Branqueamento

Foi instrutivo constatar que, da direita mais revanchista à esquerda mais progressista, houve logo que, conhecidos os traços gerais dos PISA 2015, tenha recuperado a figura de Maria de Lurdes Rodrigues como grande obreira do sucesso, acentuando como foi de 2006 para 2009 que se deram os maiores ganhos. O próprio ME prestou vassalagem (mas alguém no PS educacional terá vida se afrontar a herança rodriguista?) e depois, numa espécie de pirueta, atribuiu os ganhos alcançados ao pré-escolar de 2006, ignorando que a tendência vem desde 2006 e que ainda há poucos dias o seu secretário de Estado tinha spinado de forma completamente diferente os resultados dos TIMMS 2015.

A teoria, que na área política da geringonça começa a consolidar-se contra a memória que se quer trincar, é a mesma de há quase uma década: as políticas de MLR eram excelentes, apenas existiu um problema de comunicação com os professores. Ao que parece, em termos de resultados, essa teoria falhou. Quanto ao resto, já há quem na área da geringonça faça por apagar da memória colectiva o ECD de 2007 e a carreira dividida em titulares e não titulares, o modelo de gestão unipessoal de 2008 e o fim da democracia nas escolas, o encerramento de milhares de escolas no interior e a criação dos caixotes escolares, as aulas de substituição não pagas, a criação da PACC e de tantas outras coisas de que Crato lançou mão, pois já ali estavam preparadinhas. Mais grave do que isso, para não dizerem que sou apenas corporativo, há quem já apague o que foi a festa da Parque Escolar para empreiteiros e outros lenas, assim como os milhões enterrados em magalhães para a sucata. Milhões que foram desviados do capital humano das escolas para negociatas com contorno pouco claros e, no caso da Parque Escolar, para criar uma escola pública a duas ou três velocidades (a intervencionada de luxo, a intervencionada pela metade e o resto).

O branqueamento do mandato de MLR é a palavra de ordem para os adeptos da geringonça, como se a recusa da Direita passasse pela completa absolvição de todos os desmandos da papisa do PS educacional. Os seus prosélitos – e agentes de controle blogosférico como o ruisantos29 que aqui me aparece – atingem todas as áreas dos partidos que suportam o governo, sendo que em alguns casos é apenas mais um episódio numa longa carreira de entendimentos e pizzas ao luar, mas que em outros dá desgosto observar pela forma como voluntariamente se silenciam e colaboram com a mistificação do passado.

Sobre o que se passou com os PISA 2009, muito escrevi na altura e quase fiquei a falar sozinho com alguns jornalistas, a tentar perceber como a amostra teria sido cozinhada (nessa altura não se atribuíram responsabilidades a reformas com 10 anos, como agora fez o ministro Tiago, eram as reformas da véspera como o PAM de 2008 a ter efeitos logo). Só anos mais tarde, através do acesso aos dados de base foi possível perceber que algo realmente se passara de estranho e que o mais honesto seria recalcular os ganhos conseguidos, chegando-se assim a uma linha muito menos “sobressaltada”. As coisas foram feitas, estão divulgadas, mas a “honestidade” dos novos operacionais e aparaachicos da Situação não permite que a sua narrativa seja perturbada com factos e quem disser o contrário é laranjinha, Como parece que voltei a ser, de novo, Depois de ser esquerdista entre 2011 e 2015.

O estudo está aqui, como já antes divulguei por diversas vezes, e dificilmente se pode considerar que eu o esteja a citar por alguma razão de facção, mas apenas porque o conhecimento deve ser construído sem mistificações para aproveitamento político.

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3 thoughts on “Branqueamento

  1. No Observador andam um pouco confusos, principalmente o imparcial e lúcido Homem Cristo, depois de algumas dezenas de artigos a zurzir na escola pública, nomeadamente nos supostos maus professores que a ministram. Mais grave: insinuando num dos artigos que a questão de maus professores era resultado de determinismo social!
    O mais ridículo é a maneira como tratam a melhoria de resultados fazendo-os obra de ministros e não dos professores e dos alunos. É que a questão é exatamente outra, como vários já referiram, são estes resultados apesar de ministros tão miseráveis, particularmente MLR…

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    1. Exacto… andei uns minutos “numa rede social” a lamentar o quanto há gente a deixar-se arrastar para guerras político-partidárias e jogos de Direita/Esquerda, quando os professores deveriam exaltar os alunos, as escolas e a si mesmos, deixando de reagir apenas na base do cartão partidário.

      É uma tristreza.

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