A Estúpida da Minha Mãe nem me Viu

Seguido de “agora está lá em baixo a dar a volta ao carro, é mesmo parva”. Foi assim que há uns meses um pimpolho com uns 13 anos mimoseava a sua progenitora (e certamente mentora do seu penteado à moda com o cabelo assim à phosga-se) à porta da sua escola, a mesma que ontem estava nos noticiários da noite por causa de agressões entre raparigas dessa escola e de uma outra da zona, a mesma escola onde anda a minha petiza, já não tanto petiza quanto isso. Não sei se o pubescente tinha razão, não me compete, apenas acho que poderia ter uma certa noção da falta de oportunidade e da necessidade de um mínimo de decoro filial. Mas dava a sensação de ganhar créditos com os pares por ser assim, portanto, descarrega na velha mesmo se não é velha, muito menos na opinião dela, bem jeitosa que se vê ao espelho.

Este tipo de linguagem é o pão nosso de todos os dias à porta das escolas, em especial das Secundárias quando eles e elas já pensam que o desenvolvimento púbico deve ser público e pouco púdico, daí um extenso recorrer ao vernáculo por qualquer razão e mais alguma que lhes ocorra, desde que se mande alguém subir ao carvalho e ir-se amar a si mesmo, no caso de não se preferir acusar a ascendência alheia de diversos hábitos ainda tidos por social e sexualmente menos aceitáveis. Foi sempre assim? É possível, mas eu ainda acredito na evolução e não apenas biológica. A genética dos costumes também poderia aprimorar-se.

A escola segura não se ocupa com estas coisas, muito menos em escolas não consideradas de risco e quem, do lado de dentro, poderia dar uma ajuda na contenção da coisa, acha que não lhe pagam para isso. Talvez tenham razão, mas a verdade é que as consequências são deprimentes para quem observa ou fenómeno ou ouve. Tirando aqueles que acham que tudo isto é natural e é da idade.

Acho bem que se façam leis com áreas de restrição de fumadores junto aos portões das escolas. Mas, a bem dizer, a poluição mais grave para diversos sentidos nem sequer é essa, mesmo se há aqueles que ficam quase com uma perna dentro e outra fora a tirar umas fumaças em escolas em que até pode ser o funcionário de serviço a fornecer o isqueiro. Os maiores agentes poluentes nem sempre são o fumo e a cinza dos cigarros, mas sim os decibéis de porcaria saída da boca a um ritmo alucinante, capaz de fazer um buraco negro, mas às avessas, que escurece tudo ao redor com a alarvidade.

Se estou a ficar velho? É verdade, mas parece que (infelizmente?) ainda não preciso daqueles zingarelhos que anunciam antes das duas da tarde em alguns canais ditos noticiosos, quando um tipo almoça e só vê vender banha da cobra e cálcio às palettes a 29,90€ a peça.

maeduca

Anúncios

4 thoughts on “A Estúpida da Minha Mãe nem me Viu

  1. Muitos desses miúdos, na maioria de cursos CEF e profissionais , encontram-se num território sócio-identitário que é uma terra de ninguém. Filhos de pessoas com pouca escolarização, em situação de extrema pobreza cultural de pobreza, e com dificuldades económicas no quotidiano, nem trabalham, nem estudam, aguardam o décimo oitavo aniversário, sem qualquer orientação ou perpectiva de futuro. São o resultado acabado da transformação da escola pública numa escola para pobrezinhos-coitadinhos.

  2. RF, e isso desculpa alguma coisa? Quando a maioria da população era analfabeta, jovens e crianças eram tão mal educad@s como o são hoje em dia? Quando se andava pelas ruas éramos constantemente agredid@s pelos “decibéis de porcaria saída da boca a um ritmo alucinante”, como bem diz PG? Respeito, isto é que faz muita falta a muita gente e quanto mais nova é a geração parental, pior ainda! O que falhou ou está a falhar na nossa sociedade ou, por que não, no binómio educação/escola/educação? E, infelizmente, este “fenómeno” é transversal à nossa sociedade, não se verifica só com os “pobrezinhos-coitadinhos”…

  3. Nem normalmente é.
    Pela necessidade de ir à escola, em virtude de acompanhar os meus filhos, de reuniões com o/a Director(a) de Turma ou para tratar de assuntos administrativos, passei por lá durante anos. E vi e ouvi muito do que aqui foi descrito. Não obstante não ser um espaço onde me coubesse responsabilidade formal, se algum ou alguma dessas crianças se “descuidava” na minha presença e eu conhecia-a (ou aos pais), claro que a admoestava verbalmente. E, posso atestar que na maioria dos casos, os abusos faziam jus ao ditado “no melhor pano…”. Aliás, noutro nível de experiência, a Catequese, os pais com maiores dificuldades económicas, algumas famílias de africanos sem a presença do pai, a exigência de respeito e contenção verbal era mesmo ponto de honra.
    Creio que um modelo escolar assente numa excessiva neutralidade axiológica pode ser a causa disto tudo. Mas não quero ir por aí porque o tema proposto é outro.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s