Irmãos De Samuel – A História Importa

Passa uma semana sobre o assassinato de um professor de História francês (Samuel Paty), por ter mostrado aos seus alunos caricaturas de Maomé. Como comprador antigo de banda desenhada satírica francesa (sim, do Charlie Hebdo muito antes da fama pelas piores razões, da L’Echo des Savannes, da Fluide Glacial, porque cá é o que ainda se acha), consumidor assumido de cartoons que alguns consideram blasfemos e professor de História que recorre muitas vezes a este tipo de suporte para ilustrar episódios e fenómenos da História mais recente (e não só), sinto que a violência se exerceu sobre uma parte de mim, mesmo se de forma alguma me sinto no perigo que ameaça outros colegas, em outras paragens.

Há um par de dias, a Anabela Magalhães chamou-me a atenção para a importância de assinalarmos esta data com algum tipo de iniciativa, em especial com um grafismo evocativo que nasceu de uma muito breve sessão de brainstorming virtual. Quase tudo se deve a ela, embora quem se lembrar de uma bd produzida nos tempos do Umbigo possa reconhecer os pássaros como metáforas de professores, só que agora estão bem negros, num luto bem literal. Como professores, em particular de História e muito em especial com o gosto de usarmos o humor e fontes de todo o tipo para ilustrarmos as nossas aulas e transmitirmos aos alunos a percepção da diversidade das experiências humanas através do tempo, do espaço e das sociedades, sentimo-nos “irmãos do Samuel” porque, no fundo, apenas temos a sorte de viver num cantinho onde, apesar de nem sempre ser muito bem frequentado, nos sentimos em segurança para ensinar e, ao fazer isso, recorrer a materiais que pensamos não colocar a nossa vida em risco. E esperamos que assim aconteça, apesar de sabermos que a intolerância se espalha velozmente e o desprezo pela História e a sua menorização no currículo corre a par com a nem sempre assumida vontade de truncar a memória das gerações, para ser mais fácil dar-lhes uma versão asséptica ou monocromática – seja de que sentido for – do passado humano.

Pessoalmente, acho quase tão perigosos aqueles que fazem tudo pela calada e com um discurso sonso a favor da “diversidade” que desmentem na prática, quanto os que vozeiam por aí contra moinhos de vento ideológicos que existem apenas residualmente nas convicções mesmo dos que ainda parecem ortodoxos. Os tempos são de marca cinzenta ou de extremismos meio afantochados, sejam os da destra ou da sinistra. Os autocolantes na porta do gabinete da deputada joacine são para mim tão caricatos quanto o retorno às teses pré-científicas de algum conservadorismo cultural, pois dos dois lados apenas promovem uma mal disfarçada intolerância. Aquela que, no fundo, levou ao martírio do professor Samuel.

Por isso, fica aqui o apelo para quem aguentou ler isto, no sentido de escreverem também algo sobre o tema ou, pelo menos, divulgarem a imagem que a Anabela produziu para este dia. Para todos os dias.

A História Importa. A Memória importa. O Humor importa. Muito. Porque a Liberdade Importa.

14 thoughts on “Irmãos De Samuel – A História Importa

  1. Excelente texto, Paulo Guinote! Confesso-te, agora por aqui, que sinto dificuldades acrescidas em lidar com este facto – o bárbaro assassinato de um Professor que, no seu local de trabalho, exercia aquela que eu considero ser uma das mais nobres profissões criadas pelo Homem e que é a que nós também exercemos. Abrir janelas e portas mentais, é preciso, sempre foi preciso, sempre continuará a ser preciso. Nós, de História, sabemos bem que as trevas podem estar sempre ao virar da esquina.
    E vou levar comigo a tua reflexão.

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  2. Antes de encontrar aqui a ilustração, já a vira, ontem, já não sei onde, uma qualquer rede social e me perguntara quem se dera ao jeito e trabalho de fazer algo assim, que , por cá, não é nada habitual. Fico muito contente por ser gente desta casa. E não me bata, Paulo, pois cheguei a pensar que fosse algo da APH ( eu não sou de História), e atendendo ao que aquela casa gasta, achei que estavam muito atentos, dinâmicos, críticos e pertinentes. Afinal, havia outros! Parabéns.

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  3. Texto muito bom, muito pertinente, como é habitual. Parece – me que devia ter mais divulgação. Tudo o que for feito é pouco para o ato bárbaro a que assistimos, para tudo o que ele significa. O último parágrafo do texto é todo um manifesto. A liberdade, o pensamento livre é a condição de todo o saber, de toda a ciência, de toda a filosofia. A História mostra como todas as conquistas são frágeis e que tudo o que foi conseguido com dor é sofrimento pode ser facilmente apagado pela geração seguinte. A memória importa, mas isso implica uma sociedade em que as pessoas desenvolvam uma consciência de si como consciência histórica e um sentido de identidade numa história comum onde reconheçam o devir da humanidade, o seu próprio devir. E quem está interessado nisso? Mas a escola ainda é um espaço de conhecimento e de liberdade. A escola pública, a escola laica, a escola como lugar de uma aprendizagem comum, ainda é insubstituível. Está fragilizada, sim. O currículo não está consentâneo com as grandes finalidades do ensino que aparecem agora no dito Perfil dos Alunos. Sinal disso, como tem dito o Paulo, é a menorizaço da História e da Filosofia. O reconhecimento da escola pela sociedade é também desigual, tendo-se tornado cada vez mais para os pais, ou o lugar seguro onde se deixam os filhos enquanto se enfrentam horários excessivos e desregulados de trabalho, ou um sitio onde se vão buscar certificados e diplomas com as classificações conseguidas pelos explicadores pagos à hora.
    O assassinato de um professor, um nosso igual, pelo desempenho da mais nobre função que a escola pode ter, a de ensinar a pensar criticamente, a de ensinar o valor da liberdade, a de ensinar a ser homem e cidadão, é uma brutalidade sem nome que simbolicamente é um atentado à escola e a tudo o que ela representa. Obrigada, Paulo, pelo que escreve, pela sua atitude que nos dignifica a todos.

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  4. Confesso que me custa escrever o que me vai no pensamento, perante tamanha crueldade do ato e a tristeza por aquele professor que, como já foi aqui dito, ensinava o valor da liberdade. Agradeço-te Paulo o não deixares apagar a voz deste professor.

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  5. Anabela, divulgarei nas minhas aulas a imagem. Não sou de História, mas há valores que são universais. Já tinha falado em algumas turmas sobre esta crueldade. Obrigada a ambos.

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  6. Diariamente me interrogava para quando a homenagem neste blogue a um colega que tombou no exercício do que é o cerne da nossa profissão:alargar os horizontes dos nossos alunos, pô-los a pensar, a debater, a questionar, enfim, ajudá-los a crescer no respeito pelos valores que norteiam as sociedades democráticas. E, no centro desses valores, o da liberdade.
    No dia a dia, no trabalho com os nossos alunos, honremos a memória do colega Samuel.
    Sinceros agradecimentos aos autores de tão belo desenho e texto,

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  7. Parabéns pelo texto!
    Talvez seja mais eficaz (para lutar contra as forças que se opõem à liberdade de expressão) divulgar as imagens originais do Charlie Hebdo que este professor mostrou aos seus alunos. Um pouco como o pegar no estandarte de alguém que caiu no campo de batalha.
    Escolhi a que está no link seguinte (mesmo não sabendo se foi usada por Samuel Paty)
    https://images.app.goo.gl/16YUfBn74FnggNYj8

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