Aquilo De Que Realmente Sinto Falta…

… é de um movimento consequente, na blogosfera ou fora dela, preferencialmente nas escolas e agrupamentos a partir das próprias lideranças, no sentido de flexibilizar o modelo de gestão escolar e dar a autonomia aos agrupamentos/escolas para decidirem se querem lideranças unipessoais ou colegiais e se preferem a inclusão no modelo de eleições abertas interpares para as chefias intermédias ou escolhas condicionadas pelas direcções.

lampadinha21

 

As Minhas Ideias Em 2008 (E No Essencial Também Em 2019) Sobre A Carreira Docente

O Arlindo já explicou que a proposta que fez se baseia num texto que ele escreveu em 2010. Esses foram tempos muito interessantes (2007-2011, em especial) porque muita gente escreveu imensa coisa sobre Educação e, felizmente, alguns não se arrependeram, renegaram ou apagaram esses escritos. Por isso, no meu caso (e no do Arlindo), como em algumas matérias ainda penso como pensava, sinto que me repito se voltar a escrever sobre temas em que as coisas até passaram a letra impressa.

No caso da carreira docente, em 16 de Março de 2008, escrevi um texto que está publicado no livro do Umbigo (pp. 322-324) e que vou republicar na íntegra, espero que sem gralhas. Como perceberão, não me preocupavam tanto os índices salariais e escalões quanto a lógica e a forma da estrutura. É um texto teórico, sem contas, preocupado com o que deve ser uma carreira docente e não com os seus custos. Quem ler com atenção mesmo, perceberá que está lá a crítica a exames de ingresso na carreira (pois a pacc seria uma criação de mlr, assim como não sou apoiante de exames de certificação por uma ordem profissional, mesmo que não discorde da existência dessa ordem, algo que nem sempre a honestidade intelectual de algumas pessoas alcança).

Algumas Ideias (Não Necessariamente Consensuais) Para Uma Carreira Docente

As coisas vão ficando dispersas por posts aqui e ali, pelo que talvez seja necessário ordenar algumas das minhas ideias sobre aquilo que deveria estar na base da Carreira Docente e da sua progressão.

Naturalmente, são ideias pessoais, pouco preocupadas em ser consensuais ou «confortáveis», não vinculam ninguém e estão abertas a toda a crítica e discussão.

  • A Carreira Docente deve definir-se pelo exercício da docência e, como tal, todos os «professores» ou «educadores» devem exercê-la, salvo em caso de problemas de saúde ou outros imponderáveis. Portanto, e por regra, nenhum professor integrado na carreira – ressalvadas as situações atrás mencionadas – deve estar isento de componente lectiva. Seja elemento de um órgão de gestão, coordenador de biblioteca, centro de recursos, centro de formação ou de qualquer outra área de funcionamento de um agrupamento ou escola deverá ter sempre pelo menos uma ou duas turmas a seu cargo (e aqui remeto mais para os 2º e 3º CEB e Secundário).
  • Sendo a docência o denominador comum do «ser professor», deve ou pode existir uma diferenciação funcional e vertical da carreira de acordo com as necessidades do sistema de ensino. Se a maioria dos professores terá uma carreira enquanto tal, dando aulas, sendo director de turma, etc, outros grupos poderão ter carreiras paralelas diferenciadas pela sua função: administração escolar, educação especial, coordenação e supervisão pedagógica, coordenação de bibliotecas e centros de recursos ou coordenação de centros de formação, por exemplo. Estas carreiras paralelas deverão estar sujeitas a formações especializadas ou à demonstração curricular da aptidão para o seu exercício, no formato da apresentação pública de um projecto. O acesso a estas carreiras só deveria ser possível a quem completasse, pelo menos, um ou dois escalões (4 ou 8 anos) na carreira docente, em exclusividade de exercício da docência (salvo os casos de força maior já acima destacados).
  • Todos estes ramos da carreira deverão ser escalonados de forma paralela, com segmentos temporais semelhantes que, por comodidade, poderiam corresponder aos ciclos de escolaridade leccionados, sendo avaliados no seu final. Como defendo, em outra área, uma reorganização curricular em três ciclos de uma escolaridade obrigatória de doze, os escalões deveriam ser de 4 anos. Obviamente, a estabilidade das colocações e a continuidade pedagógica deveriam ser realidades e os docentes serem avaliados após cumprirem o seu trajecto no escalão acompanhando uma turma (1º CEB) ou um conjunto de turmas (outros ciclos).
  • A avaliação deveria assentar na apresentação de um ensaio crítico sobre o desempenho ao longo dos anos em apreço, não apenas por escrito mas igualmente numa prova pública, apresentada perante um júri formado por três elementos (Presidente do Conselho Executivo/Director, Coordenador de Departamento e um elemento do Ensino Superior convidado, com formação na área disciplinar ou funcional do exercício do docente – embora esta constituição seja possível em outros formatos, podendo incluir um elemento qualificado da IGE, por exemplo). De certa forma, é um formato próximo das provas de aptidão pedagógica existentes no Ensino Superior.
  • No caso dos professores dedicados em exclusivo à docência o ensaio/relatório incidiria sobre o seu desempenho, com destaque para o trabalho desenvolvido com as turmas e em especial a sua Direcção de Turma, quando existir. Os elementos apresentados (nomeadamente sobre assiduidade, resultados e envolvimento em actividades deveriam ser previamente aferidos pela Comissão de Avaliação existente no Conselho Pedagógico). No caso dos professores com outras funções, esse relatório seria completado com o das actividades desenvolvidas nas outras funções desempenhadas.
  • A avaliação deveria assentar em três níveis de classificação: InsuficienteBom Muito Bom. A classificação dependeria maioritariamente (75%) do conteúdo substantivo do relatório e da forma de apresentação escrita e oral do mesmo (25%), com parâmetros a definir. A classificação de Insuficiente acarretaria a repetição da prova no ano seguinte, ficando a progressão em suspenso; a classificação de Bom implicaria a progressão para o escalão seguinte; a classificação de Muito Bom poderia implicar a obtenção de um prémio pecuniário ou a redução em um ano da progressão no escalão seguinte (o que teria consequências no calendário da avaliação, que é necessário prever).
  • Esta avaliação não estaria dependente de quotas para qualquer das classificações. O ingresso em cada uma das subcarreiras estaria dependente das necessidades de cada agrupamento/escola. O ingresso na carreira docente, em geral, seria feito com base na classificação final do curso de habilitação para a docência, sendo esse cursos devidamente certificados pelo ME, pois não é lógico inibir, num exame posterior, o acesso à profissão de quem fez um curso com essa única saída profissional.

Neste modelo, a Carreira Docente teria uma forma arborescente. O tronco comum seria o exercício da docência e, a partir de determinado ponto, subdividir-se-ia em ramos, sendo que o principal em termos quantitativos seria sempre o da docência em exclusividade.

Sei que estas ideias têm muitos elementos contestáveis, segundo diversas perspectivas. Até eu lhe acho umas asperezas e uns pontos a carecer de detalhe ou melhor demonstração.

Mas eu não me eximo ao escrutínio público das minhas ideias. Caso contrário escrevia as coisas num caderno e guardava-as para mim.

Como ficava escrito… a proposta tinha “asperezas e uns pontos a carecer de detalhe e melhor demonstração”. Mas, mais de 11 anos depois, continuo a identificar-me com a lógica de diferenciação funcional vertical e da obrigatoriedade do exercício da docência.

Numa nova terminologia, acho que todos deveríamos ser, em primeiro lugar, “professores lectivos” e só depois e paralelamente outras coisas.

Nesta altura (2008), propunham-se “alternativas” e as mesmas eram discutidas para além das conveniências partidárias (o PS estava isolado e mesmo no seu interior encontrava-se fraccionado em relação ao tratamento imposto aos professores), de geringonças ocasionais e, na generalidade dos casos, das circunstâncias pessoais e interesses particulares.

PG 4

Outro Importante “Avanço Civilizacional”…

… seria que quem defende a gratuitidade e reutilização dos manuais também considerasse errada a cobrança de dinheiro, por pouco que seja, por folhas que devem ter obrigatoriamente o carimbo da escola/agrupamento para serem feitas as respostas a testes cujos enunciados se encolhem (sem linhas/espaço para os alunos responderem) para poupar fotocópias. Ainda mais patético quando quem dirige tais “unidades de gestão” enfileira na doutrina flexível do fim dos testes, dos exames, das avaliações, dos rankings e de tudo isso. E são pessoas, em alguns casos, bem próximos de um certo governante muito civilizado para o exterior.

Bunsen

Um “Avanço Civilizacional”…

… seria todas as famílias terem condições para comprarem os manuais para os seus filhos e poderem ficar com eles para memória futura. Lá em casa ninguém era doutorado acima da 4ª classe mas ensinaram-me a estimar os livros e a guardá-los, como os meus pais guardaram os seus.

Já agora, quando for tudo com tablets, nas “salas do século XXI”, também será tudo para devolver?

Classesperigosas

Aquilo Que Eu Acharia Mesmo “Inovador” Em Termos De Avaliação

Uma avaliação cumulativa, em que os alunos fossem alcançando objectivos, desenvolvendo competências, aplicando conhecimentos adquiridos ao longo do ano lectivo com um horizonte de 20 na classificação final (para a qual deveriam conhecer as condições no ninício do ano lectivo de forma clara e objectiva), mas que teria classificações intermédias nos períodos, semestres, bimestres, trimestres, o que entenderem. Ou seja, o aluno poderia ter 6 no primeiro período, 13 no segundo (+7) e 18 (+5) no terceiro, conforme os objectivos/competência/conhecimentos que fosse alcançando. E poderia gerir o seu ritmo, em especial se os seus progressos pudessem ser conhecidos de forma “contínua” e transparente. Poderia querer trabalhar mais num período do que em outros. E tudo poderia ser feito com testes, trabalhos, projectos ou seja o que for. Sejamos heterodoxos e toleremos metodologias diferentes.

Só que isto implicaria mesmo uma mudança de “paradigma” na forma de encarar as aulas e a avaliação. Não seriam mudanças cosméticas com “descritores” e grelhas disto e daquilo. E muito menos com reuniões para tudo e nada. E até poderia ser feita por ciclo, com um total global.

No Básico também seria possível, com a escala de 0 a 100% e conversão posterior  em escala de níveis de 1 a 5 ou a 10 (a minha preferida). Os alunos iriam sabendo quanto já tinham alcançado. Não é muito diferente do que se usa em abordagens menos convencionais da avaliação, só que sem fingir que é novo e depois acabar por dar notas de 1 a 5 como sempre em cada período.

Isso, sim, parece-me “inovador”, mesmo se exista, quase por certo, quem me diga que já foi experimentado algures. Não me sinto bafejado pela singularidade intelectual absoluta como é apanágio dos inovadores por desígnio.

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