Razões Aceitáveis E Não Aceitáveis Para (Não) Fazer Greve, Escrito Por Um Praticante Pouco Assíduo

Não sou daqueles “lutadores” a 120% em tudo o que é manif, greve, petição, vigília ou abaixo assinado. Os meus pecadilhos na Educação não me obrigam a penitências públicas de vela na mão e não assino nada só porque sim, porque fica bem dar a aparência de movimento.

Logo… quando faço greve é mesmo porque estou convicto da necessidade de dar um sinal de que algo está mal e que a opinião pública não fique a pensar apenas que, como a SIC passava em rodapé depois das 9, que tudo isto se resume à questão doa aumentos salariais. Que são importantes, perante a perda do poder de compra, mas não são a única razão. Até porque isso pode esconder a incompetência daqueles que podiam ter evitado ou prevenido muita coisa, mas preferiram continuar as políticas de “racionalização” d@s antecessor@s, sem qualquer reversão vagamente digna desse nome. O que Lurdes Rodrigues deixou e Crato agravou, o Tiago não soube (ou sequer quis) reverter e muito menos o actual ministro que já mais gente percebe não ser o que ele se esforçava por parece, enquanto secretário.

Dito isto, aceito como boas as razões para não fazer greve que resultem da indiferença de muita gente perante algumas causas, porque estão de novo na função, porque estão demasiado precários, porque consideram que as suas agruras são outras, mesmo se isso é não acautelar o futuro. E aceito, por maioria de razão, quem já desanimou disto, quem já fez muitas greves, quem já teve frustrada a esperança em demasiados momentos e acha que esta greve na da mudará, de essencial ou mesmo de acessório, excepto alargar a folga orçamental do ME.

Já tenho mais dificuldade em aceitar as justificações do tupo “ahhhh…. coitados dos alunos que ficam sem aulas”, “o nosso dever é para com os alunos”, “isto até não está assim tão mau vejam lá os desempregados…” ou “eu não faço porque x, y ou z não faz e depois ganha o mesmo ou mais do que eu” ou ainda “nem sei quem vai fazer greve na minha escola”. Isto não esgota o lote das tretas que nunca usei quando assumi não fazer greve.

Repito o que já escrevi: não acredito muito nos efeitos desta greve, em contexto de maioria absoluta e com uma oposição débil e fragmentada, excepto a parte dos “novos sindicalistas” do Chega que ainda não vi fazer nada. Nem de propósito, o ministro faz hoje publicar no Negócios uma entrevista em que anuncia dinheiros e dá a sensação de tudo estar a decorrer com normalidade. Claro que é daquelas entrevistas que só ao de leve têm alguma aspereza, pois o ministro e o seu aparelho fazem uma espécie de filtragem prévia aos incómodos que lhe podem aparecer. E não digam que não o fizeram desta vez. Pena é que muita gente tenha medo de, perante poderes absolutos, exercitar verdadeiramente o quarto poder. Porque há quem depois julgue que pode atropelar todas as críticas, falsear os factos e criar um mundinho de sonsa realidade alternativa.

Em grande parte é contra essa sonsa realidade alternativa que faço greve e sinto muito pouca simpatia pelas desculpas sonsas para não a fazer. Se não acreditam na greve e discordam de ela só fazer sentido se produzir algum (de preferência muito) incómodo, digam-no, não se escondam atrás de m€rdinh@s, desculpem, tretas.

18 opiniões sobre “Razões Aceitáveis E Não Aceitáveis Para (Não) Fazer Greve, Escrito Por Um Praticante Pouco Assíduo

  1. Estou em greve. Tenho estado a acompanhar pela sicn, rtp3 e cnn os resultados da greve e fiquei surpreendido pela grande adesão da greve.
    No entanto noto que em termos de estratégia comunicacional os dirigentes sindicais deveriam frequentar uma acção de formação ou contratar uma empresa de comunicação. Temos de utilizar a estratégia de que fazemos uma greve ” pela qualidade do ensino publico” desmascarando o crescente facilitismo da escola pública e denunciando as MAIAS desvairadas. Mostrar aos portugueses que a escola publica, cada vez mais, vende gato por lebre.

    Assim ganharíamos mais apoio

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  2. Estou satisfeito com as condições em que está o ensino em Portugal e que tenho para desempenhar as funções docentes. Discordo mas aceito e era o que eu esperava ouvir de quem não faz greve. Os argumentos que usam, e todos conhecemos, são do mais miserável que conheço. E não têm vergonha!

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  3. Os Professores que não fizeram greve também não terão aumentos de vencimento?

    A pergunta faz todo sentido.
    Por vários motivos.

    A tese de que os professores funcionam como uma corporação é uma falácia inventada por narrativas maldosas. Não haverá classe profissional com formações tão diferentes como a dos Professores. No entanto independente destas diferenças é notória a existência nas escolas de dois grandes grupos.

    Um primeiro grupo que se sente integrado no costismo educativo desde 2015 particularmente desde 2018, ano da saída dos principais normativos. Todo o tempo é pensado para uma nova DAC, ou uma rubrica mai(os)a e ainda uma nova articulação com Cidadania e Desenvolvimento. Consideram que os alunos têm de passar todos, pois assim fazem parte de uma “escola de sucesso” e de um ministério da Educação de excelência. Alguns dizem mesmo “graças a Deus que temos emprego”. Não gostam de exames e tudo fazem para ter níveis/disciplinas onde não haja exames. Estão satisfeitos nas escolas. Não fazem greve por que lhes faz falta o dinheiro, 50 euros (aos outros não) mas, num horizonte de poucos anos, por faltas de comparência consecutivas nos momentos de reivindicação, não se importaram de perder 10.000 euros com os roubos de tempo de serviço e com as quotas dos bloqueios à progressão.

    Num outro grupo estão os professores que recordam aquela que não sabe, nem quer saber como chegámos aqui (apesar de ser a principal responsável), recordam também a que sabia que os alunos deveriam dormir oito horas, depois passaram pela fase do “fazer mais com menos” (enquanto o próprio se abotoa com 20 milhões para um tal de projeto iniciativa educação), a seguir… nulo e agora a sonsice de língua malabarista. Não suportam a “maia da colmeia” nem esta inc(i)lusão que vai ser uma tragédia nacional a médio e longo prazo. São apelidados erradamente de velhos… do Restelo, mas sabem que os novos pregadores da doutrina da boa nova educativa não são navegadores nenhuns, nem ao Tejo chegariam, apenas chafurdam no rio Trancão (de antes da expo). Recuperaram velhas teorias de mais de 40 anos e ainda personagens do grupo bostoniano (como o paizinho do maia) que já deveriam ter sido chamados a prestar contas pelo que fizeram à educação do País. Quando há verdeiros problemas a resolver nas escolas são os Professores deste grupo que são chamados a resolver. Assumem qualquer nível e não têm medo de exames. Estão contra as políticas educativas, os roubos de tempo de serviço e as perdas salariais. Fazem greve.

    A questão que se põe é se os professores do segundo grupo (com muitos euros perdidos devido a greves) devem agredir, com as suas conquistas laborais, os professores do primeiro grupo que se encontram satisfeitos com as políticas educativas e as suas condições de trabalho. Parece-me óbvio que não. Os professores satisfeitos e colaboracionistas não deverão ser perturbados nas suas rubricas da colmeia e projetos com assuntos para os quais nunca demonstraram vontade de contrariar e alterar.

    Assim estes dois grupos deveriam ter contratos de trabalho distintos: um contrato de trabalho para o “satisfeito colaboracionista” sem aumentos salariais e o contrato de trabalho para os que estão “contra as atuais políticas e educativas e laborais” com os resultados das ações de reivindicação.

    Esta questão não é nova. Pois esta diferenciação de professores existe já no ensino artístico onde o Professor que é sindicalizado numa dada federação sindical tem um determinado contrato coletivo de trabalho, mas o professor que é sindicalizado na outra tem já clausulas muito diferentes.

    Alarguemos então esta questão dos contratos de trabalho.

    Os cofres do estado também agradecem, pois assim em vez de terem de aumentar todos os professores, aumentam apenas os do contrato de trabalho que estão “contra as atuais políticas educativas e laborais”.

    É só vantagens.

    Fica a ideia.

    Sr. Professor Zé

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  4. Eu assumo que não faço mais greves e já expliquei aqui porquê, mas posso sintetizar de novo. Em 2000 e qualquer coisa, na greve às avaliações, fiz a todos os CT, vi voar quase um milhar de euros e defendia a realização da dita sem termo. Quando chegámos a julho e se aproximaram as férias, os sindicatos disseram que já chegava e os meus colegas já tinham perdido muito dinheiro e já tinham avião marcado. Fiz greve à última reunião realizada no meu agrupamento.

    Findo tudo, disse: nunca mais volto a fazer greve ou a participar em manifestações ou o que quer que seja.

    Não foi nada de novo, porque muito já tinha acontecido nos e depois dos tempos da re(i)to-ra do mesmo género ou pior. A minha desilusão não é com os políticos, mas com quem está no meu lado da barricada e conheço há 15, 20 ou mais anos.

    Chega, como diria o Ventura nos dias em que lhe convém.

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    1. Pois concordo consigo… até certo ponto. Isto é desiludido com quem está do mesmo lado da barricada, você incluído. “Como há quase 10% de “chegas”, não voto mais.” Este é o seu argumento. Ridículo. Não consegue melhor????

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      1. Se me permite, ridícula é a sua analogia, por várias razões, como é evidente.

        Nem sequer é argumento ou deixa de ser, é uma questão de se manter o trajeto, de não se ser bailarina, ou o que for.

        Decidi nessa época que não mais faria, expliquei a quem entendi explicar e mantenho a «jura», porque não há nenhuma razão (das que me fizeram adotar esta posição) para voltar atrás.

        Quando quiserem ir para uma luta a sério, avisem; até lá, não pico mais pontos.

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        1. Afinal, “nunca mais” ou só quando “for a sério”???
          (Também já ouvi, múltiplas vezes esse “argumento “)
          E quem decide quando é “a sério”? Deve ser vossa excelência!
          Triste coerência. Tristes professores. Miserável “classe”.

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          1. Estas greves, segundo estes princípios e esquemas, nunca mais. Está dito e redito várias vezes aqui.

            Quem decide o que é «a sério» sou obviamente eu, a excelência, e tal significa um «movimento» ou «momento» que faça ruir esta trampa. Ou a sua decisão de agir não é tomada por si, mesmo que não excelência?

            Coerente é pensar pela própria cabeça e agir em conformidade com o que se pensa, defende e rumo que se traçou. Ou o que se seguiu a 2008 e por aí fora foi coerente da parte de políticos, sindicatos e professores? Cansei-me de manadas prenhes de rezes tresmalhadas e/ou comedoras de pizzas.

            A classe nunca foi classe nenhuma, pelo que também não sou eu quem vai estragar a ausência da dita.

            Paulo Guinote: «Se não acreditam na greve e discordam de ela só fazer sentido se produzir algum (de preferência muito) incómodo, digam-no, não se escondam atrás de m€rdinh@s, desculpem, tretas.» Foi exatamente isto que fiz.»

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  5. Quem resumir esta greve a questões salariais deverá andar muito longe do que se sentem os professores.

    Há uns anos atrás, os professores uniram-se pela partilha de um sentimento comum, “estamos fartos!”.
    O número de aposentações e os atestados médicos deveriam dizer alguma coisa aos personagens que percorrem os corredores do poder ou aos que facilmente encontram vias rápidas de comunicação.

    A escola vive hoje num limbo em que se torna muito difícil perceber onde começa a realidade e termina a fantasia pedagógica.

    Os números da greve que têm sido transmitidos pela imprensa são pesados, resta saber se a tutela e o senhor Primeiro Ministro irão esconder-se sob o escudo da sua maioria absoluta (são todas iguais e perigosas para a democracia, venham de onde vierem).

    Quanto a grevistas e não grevistas, como ainda vivemos em democracia, respeito a decisão de cada um. É para mim uma questão de princípio; quanto a desculpas para não fazer greve, não percebo a necessidade, pela minha parte, dispenso-as.

    Os números das escolas fechadas poderão, eventualmente, ser um bálsamo para todos aqueles que partilharam a vontade de dizer BASTA, apesar de perderem dinheiro num tempo de inflação ELEVADÍSSIMA, mesmo suspeitando da “capacidade auditiva” do poder!

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  6. “Enfermeiros marcam quatro dias de greve só este mês”. In Público
    …os professores até para, não fazerem, um dia arranjam desculpas intelectualmente miseráveis!!! Querem o quê? Têm o que merecem, a falta de respeito de todos e salários abaixo do Mercadona.

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  7. Eu grevo!
    E grevei às avaliações por tempo indeterminado perdendo muitos euros, mas grevo outra vez porque:
    .estou farto de maias, pseudoinclusões e flexibilidades sem base de sustentação teórica decente e sem conhecimento experiente das condições no terreno por visarem apenas sustentar clientelas que conduzem à putrefacção do que resta do ensino e comprometem gravemente o futuro do país;
    .grevo porque me roubaram mais de 6 anos congelando a carreira;
    .grevo porque considero atentatórios da democracia os sistemas de gestão primitivos e totalitários, bem como os sofisticados efabulatórios:
    .grevo porque tenho turmas de 30 alunos a asfixiar numa sala de aula;
    .grevo porque sou incomodado pela má educação diária;
    .grevo porque até de noite e ao fim de semana recebo emails de serviço:
    .grevo porque estou farto de burocracia;
    .grevo por causa do perigo da digitalização excessiva;
    .grevo porque sou altamente qualificado, mas aufiro e sou tratado como desqualificicado;
    .grevo pela sonsice manipuladora tutelar;
    .grevo pela gestão imediatista mediática de um país;
    .grevo porque crescem os extremos;
    .grevo porque estou farto de ver vegetais à minha volta;
    .grevo porque os líquenes não o fazem;
    .grevo porque ainda estou vivo, apesar de exausto e denegrido por políticos manhosos;
    .Grevo, ponto.
    Greva tu também, se fores humanóide, claro!

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  8. Contem comigo quando for para lutar a sério.

    Fingir que se luta, convocando 1 diazinho de greve, já não dou para esse peditório de “guerrilha” sindical antiquada. Amanhã tudo estará igual, eventualmente pior. Identifiquem-me uma coisinha só que seja que tenha sido conseguida desde os tempos do Sócrates com este tipo de organização da “luta”…

    Enquanto continuar assim, eu entro numa dimensão alternativa que é: greve à greve.

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  9. Mesmo pensando que a greve não tem impacto, também se greva quando a vontade de trabalhar é tanta, que se está disposto a pagar para não trabalhar. O que, se calhar, diz muito sobre a satisfação que se sente em ser professor nos nossos dias…

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