Deixa-me Ver se Percebo Bem Isto

O senhor SE só teve conhecimento das condições (ou falta delas) das escolas do 1º ciclo para o desenvolvimento de actividades de Educação Física na sequência da preparação da prova de aferição do 2º ano?

A sério? É mesmo assim? Desconhecia? Ninguém o informou? Não visitou, não viu, não ouviu? As associações de professores de EF não lhe tinham dito nada? Prepararam a prova sem saber se existiam condições mesmo? Os relatórios das AEC não contemplam esse tipo de dados e limitam-se a dizer que correu tudo bem?

Há um momento em que é necessário levar isto um pouquito a sério, porque quem conhece a realidade do nosso parque escolar (não confundir com a a PE da “festa” da outra senhora de que estes não conseguem descolar) sabe perfeitamente que temos, mesmo com a criação dos mega-agrupamentos e dos “caixotes escolares” para centenas de miúdos do 1º ciclo, condições muito más para a prática do desporto em centenas de escolas e não falo apenas do 1º ciclo.

Que uma prova tenha sido criada sem uma análise prévia das condições para a realizar e agora se queira sacudir a água do capote, culpando o passado de que fizeram parte ou durante o qual nunca abriram a boca contra a forma como as AEC se têm desenvolvido é algo típico de quem quer “empurrar” os problemas para os outros.

Não deixa de ser caricato que se afirme que “as provas de aferição, que se realizam pela primeira vez em maio e nas quais vão participar 90 mil alunos do 2º ano, permite identificar e corrigir essas falhas”. Mas então as provas preparam-se assim? Quem as preparou (ou as criou) não se preocupou em analisar em devido tempo as condições existentes, por forma a desenvolver este processo com princípio, meio e fim? Eu sei que há grupos e associações de professores que só se lembram do pré e do 1º ciclo quando se trata de “colher” alguma coisa, mas o ME tem dados bastante actualizados sobre as escolas e se não os tem é porque não se preocupa em os sistematizar.

Mas, para além isso, as condições físicas das escolas do 1º ciclo não são responsabilidade das autarquias há muitos, muitos anos, autarquias para as quais querem transferir a gestão de todo o parque escolar? Mas então temos andado a brincar exactamente ao quê ao longo deste tempo, a discutir transferências de competências para as câmaras e depois aparece um governante e o seu séquito ocasional a apontar o dedo aos directores das escolas como se fossem eles que decidem as obras e desbloqueiam verbas para as fazer?

(claro que há gente de barriga cheia a falar de cátedra sobre isto, enquanto há gajos como eu que só conseguem ver que nos últimos 20 anos só em 2 estive em escolas com pavilhão em condições no perímetro escolar… mas isso não interessa… só sei ver o meu quintal… sou má língua… não aderi à pós-verdade…)

Eu percebo que exista quem defenda à outrance e sem olhar a meios as políticas actuais e encontre virtudes em tudo o que num país normal seriam defeitos. Até percebo que se defendam provas no 2º ano com imenso formalismo, quando antes se criticavam provas no 4º ano, a que se chamavam “exames” para diabolizar. Até percebo que há quem diga que tudo isto está a ser muito bem feito, porque é a forma de não admitir que se anda a acelerar um processo que deveria ser conduzido com a devida precaução, porque se quer “obra feita” em tempo recorde para apresentar a tempo de eleições. Até percebo que se queria dar a entender que isto está mal porque antes não se fez bem (com a “coragem” habitual de apontar o dedo de forma selectiva aos responsáveis anteriores, esquecendo quem gastou dezenas de milhões num par de escolas em concelhos onde há depois outras sem um piso ou tecto capaz para a Educação Física, porque há falta de tintinsspirous para afrontar as vacas sagradas do regime).

Não posso é aceitar que queiram que todos os outros dêem a patinha, façam béu-béu e não vejam o spin encomendado em toda a sua transparência. Porque a “Verdade” é outra. Imaginemos que eram outros a legislar uma prova sem qualquer aparente preparação prévia… quantas vestais, nogueiras e mortáguas apareceriam a romper vestes e, quiçá, a falar de fascismo educacional?

dog_sim

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18 thoughts on “Deixa-me Ver se Percebo Bem Isto

  1. Não percebo qual é a surpresa, Paulo Guinote.
    Não foi sempre assim que Ministério da (des)Educação trabalhou? Ou acha que quem lá está e esteve é gente séria, informada e competente?
    Eu sou professor há muitas décadas e sempre foi porcaria desta (ou pior) que vi: improvisos, exigências utópicas desligadas da realidade, enorme ignorância de quem decide. Até já me fizeram, há cerca de 30 anos, uma alteração ao Programa da minha disciplina que, por volta do Natal, eliminou toda a matéria que tínhamos andado a leccionar no 1º período; quem faz isto é gente normal? Não é, pois não? Então qual é a surpresa? Surpreso ficava eu se visse uma decisão sensata e competente.

      1. Sim, a mim, em tempos também me garantiram que o Pai Natal era verdadeiro. Mas depois fiz 4 anos e descobri a realidade. Daí para cá nunca mais acreditei em palavras, só factos (sem aborto ortográfico, claro).

    1. Tem toda a razão.
      Mudando de assunto: não me parece correcto “falar” com o Paulo Guinote, que assina o seu nome, e usar uma sigla que oculta o meu. Portanto, o comentador que até agora assinava “jmc” vai passar a usar o seu nome verdadeiro, José Manuel Chorão, lisboeta que é professor de Filosofia em Évora.

      1. Quando escrevi que não me parece correcto, queria dizer que não era correcto da minha parte, obviamente. Não voltarei a ocultar o nome sob qualquer sigla.

  2. E espera até ver as condições de realização das provas. Não se consegue, numa hora, realizar uma prova séria para mais de 5/6 alunos. Por isso dizia há dias que melhor seria, naquelas estações todas dadas como sugestão (?!), incluir a estação do oriente e reservar pelo menos uma semanita para a coisa. A ver vamos!

  3. Devo dizer que, quando li os documentos de apoio às provas de aferição das experessões na página do IAVE (bem como os exemplos), fiquei sem reação – conheço muitas escolas e muitos professores do 1.º CEB, e a sensação que tive foi: “este tipo de trabalhos não se fazem, usualmente, com alunos do 1.º CEB!”. E não se fazem por vários motivos – porque não há condições físicas, porque os professores, na maior parte dos casos, não têm formação para desenvolver os programas de educação física e motora (e das outras expressões) no 1.º CEB…
    O Secretário de Estado não sabe???? Não posso acreditar. Ele vive cá? Tem filhos, sobrinhos? Vão às nossas escolas públicas? Então deve saber… Se não sabe, não está no lugar certo.
    Agora, Paulo, estou como tu, sabendo isso tudo, como é que se prepara uma prova daquelas (que até é bem interessante?)
    Enfim, eu iria continuar por aí fora, mas realmente já me canso com tanta demagogia 😦

  4. A gravidade disto vai muito para além da questão da educação física no 1ºC…
    Esta apenas poderá ter o condão (senão ofuscada pela comunicação aliada ao regime) de, com maior facilidade, exteriorizar para além das comunidades educativas concretas(que há muito e desde logo o percebem), o profundo desconhecimento da realidade por quem decide! E, isto é grave, profundamente grave porquanto a decisão não só não é adequada como, e se não fosse já suficientemente mau, vem desestabilizar e perturbar fortemente os equilíbrios e estabilidades que nunca se conseguem manter por mais que um “parzinho” de anos.
    Dos pavilhões ou da ausência deles no 1º ciclo poder-se-á passar a outras condições físicas e materiais das escolas do 1º ciclo ao secundário… das cadeiras e carteiras com 30 anos que se degradam sem dinheiro para as substituir; dos telhados que deixam entrar água e dos “baldinhos” espalhados, cá em baixo, a apará-la; dos quadros negros, cinzentos pelo tempo e pelo uso, que dificultam o trabalho de sala de aula; das salas com 7 e 8ºC graus no inverno a 30ºC no verão; dos estores estragados que não colocam qualquer entrave à incidência directa da luz solar sobre as criancinhas e sobre os quadros mas que só podem ser arranjados, à vez e aos lotes, conforme se conseguem alguns trocos para a sua manutenção; das lâmpadas e projectores que se avariam aguardando a disponibilidade de mais uns “troquinhos” que tiveram que rivalizar com a substituição dos vidros que se partiram e deixam entrar, sem obstáculo e consoante, o calor ou o frio do momento; das insuficiências dos quadros eléctricos com mais de 30 anos; das casas de banho que com intervenção aqui ou ali para substituir uma sanita ou um lavatório partido mantêm as condições, hoje degradadas, da época da construção da escola; dos papéis higiénicos racionados; dos computadores e internet a velocidades pré-históricas quem nem a porcaria do sumário e das faltam permitem registar em tempo útil de aula quando hoje todo o trabalho da escola assenta nestes; … poderia continuar de forma quase ilimitada, a que outros acrescentariam ainda mais,… e sem esquecer as barriguinhas que roncam esfomeadas sentadas nas velhas cadeiras que, ainda assim, sempre serão melhores que a pobreza e miséria que têm em casa…

    E… a memória dos pais que vão pintar escolinhas, fazer pequenos consertos e reparações, pagar o papel e os materiais que as criancinhas precisam para trabalhar na escola, doar papel higiénico e outros que tais, …, a memória de umas quantas carteiras e cadeiras “novas” que uma empresa próxima que se remodela acaba por doar,…, a memória do que funcionários e professores dão para que tudo possa funcionar um pouco melhor (muito para além daquilo que é o seu dever profissional),…, todas estas memórias são efémeras e nunca cumulativas, que assim se pretende…
    E… só se equacionaram aqui as limitações físicas/materiais que todas as outras (organização, gestão, currículos, legislação, avaliação,…) são mais difíceis de objectivar e compreender para quem está para além dos portões das escolas mas quantas vezes difíceis de operacionalizar e, quantas vezes mais, profundamente desestabilizadoras do funcionamento e da estabilidade que as escolas (como qualquer outra instituição) carecem.
    Mas… “prontos”… as iluminárias cabecinhas decidem, com base num mais ou menos profundo desconhecimento. Que “se lixe tudo o resto” pois voltar atrás com uma má decisão… isso é que não… é sempre mais fácil, muito mais fácil, culpar a má gestão das escolas e a má vontade dos professores!

    Mas já agora… milhões para “formações” (formatações) de professores com ideias de há quase 30 anos (pelo menos tantos, quantos os anos que passaram sobre o meu estágio) para isto há milhões… são as tais janelas de oportunidades e os trabalhitos que uns fizeram um dia e que lhes hão-de render até à reforma … para isto há muitos milhões que não os há para substituir a merd* das cadeiras das salas de aulas!

    Na verdade, é mesmo conveniente, que nada funcione ou… tornar-se-iam dispensáveis e inúteis tantos e tantos organismos/ entidades/ anexos e acoplados que vivem do orçamento de estado e das verbas comunitárias.

    Isto é tudo incompetência? – Não, não creio. Creio mesmo que é intencional e enquanto a maioria olha para a próxima esquina, os tais que decidem, já dobraram 20 ou 30 esquinas e o caminho para o que querem (que não é o Bem Público) está traçado!

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