Domingo

O despacho 6605-A/2021 é o elemento final (ou quase) do trabalho de “reconfiguração” da Escola Pública como Escola Mínima, depois de mais de uma década a transformá-la em Escola Low Cost. E Escola Mínima é aquela em que as aprendizagens disciplinares são secundarizadas em favor de uma competências transversais, de avaliação altamente subjectiva e cuja implementação se traduz numa fragmentação curricular dos conteúdos. Os saberes académicos são desvalorizados como “tradicionais” e resultantes de uma ilusão de saber global, sendo substituídos por conhecimentos mais ou menos utilitários, circunstanciais e locais. Como ouvi recentemente a uma orgulhosa liderança de uma escola que é “piloto” nesta lógica, “as aprendizagens disciplinares não são importantes”, porque o que interessa é que o aluno circule entre saberes transversais, resultantes das dimensões do canónico “Perfil”. Isto é apresentado como “moderno”, como “flexível” e adaptado a um século XXI que até agora não tem corrido nada conforme previam alguns visionários que tentam encaixar a realidade às suas caixas mentais desenvolvidas no final do século XX.

Esta Escola Pública Mínima não vai ser democrática, porque vai promover uma fuga ainda maior de alunos cujas famílias tenham alguns meios para isso para a rede privada. Vai ser inclusiva na retórica, mas apenas porque pretende nivelar pelos padrões menos exigentes e rigorosos; na prática, quem nela ficar terá como horizonte de conhecimentos aquilo que se define apenas como “essencial”. O que deveria ser tido como mínimo torna-se o padrão a alcançar. Claro que haverá excepções, porque continuarão a existir escolas que, em meios mais afortunados e exigentes, não cederão a esta tendência ou demorarão mais tempo a ser submersas por esta onda, que se sucede a várias outras, no sentido de uma desqualificação da Escola Pública como instituição destinada a transmitir os elementos fundamentais (diferente de “essenciais”) da Cultura e da Ciência que a Humanidade conseguiu erguer ao longo da sua História. A Escola Mínima privilegia os saberes meramente funcionais, úteis ao precariado, simulando uma certificação formal que o mercado de trabalho qualificado não reconhecerá. A Escola Mínima nunca poderá ser um “elevador social”, porque abdicou em definitivo de elevar, preferindo nivelar por baixo.

Neste despacho, pratica-se a adulteração da linguagem, enunciando-se conceitos e princípios que são esvaziados pelas práticas decorrentes do que é decretado. Não é honesto afirmar que “todos os alunos devem, ao longo dos seus 12 anos de escolaridade, desenvolver uma cultura científica e artística de base humanista, alicerçada em múltiplas literacias, no raciocínio e na resolução de problemas, no pensamento crítico e criativo, entre outras dimensões” se isso não tem qualquer verdadeira tradução num modelo de escola em que a compreensão do teorema de Pitágoras equivale a saber atravessar na passadeira ou em que a aprendizagem da tabela periódica equivale a saber o que é o “espírito do empreendedorismo”. E nem vale a pena falar de uma Filosofia reduzida a exames de escolha múltipla ou a uma História semestralizada em fatias polvilhadas de tópicos.

Por isso, os cursos de formação inicial de professores se baseiam cada vez mais num elenco de generalidades, estando praticamente ausente uma formação de tipo disciplinar/científico que vá além da leitura de uma qualquer enciclopédia temática para jovens. Para ensinar pouco ou nada, nada ou pouco é preciso saber. Muito menos qualquer tipo de pensamento crítico consistente, porque uma coisa é o exercício de uma crítica fundamentada e baseada em argumentos e outra a mera contestação da “autoridade” académica dos professores e conhecimentos.

Este despacho, se tivesse sido escrito por um grupo de trabalho criado pelos interesses privados na Educação, dificilmente seria diferente.

11 thoughts on “Domingo

  1. Outra falácia desta escola mínima é a ideia de que se deve atender aos interesses dos alunos.

    Estou grata pelo trabalho de todos aqueles professores que me abriram portas para novos interesses, ao mesmo tempo que me forneceram instrumentos para caminhar autonomamente na descoberta deste mundo fascinante.

    Claro que errei, muitas vezes, mas aprendi a errar melhor, isto é, a evitar erros básicos. Por outro lado, perante a força dos argumentos, nunca tive qualquer dúvida em reconhecer o erro. A humildade intelectual deve acompanhar os que aprendem a valorizar o conhecimento.

    Concordo com a perspetiva de que se assistirá a uma aceleração da fuga da escola pública, depois da procura das escolas inflacionistas, privadas ou públicas, começará a procura, que já existe, pela qualidade. Mas este desejo será apenas reservado a alguns, muitos não perceberão a sua urgência.

    Toda a escola que desprezar o conhecimento será qualquer coisa, mas não uma escola. Parece que se pretende a obediência em detrimento do contraditório, saúdavel, desejável, apesar de nem sempre fácil de aceitar.

    Quem tem medo das palavras? Quem tem medo da reflexão?
    Quem tem medo de mergulhar na profundidade do conhecimento e das palavras?
    Quem tem medo da avaliação?

    O problema não é o digital, todos os tempos são compostos de mudança, é a massa crítica que exige a complexidade das sociedades atuais e quanto a essa, parece que estamos conversados… A ideologia não é o melhor território para o debate!

    Gostar

    1. Esta cáfila quer todas as escolas como
      o ribadouro… mas disfarçadas.
      A suposta penalização da diretora do ribadouro é para camuflar o que estão a fazer à escola pública. Destruí-la.
      Destruíram a democracia e agora destroem o ensino.
      Os políticos não querem cidadãos formados e informados, que são exigentes, querem seres amorfos e manipuláveis.

      Gostar

  2. Estes senhores estão a tornar a nossa escola pública na escola pública brasileira.
    Uma bandalheira ,um desastre, uma farsa.

    Tanto socialismo e depois dá nisto. Promoção de colégios privados com exigência de alto nível, para que a elevação social seja realidade.

    Onde estão as associações e sindicatos? Hum?

    Gostar

  3. O grupo de trabalho que refere no último parágrafo teria a prestimosa colaboração da OCDE que abriu as tarefas de terraplanagem com esta “TINA” para o sector da educação.

    Gostar

  4. Interesses privados?
    Onde estão os sindicatos?

    São políticas da esquerda geringonça!

    É a escola socialista!

    Não fujam com o rabinho à seringa inventando desculpas esfarrapadas.

    Gostar

    1. Nunca lhe disseram que é um imbecil? Do mesmo que, como explica à saciedade o Guinote, esta auto-intitulada escola inclusiva não promove realmente a inclusão, também este governo dito de esquerda não é de esquerda. Mas é imbecil explicar a um imbecil, pois só se não fosse imbecil é que teria capacidade para identificar a sua imbecilidade.

      Gostar

  5. Isto é tão triste. Mais triste é ver tanto professor a alinhar nisto. O que interessa é o folclore, a piroseira…não vêem que os diamantes são eternos.
    A escola precisa de se centrar no saber num mundo cada vez mais superficial. Só com conhecimento sólido se desmontam falácias e se define um caminho.
    Nunca vi tanto miúdo mimado com boas notas desistir de cursos, mudar e saltar como serpentes a largar a pele.
    Politicos, sindicatos não estão lá para estar atentos. Apenas fazem pendant com “o que está a dar”, sejam de esquerda ou de direita…se é que sabem o que isso significa.

    Liked by 1 person

  6. Na minha escola, este ano, as disciplinas que não são objeto de exame nacional distribuíram notas entre o 13 (um par delas) e o 20.

    Um aluno que é incapaz de construir uma frase em inglês teve 15. Quem foi o único a destoar? Aqui o «je» e a colega de História. Para que necessitamos de um ME quando são os próprios professores e escolas/agrupamentos a agirem assim?

    Gostar

  7. Olá Rui.

    Li com atenção o texto do Paulo Guinote. Se tiver tempo ainda vou ver o que publicou hoje sobre as aprendizagens essenciais.

    De facto tem toda a razão quando fala em aprendizagens disciplinares secundarizadas em vez de um conhecimento transversal. Não interessa ensinar por exemplo, como o barco é capaz de flutuar, interessa é saber que serve para transportar pessoas ou mercadorias pois quem quiser saber mais vá ao Dr Google que ele responde.

    Esta situação, acompanhada pelo aumento cada vez maior da utilização do ensino à distância, vai levar a uma aquisição cada vez menor de conhecimentos e daí, não ser de estranhar, por exemplo, que os prédios começam a cair. Provavelmente vamos ter engenheiros civis que tiraram o curso via Tems ou até, os médicos que vão sair este ano da faculdade, tiveram aulas práticas naqueles jogos do corpo humano.

    Aprende-se realmente o essencial e não se aprofunda e isso sim, é transversal a todas as disciplinas.

    Esta frase “Os saberes académicos são desvalorizados como “tradicionais” e resultantes de uma ilusão de saber global…” é o que os alunos estão a ter ao longo do percurso escolar, com especial incidência nos cursos superiores de via ensino. Lembro-me muitas vezes de questionar nas aulas de didática, como era possível o aluno saber o conteúdo, fazendo trabalhos em cartolina, visualizando apenas filmes ou fazendo jogos. Foi isto que se vendeu na faculdade. E qual a preparação que isto dá para quem vai fazer exame nacional?

    Atualmente não deve ser muito diferente. É a competência do saber fazer….

    Por último, continua a ser triste este estigma em relação ao privado e aos professores do mesmo. Para eles, somos uns beneficiados.

    Abraço

    Gostar

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.