvidas.

Então, diz-se que só se estão a fazer críticas, a levantar “problemas” e a não colaborar no esforço colectivo da “luta pela sobrevivência”.

Um tipo salienta que já apresentou propostas e sugestões (de sequência nos procedimentos, de alteração de calendários, de formas de contactar os alunos que não colidem com regras e leis em vigor) e respondem que, pois, até concordam com grande parte disso, mas voltam a criticar que se critique sem apresentar sugestões, sendo que acabaram de dizer que concordam com parte das sugestões que foram efectivamente feitas.

Ficaria baralhado, se já não conhecesse esta forma de estar há quase 15 anos.

Vamos ver se conseguimos entender-nos em matéria de “missões” nisto tudo: o ME tem (ou deveria ter) grande quantidade de informação nas suas mãos e gente muito certificada e competente a discutir as opções e a apresentar recomendações e sugestões. Algumas delas são válidas (por exemplo, a DGE a recomendar o low tech como primeira opção), outras nem por isso e parecem desligadas da realidade (mobilizar docentes reformados para levarem trabalhos aos alunos de casa em casa, esperar que muitos alunos desfavorecidos tenham meios para acompanhar o trabalho em condições vagamente equitativas). Depois, há quem tem o direito de chamar a atenção para essas questões, que podem ser encaradas como “problemas” mas não como matérias a ignorar.

Sei que se tentou que formássemos um coro angelical de colaboração com o ME nestas horas difíceis, mas alguém necessita de olhar de “fora” e apontar as falhas. E sim, apresentar sugestões ou mesmo alternativas, mas atendendo sempre que essa não é qualquer obrigação, mas um direito de cidadania.

Alguém precisa de fazer de coro grego, que comenta a acção e não se limita a dizer amén, sem que apareçam a desvirtuar e truncar o que foi escrito ao longo destas semanas.

  • Afinal… aquela 4ª feira à espera da decisão do Conselho tal e tal de Saúde Pública não foi tempo perdido?
  • A pressa em afirmar que os professores não estavam em “férias” não foi despropositada?
  • A ideia peregrina desta calamidade ser uma “oportunidade” para construir a verdadeira escola do século XXI não é uma atoarda?
  • Decidir que o 3º período é todo em ensino à distância em suporte digital, antes de inventariar com que meios se pode fazer isso?
  • O facto de se andar a querer definir indicadores disto e daquilo e cronogramas do trabalho com os alunos, antes mesmo de se saber em que moldes se projecta o 3º período quanto à avaliação externa, não é uma precipitação?
  • Etc…

Eu já não escrevi com o que concordava? Que primeiro se avaliassem os meios, se tomassem decisões claras sobre como vai ser, no mínimo, o mês de Maio, e depois se apresentassem as linhas-mestras do que deve ser feito em matéria de trabalho com os alunos? E que dificilmente há modo de enquadrar de forma equitativa todos (e nem falei nos NEE). Que devemos contactar primeiro os EE para saber o que autorizam ou não? Que devemos usar plataformas o mais leves e simples de usar que seja possível, em vez de cedermos a um certo novo-riquismo exibicionista?

É difícil tomar decisões em tempos de incerteza? Claro, mas é exactamente nestes momentos que se precisa de gente que tenha a cabeça no lugar, algumas âncoras e não apenas velas ao vento em termos de convicção e não só de conveniência. Do nível central ao local.

Se eu não posso criticar, publicamente, as opções que estão ser tomadas só posso citar alguém que, muito bem afirmou:

Excedi-me? Estão a brincar comigo?

brain

O Texto Para O JL/Educação Deste Mês

Como encontrar a edição em papel deve ser muito difícil por estes dias (eu não consegui, tive de pedir o pdf ao JCVasconcelos) e não será por publicar o meu texto que as vendas serão afectadas, deixo em seguida o texto que está meio perdido por entre prosas de enorme entusiasmo com isto tudo, a começar por um do SE Costa que merecia ser “descascado” à boa maneira de antigamente, não tivesse eu mais do que fazer.

O texto foi entregue com uma semana de antecedência, portanto remete para o contexto de início da passada semana. Agora, naturalmente, já escreveria algo mais, retirando o primeiro parágrafo, por exemplo. É longo, eu sei, muito século XX, ou mesmo XIX. Mas nem é o maior que lá está… nem o mais “mobilizador”…

Que Ensino à Distância?

Nos últimos meses, decidi fazer alguns MOOC (Massive Open Online Courses) para experimentar o modelo de formação à distância, tanto por falta de tempo para sessões presenciais, como por assim ser possível aceder a uma oferta mais variada e interessante (em especial no plano internacional em que há imensas possibilidades). Esta experiência como utilizador, aliada a anos de trabalho com os alunos em suportes digitais em combinação com os meios tradicionais, tem-me sido útil para encarar com prudência algumas propostas feitas para o recurso a ferramentas de ensino à distância (e-learning) no contexto de emergência educativa que vivemos na sequência da expansão da covid-19 e da necessidade de suspender as actividades lectivas nas escolas.

Comecemos por fazer um resumo muito breve da situação: perante os riscos de contágio pelo vírus SARS-CoV-2 e depois de algumas hesitações, o governo decidiu encerrar as “actividades lectivas presenciais” a partir de 16 de Março, ficando sem se perceber muito bem se isso significava uma espécie de antecipação da pausa da Páscoa, se pretendia que continuassem a ser desenvolvido outro tipo de actividades “não-presenciais”. Foi nesse contexto que surgiu a indicação para que os professores desenvolvam modalidades de “ensino à distância”, que permitam manter o contacto com os alunos e que estes continuem a ter uma ligação à escola e a desenvolver as aprendizagens possíveis num contexto inédito.

As ferramentas disponíveis para esse ensino à distância são diversas, desde as que são passíveis de utilização em sala de aula, como as plataformas digitais dos grandes grupos editoriais (Escola Virtual, Aula Digital) com conteúdos que apoiam o trabalho com o manual, passando pelas que permitem uma espécie de verificação das aprendizagens em tempo quase real (ClassMarker, Kahoot, Padlet, Quizizz, Quizalize) até às que permitem criar um ambiente de sala de aula digital, com disponibilização de materiais, questionários, fóruns de debate e uma série de outras funcionalidades (Google Classroom, Microsoft Teams) que vão mais longe do que a transmissão de aulas por Skype, a partilha ou arquivo de materiais nos já muito comuns blogues de professores e turmas ou em grupos criados para comunicação em redes sociais (Facebook, WhatsApp). E isto é apenas uma escassa amostra de tudo o que está disponível para a constituição de comunidades educativas virtuais que dispensem actividades presenciais.

É um mundo quase novo, com muitas potencialidades, admirável em muitos aspectos e que se tem apresentado como uma faceta essencial da chamada “Educação para o século XXI”. Que permite transformar tanto as aulas convencionais, enriquecendo os recursos dos professores, como desenvolver uma espécie de prolongamentos virtuais quando existem situações excepcionais (alunos com doenças ou contextos familiares que implicam a sua ausência prologada da escola) como a que agora se vive.

Grande parte dos professores conhece estas ferramentas, embora seja arriscado afirmar que a maioria as domina, pois muitas são recentes, estão em constante evolução e, nos últimos anos, não foi feito um investimento importante na formação contínua nesta área, em virtude de outras prioridades. O parque informático das próprias escolas envelheceu, as condições de funcionamento das redes foram ficando cada vez mais desajustadas das novas exigências e, por isso mesmo, a exploração mais regular destes recursos foi-se tornando mais limitada.

Mas o que agora temos perante nós é o “desafio” de, em poucas semanas e porque parece óbvio que o ano lectivo “presencial” chegou ao fim, erguer uma rede nacional de ensino à distância ou, pelo menos, de redes locais que permitam a professores e alunos desenvolver actividades que transmitam um vago simulacro de “normalidade” ao 3º período.

Existindo, por certo, quem vá desenvolver o tema na perspectiva de tudo o que pode ser feito pelos professores e do trabalho que um grupo de especialistas ligado ao Ministério da Educação tem estado a desenvolver no âmbito da Direcção-Geral da Educação, talvez seja necessário que alguém apresente o que se pode considerar o reverso da medalha, ou seja, as dificuldades e obstáculos a ultrapassar para que se vá além da aparência de tudo ser possível e de ninguém estar de “férias” antecipadas.

E há obstáculos reais que não podem ser desprezados como se fossem “residuais” ou como se quem os apresenta esteja apenas interessado em criar “problemas” e a não contribuir para as “soluções”. Pelo contrário, sem que se destaque o que pode correr mal é que se corre o risco de termos, como nem é novo entre nós, soluções truncadas ou em permanente versão beta. Ou, o que é pior, soluções que não tenham em consideração a realidade concreta em que vivem muitos alunos fora dos portões das escolas. A DGE esteve bem ao alertar para o “enorme cuidado para que todos os alunos, independentemente dos dispositivos que utilizem e do software instalado, tenham acesso aos recursos disponibilizados pela escola. Deverá ser utilizado software de livre acesso e não muito exigente do ponto de vista tecnológico ou de largura de banda”.

Mas é muito importante que se perceba que existe em Portugal um digital gap (ou digital divide) bastante acentuado e que, mesmo reduzindo o nível de exigências técnicas, de acordo com os dados da Pordata para 2019, existem 22% de agregados familiares sem banda larga, oscilando entre os 14% na Área Metropolitana de Lisboa e mais de 28% no Alentejo. E que quando apertamos a malha de análise, as disparidades ainda são maiores. Num estudo da Deco sobre a velocidade média permitida pelas diferentes operadoras (divulgado na edição de 29 de Outubro de 2019 do Correio da Manhã, pp. 24-25) verificam-se diferenças enormes, com a velocidade de download (no caso da Meo) a ser quase 30 vezes superior em Braga (58,2 Mb) do que Barcelos (2,4Mb), a 22 km de distância. E os exemplos poderiam repetir-se pelo país e com outras operadores. Como seria de esperar, são as zonas do interior a ter os piores serviços de acordo com a Deco, com destaque negativo para Celorico de Basto, Crato, Lousão, Montemor-o-Novo, Penacova e Valpaços.

Estas assimetrias não são exclusivas de Portugal, pois nos EUA, de acordo com um estudo do Pew Research Center, cerca de 15% dos agregados com crianças em idade escolar não têm ligação de banda larga, valor que sobe para os 35% nos grupos mais desfavorecidos do ponto de vista económico e em algumas comunidades étnicas minoritárias[i], dando origem a um homework gap.

Para além disso, há que considerar ainda outro factor relacionado com o tipo de competências digitais que a generalidade dos alunos tem, sendo um equívoco comum confundir-se o tempo que passam agarrados aos seus gadgets ou a fazer publicações em redes sociais e um efectivo domínio de capacidades que lhes permitam navegar em outro tipo de ambientes. Em muitos casos, os alunos acedem à net nas escolas, beneficiando das redes abertas disponíveis, e recorrem a jogos que descarregaram, não necessitando de estar sempre online. A proliferação de perfis em redes sociais e de publicações que aparentam o recurso a ferramentas de tratamento de imagem ou vídeo não deve confundir-se com competências de pesquisa, selecção e tratamento crítico da informação. Se com os mais novos até a inserção de um nome de utilizador ou palavra-passe fornecida pela escola (que contenha caracteres especiais como o underscore ou exija o recurso à tecla AltGr) para aceder ao perfil individual nos computadores escolares pode levar uma parte substancial de uma aula até toda a gente estar online, há alunos do Secundário para quem o mail já é algo do passado remoto e as etapas para a criação de uma conta numa plataforma desconhecida uma espécie de corrida com obstáculos. Embora os resultados dos alunos portugueses no International Computer and Information Literacy Study tenham sido globalmente acima da média, “o estudo mostra que dar aos estudantes e aos professores acesso a equipamentos tecnológicos não resulta automaticamente no desenvolvimento de aptidões de literacia digital sofisticada” [ii].

Tudo isto deve ser tido em consideração quando se prepara um 3º período em formato de e-learning. Vamos desenvolver actividades com reflexos na avaliação dos alunos quando a desigualdade de meios e de acesso aos meios digitais pode ser maior do que a que se verifica com os métodos convencionais? Ou vamos ser prudentes e usar este “desafio” com alguma ponderação e avançar com atenção aos tão propalados princípios da equidade, inclusão e justiça social?

[i] https://www.pewresearch.org/fact-tank/2020/03/16/as-schools-close-due-to-the-coronavirus-some-u-s-students-face-a-digital-homework-gap/ .

[ii] https://expresso.pt/sociedade/2019-11-05-Literacia-digital-dos-alunos-portugueses-e-boa-mas-o-que-aprendem-sozinhos-nao-chega .

PG JL25Mar20

 

Dia 9 – E Onde Ficam A “Equidade” E A “Justiça Social”?

Mesmo a propósito deste artigo que se baseia em estudos e não em voluntarismos a pensar nos ganhos políticos.

(…)

Imaginemos que conseguimos – por manifesta singularidade do génio da lusitana raça – colocar em funcionamento até meados de Abril uma rede de ensino à distância com recurso aos meios de educadores, professores e famílias dos alunos. Alguém acredita que essa solução não agravará a pré-existente desigualdade de oportunidades entre os alunos que a Escola Pública tenta combater todos os dias dos portões para dentro?

Alguém acredita que, mesmo que as operadoras de telecomunicações reduzam os tarifários e alarguem a banda em todo o país e que o ministério consiga parcerias favoráveis para distribuir equipamentos pelos grupos mais desfavorecidos, a situação será vagamente equitativa ou justa do ponto de vista social?

(continua)

diario

Respostas Para A Peça Da Sábado De Hoje

Como só restaram pedacitos, ficam aqui as questões colocadas e as respostas completas dadas no início da semana que estão muito longe de certos delírios acerca da enorme “criatividade” que outros actores (mas de topo) andam por aí a anunciar.

– Como está a ser lecionar a partir de casa?

Está a ser um processo tranquilo, até porque tinha reservado poucos conteúdos para estas últimas semanas. Em regra, realizo os momentos de avaliação antes, sendo este tempo final de correcção de trabalhos e fichas, auto-avaliação e conversa com os alunos, até porque as escolas têm muitas actividades nestas semanas. Por isso, facultei alguns materiais aos alunos (8º ano) já para o próximo período e aconselhei-os (e aos encarregados de educação) a aproveitarem o tempo para relaxarem um pouco.

– Que ferramentas tem estado a utilizar?

Em sala de aula já estou habituado a usar ferramentas digitais para realizar pequenos questionários e a entrega de trabalhos pelos alunos é quase sempre feita por mail, mesmo nas turmas de 6º ano. No 8º ano é a regra. Como director de turma, comunico com os encarregados de educação regularmente por mail, pelo que agora me limitei a pedir-lhes autorização para comunicar directamente com os alunos e criei uma turma no Google Classrooom para a qual os convidei. Lá, coloquei algumas das apresentações que iria usar presencialmente no 3º período. Mais adiante, usarei o Quizizz e o Socrative para realizar questionários, com prazos definidos. Mas não penso alargar muito os suportes, até porque alguns não têm meios para estar sempre disponíveis, por exemplo, em sessões síncronas de vídeo-conferência.

Resumindo: para já, mail, Google Classroom, Quizizz e Socrative.

– E como têm os seus alunos reagido a este método diferente de ensino?

Por enquanto, apenas contactámos para estabelecer o que fazer mais tarde. Até agora 95% dos EE responderam e 80% dos alunos já se encontram inscritos na turma virtual. Pareceram interessados e mesmo ansiosos mas, por enquanto, prefiro perceber como tudo isto vai evoluir,

– Existe desnorte da DGESTE na organização da resposta a ser dada pelos professores e escolas?

Sim de forma clara, os serviços do ME têm respondido pouco, devagar e com escassa coerência, remetendo para as recomendações da DGS (ao nível da realização de reuniões e outras actividades pelos professores nas escolas) e enviando um conjunto de sugestões para o tele-ensino pouco úteis, assim como o documento que foi enviado para ultrapassar o problema dos alunos sem equipamentos e/ou net em casa conter recomendações impraticáveis ou mesmo disparatadas.

A DGE criou um site em que concentrou um conjunto amplo de propostas para o ensino à distância, úteis, mas que em alguns casos potenciaram que numa mesma escola se usassem soluções muito diversas ou mesmo com a mesma turma diferentes professores recorressem a ferramentas diferentes, o que baralha o trabalho dos alunos.

E tem havido uma falta de clareza acerca do que é necessário fazer com cada nível de escolaridade, porque as soluções para o 1º ciclo dificilmente serão as mesmas que devem ser desenvolvidas para os alunos do Ensino Secundário.

– Considera que deveria a DEGESTE ter-se preparado com mais antecedência (chega a sublinhar num post que a lista de contactos começou a ser feita na 2ª feira…)?

Ao longo dos últimos 15-20 anos, os serviços do ME deixaram de ser estruturas de apoio técnico competente ao funcionamento das escolas, em que era possível confiar, para passarem a ser meras extensões operacionais do poder político, sem autonomia técnica. Penso que, tal como a tutela política, a DGEstE e a DGE pensaram que poderiam adiar medidas, que as coisas não teriam uma progressão tão rápida, mesmo se em blogues e nas escolas desde a semana de 9 de Março se falasse na necessidade de se fazer algo. A longa espera pelo final da reunião do Conselho Nacional de Saúde Pública e o seu desfecho, bem como a hesitação do primeiro-ministro em avançar sem o apoio dos outros partidos, com reuniões formais para esse efeito, também não ajudaram nada.

– E parece-lhe que, numa classe envelhecida, estas medidas (como a de os trabalhos serem recolhidos na casa de quem não tem acesso a Internet ou a um computador) são desfasadas dos conselhos de distanciamento social que nos têm sido dados?

Algumas dessas sugestões são pura e simplesmente para ignorar. Sugerir que professores reformados (grupo de risco) se desloquem à casa de alunos (grupo em regra assintomático quando tem o vírus) é um disparate. O que se verifica é que certas retóricas demagógicas sobre o século XXI e todo o maravilhoso mundo digital do século XXI lidam mal com o país real em que 20-25% da população vive abaixo do limiar da pobreza.

A idade dos docentes só é parcialmente relevante, porque a geração que está acima dos 50 anos já passou por uma série de transformações tecnológicas a que se foi adaptando, mesmo se nem toda a gente conseguiu acompanhar todas as novidades. Mais complicado é o grau de desgaste que atinge muitos docentes.

– No capítulo das soluções: parece-lhe que apesar destas dificuldades, será possível organizar-se o estudo e ensino a distância nas próximas semanas?

É possível estabelecer uma espécie de pré-rede de ensino à distância, mas que nunca será universal por impedimentos técnicos (falta de cobertura da banda larga em zonas do interior do país com população mais dispersa) ou económicos (condições das famílias dos alunos). Pelo que estão em questão os princípios tão proclamados da equidade, justiça social e inclusão.

É necessário decidir se o objectivo é criar uma rede global, desenhada centralmente e padronizada, ou micro-redes locais. Se cada professor ou grupo de professores improvisa uma solução, se temos soluções de escola/agrupamento. Ou se, agora que se fala tanto em municipalização, as autarquias assumem um papel relevante nesta matéria, nomeadamente na negociação com as operadoras de condições para que todos os alunos disponham de recursos para se integrarem nesta solução.

PG Verde