O Fracasso Estrondoso Da Escola Digital

A decisão inédita e algo inesperada de fechar durante duas semanas (até ver) todas as escolas por completo, incluindo o chamado ensino à distância, para além de demonstrar até que ponto o governo perdeu por completo o rumo nestas duas últimas semanas, é uma declaração ruidosa do fracasso do projecto a que chamaram pomposamente Escola Digital, prometendo o actual PM 400 milhões para o efeito há mais de 7 meses.

Depois de tanta declaração parola sobre a modernização digital das escolas, chegamos a esta semana praticamente sem nada de novo a esse nível, ou pelo menos sem nada de verdadeiramente operacional. Mais de sete meses depois, período durante o qual muito tempo se perdeu em outras irrelevâncias ao gosto do ministro Tiago e do secretário João, agarrados que nem lapas às suas “convicções” e muito pouco abertos às necessidades reais das escolas.

Fazendo um inventário curto dos inconseguimentos:

  • Em relação aos alunos “mais desfavorecidos” de que alguns tanto gostam de falar”, a larga maioria dos que não tinham conseguido aceder ao E@D após Março, continuam sem equipamentos disponíveis, apesar de uma espécie de sprint trôpego a partir de meados de Dezembro. Os 100.000 kits tecnológicos são menos de metade do “essencial” para garantir que não aumentam as “desigualdades”. Se 20-25% dos alunos e famílias não tinham capacidade para seguir o ensino à distância há perto de um ano, isso implicaria, no mínimo, a disponibilização de 200 a 250.000 kits. Os dados mais recentes do Estado da Educação apontam para mais de 360.000 alunos com Apoios da Ação Social Escolar, com 13% (Secundário) a 24% (2º ciclo) dos alunos matriculados nos vários ciclos de escolaridade a beneficiar do escalão A/1
  • Em relação aos professores, terminou na 2ª feira a fase de diagnóstico das competências ou capacidades digitais. Os meses anteriores foram gastos na tradicional “formação de formadores”, tão cara a qualquer “projecto” nacional na área da Educação. Equipamentos para uma situação de ensino misto ou não-presencial que não passem pelos dos próprios professores? Até agora zero e parece que só haverá, em sistema de usufruto temporário, para quem frequentar as futuras formações que, por este andar, talvez estejam terminadas pela Páscoa, na melhor das hipóteses. Como em tantas outras ocasiões, muita preocupação em alimentar a “estrutura”, pouco empenho em chegar a tempo ao terreno.
  • E o que dizer do #EstudoEmCasa, que ainda anda a transmitir aulas que, pelos vistos, não servem para nada, excepto para compensar alguns serviços prestados à tutela e alimentar umas quantas vaidades, por muito mérito que tenham os colegas que por ali andam e tiveram a sorte de dar aulas um ano inteiro para as câmaras, sem o ruído da petizada e materiais para ver e classificar? Para que serve aquilo se, com uma interrupção das aulas presenciais, se esquece a sua existência, bem como dos laboriosos planos feitos em quase todos os agrupamentos e escolas não agrupadas para a eventualidade de se passar ao ensino misto ou não-presencial?

Parece evidente que nunca se pensou ser mesmo necessário encerrar as escolas e, portanto, tudo foi sendo feito com todo o vagar e a displicência que caracterizam aquilo que não se leva a sério e se vai fazendo porque enfim. Talvez o nervoso, irritação e teimosia do ministro Tiago (e do seu mentor, o PM Costa) resultem da consciência de que, no caso de ser preciso passar para novo período de E@D, se perceberia com muita clareza tudo o que não foi feito apesar de gongóricas promessas ou que está a ser feito a um ritmo impensável, acaso fosse uma emergência bancária.

Preocupação com “os mais desfavorecidos”? Com “o agravar das desigualdades”? De palavras andamos fartos, de actos é que a mingua é forte.

Quiçá para uma 4ª ou 5ª vaga de urticária comichosa esteja tudo mais ou menos remendado. Quando ao maravilhoso mundo da transição digital, fiquemo-nos pelo modelo tradicional.

Foi Tempo Que Não Perdi

Percebia-se à légua que era coisa para entusiastas de apps e pouco mais, pois dependia de variáveis que estavam longe de asseguradas. A “incapacitação cívica” juntou-se a algumas outras habituais falhas nestas coisas que despertam muito interesse mediático a pedido.

As pessoas estão a perder confiança na StayAway Covid. Cinco meses depois de ser lançada, a aplicação StayAway Covid só foi usada para enviar alertas de contágio 2708 vezes. O Inesc Tec queixa-se de falta de organização, falta de formação de médicos e burocracia.

Só Para Colocarem Na Agenda

7 de Janeiro:

  • Criar (CFAE) código de respondente de cada docente das escolas associadas.
  • Solicitar (diretor do CFAE) a colaboração do diretor do AE, no sentido de sensibilizar os docentes para a importância da sua participação da resposta ao Check-in e para o seu desenvolvimento profissional.

8 de Janeiro:

  • Enviar (CFAE) o código de respondente e o endereço do Check-in a cada docente, para utilização na resposta ao questionário.

(o preenchimento ainda não está disponível hoje, portantosss….)

  • Preencher (docentes) o questionário Check-in.

12 de Janeiro:

  • Enviar lembrete para todos os docentes.

15 de Janeiro:

  • Enviar último lembrete.

18 de Janeiro:

  • Fim do período de preenchimento do formulário

(dizem que parece que “agora é que vai ser diferente!” Diferente do quê, já agora?)

Pelo Educare

Texto escrito a 29 de Dezembro, à laia de despedida do ano “velho”.

O ano de 2020 esteve longe de nos trazer um futuro radioso. Há que lidar com isso com lucidez, clareza, racionalidade e muita exigência. E o ano de 2021 deveria ser um ano decisivo para que não se prolongassem as promessas equívocas acerca de um futuro cuja chegada tem sido anunciada com demasiada precipitação.

Domingo

Quando vou rever materiais que decidi guardar, então para uma “memória futura” que agora é passada, divirto-me sempre um pouco mais quando ouço ou leio as conversas sobre os novos “paradigmas” (confesso, é um assunto a que regresso com frequência), em especial os que remetem para a transformação da docência por vias das “novas tecnologias”. Em meu tempo de alunos e professor, já passei por não sei quantos “paradigmas” a que eu chamaria antes “micro-paradigmas” ou qualquer coisa menos pomposa porque, no fundo, são apenas evoluções, no sentido da rapidez e capacidade de armazenar informação, dos materiais de suporte. Em meados dos anos 90, a grande novidade (que saudades do Windows 95) eram as disquetes de apoio aos manuais, com fichas de actividades editáveis. Ainda os cds estavam em processo de generalização (ainda devo ter a caixa de uma das primeiras versões da Diciopédia), as cassetes VHS ainda eram um recurso normal, dvds nem vê-los antes da viragem para o século XXI. Em 25 anos passámos das velhas disquetes em que nem uma foto de telemóvel com câmara de média gama caberia para suportes virtuais com uma capacidade imensa.

Aumentámos exponencialmente a capacidade de armazenas dados e a rapidez de a eles aceder, mas o essencial mudou pouco e a “democratização” da informação que resultou desse processo teve mais implicações na forma de a seleccionar e organizar para os alunos do que propriamente em outras áreas da docência. Com os meios adequados, facilitou muito a forma de “mostrar” aos alunos o que eu, como aluno, apenas via a preto e branco, em escassas imagens, nuns livrinhos de apoio (os de História do Unificado eram de capa azul) da Secretaria de Estado da Orientação Pedagógica do então MEIC. Mas não transformou propriamente o papel do professor em mero “facilitador” das aprendizagens como tanto por aí se afirma, porque a massa de informação disponível tornou muito mais importante a função de ensinar a escolhê-la de forma crítica.

Tudo isto, à conta de umas disquetes que trazem memórias, muitas memórias, de quando as escolas eram efectivamente espaços de partilha e em que o convívio não tinha sido tingido por tantas nódoas, em especial as que nos foram trazidas por este século XXI.

Tele-Servidão

(…) hoje, encontramo-nos livres das máquinas da era industrial, que nos escravizavam e exploravam, mas os aparelhos digitais trazem com eles uma nova coação, uma nova escravatura. Exploram-nos em termos mais eficazes porque, dada a sua mobilidade, transformam qualquer lugar num ponto de trabalho e fazem de todo o tempo um tempo de trabalho. A liberdade da mobilidade paga-se por meio da coação fatal de termos de trabalhar em toda a parte. Na era das máquinas, o trabalho distinguia-se do não-trabalho pela imobilidade das máquinas. O local de trabalho, até ao qual tínhamos de nos deslocar, podia separar-se com facilidade dos espaços de não-trabalho. Na atualidade, em grande número de profissões, essa delimitação foi suprimida. O aparelho digital torna móvel o próprio trabalho. Cada um de nós leva consigo de um lado para o outro o posto de trabalho numa espécie de regime de campanha. Já não é possível escaparmos ao trabalho.

Os smartphones, que prometem mais liberdade, exercem sobre nós uma coação fatal – isto é, a coação de comunicar. Entretanto, a nossa relação com o aparelho digital torna-se quase obsessiva. compulsiva.

Byug-Chul Han, No Enxame – Reflexões sobre o Digital. Lisboa: 2016, p. 46.

A Escola Do Futuro (Isaac Asimov)

The Fun TheY Had (1951)

(…) Margie went to the schoolroom. It was right next to her bedroom, and the mechanical teacher was on and waiting for her. It was always on at the same time every day except for Saturday and Sunday, because her mother said little girls learned better if they learned at regular hours.
The screen was lit up, and it said: Today’s arithmetical lesson is on the addition of proper fractions. Please insert yesterday’s homework in the proper slot.
Margie did so with a sigh. She was thinking about the old schools they had when her grandfather’s grandfather was a boy. All the kids from the whole neighborhood came, laughing and shouting in the school yard, sitting together in the schoolroom, going home together at the end of the day. They learned the same things so they could help one another on the homework and talk about it.
And the teachers were people…
The mechanical teacher was flashing on the screen. When we add the fractions ½ and ¼ …

Margie was thinking about how the kids must have loved it in the old days.
She was thinking about the fun they had.

Ainda O Plano De Capacitação Digital Dos Docentes

Ficam aqui os modelos das acções de formação conforme o nível de “capacitação” dos docentes.

Um bónus, já agora:

Plano De Acção Para O Desenvolvimento Digital

A formação contínua vai fazer uma viragem da Flexibilidade e da Inclusão para a Digitalização. Até 7 de Janeiro os projectos de acções de formação têm de estar prontos para ser financiados.

O esquema geral é o que se segue:

O mais certo é que a partir deste questionário europeu, tenham de preencher em breve a versão nacional, para que possam ser posicionados e recrutados para formações de 50 horas. Eu fiz duas vezes, uma com as condições actuais resultantes da pandemia, que limitam a presença de turmas inteiras nas poucas salas devidamente equipadas nas escolas, e o facto de ter 5ºs anos com muito pouca literacia digital (o que limita as possibilidades de trabalho) e cheguei aos 63 pontos. Respondendo com o que consegui fazer em outros anos, nomeadamente quando tive 9ºs consegui chegar aos 68, porque é complicado responder que, com as condições existentes na maioria das nossas escolas não é muito sério afirmar que se recorre ou faz “sistematicamente” seja o que for.

Não deixa de ser interessante que o questionário ignore por completo a formação do docente ou a formação já feita na área.