A Mistura Explosiva

A promoção de uma Educação Mínima (poderemos considerá-la de “aprendizagens essenciais”) tem como efeito a promoção activa da Ignorância, disfarçada por retóricas que apresentam os “Conhecimentos” como algo “empilhável” e muito relativo, em que Ciência e Crença são como que equivalentes.

O resultado é uma maioria de cidadãos com um enorme défice para lidar com uma multiplicidade de informação. É falso que a “competência” para usar as tecnologias corresponda a uma capacidade de selecção de informação, a qual só se consegue com bases sólidas de conhecimentos e das técnicas/metodologias fundamentais para o estabelecimento do chamado “método científico” que permite distinguir o falso do verdadeiro, sem relativismos oportunistas, diferenciar o que é falsificável do que foi falsificado, separar correlações falaciosas do que são causalidades lógicas.

Cidadãos ignorantes são vulneráveis aos discursos que promovem o Medo. Porque não têm as ferramentas para ir além do uso das novas tecnologias e do acesso à informação, falsa ou não. Os populismos na sua variante puramente demagógica e falsificadora crescem em ambientes em que o aumento do acesso à informação (e mesmo à “cultura”) vai a par do crescimento exponencial de uma iliteracia/ignorância funcional. Em que a torrente “informativa” aumenta a insegurança e o Medo.

Um Medo que desperta instintos de defesa contra o desconhecido, o diferente, que não se consegue compreender, que é necessário conter, limitar, muralhar, censurar, apagar. E a “Sociedade do Conhecimento” torna-se, mesmo em países desenvolvidos, uma Sociedade da Ignorância que promove a exclusão do que é encarado como ameaçador. A Crença (irracional) supera a Ciência (racional). As soluções autoritárias baseiam-se nos medos irracionais e promovem discursos activamente anti-científicos. Apaga-se a Memória e faz-se acreditar que é possível recomeçar sempre todo um edifício que levou séculos, milénios a erguer.

A Educação é sempre a solução para romper este ciclo. A preservação da Memória Colectiva é indispensável. É o caminho para uma Cidadania plena, porque informada. Mas não pode ser uma Educação Mínima. Relativista. Essa é a que oferece apenas o “essencial” para dar uma aparência de universalismo democrático. Cria uma ilusão. Disfarçada com uma linguagem de boas intenções. Que promove uma massa de cidadãos facilmente manipuláveis. Pelo bombardeamento de informação. A falsa. A do Esquecimento. A que aposta no Medo.

PosVerdade

 

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21 thoughts on “A Mistura Explosiva

  1. Na mouche. Em Portugal tem cabido ao PS essa tarefa de degradação da escola pública (sempre com linguajar modernaco e de inclusão) que forma cidadãos ignorantes e facilmente manipuláveis por políticos merdesos (os que temos) e populistas fascistoides (Trumps e Bolsonaros que podem vir). O poeta do regime disse que era por causa dos pros e contras das touradas que podia vir um Bolsonaro. Tretas. Isso é uma questão menor. A corrupção impune, a falta de opções democráticas e a estupidificacao dos cidadãos, isso sim é que torna viável a chegada de populistas salvadores.

  2. “Apaga-se a Memória e faz-se acreditar que é possível recomeçar sempre todo um edifício que levou séculos, milénios a erguer.” – Paulo G.

    Está aqui tudo: “NÓS” – Evgueni Zamiatine

    Os oprimidos estão libertos e os libertos oprimidos…

    “Ah, quem me dera ser poeta para vos cantar como mereceis, ó Tábua dos Mandamentos Horários, vós que sois o coração e o pulso do Estado Único!”.

  3. Já está a acontecer, Paulo. Num país esclarecido, a trapalhada de Tancos não teria levado à demissão de ministro,mas à queda de todo o governo.

  4. Já está a acontecer, Paulo. Num país esclarecido, a trapalhada de Tancos não teria levado à demissão de ministro,mas à queda de todo o governo.

  5. Nada há a fazer quando, dentro da própria classe, temos gente a debitar que os alunos, agora, têm de passar todos. É a merd@ de «colegas» que temos, que agem acriticamente e, alegadamente, estão a formar as gerações do futuro.

    1. Lamento dizer, mas esses colegas estão incluídos nos tais 15% que – segundo um ex-ministro da educação- andam na escola a passar tempo. Infelizmente, o ECD em nada os diferencia dos restantes 85%.

  6. O Paulo, lúcido (como sempre), “pôs o dedo na ferida”. A promoção da “Educação Mínima” tem como objetivo bem claro a “explosão” de cidadãos com “sentido de crítico mínimo”, que não questionem, que aceitem passivamente a informação falsa ou “spinada” até à exaustão, que sejam facilmente manipuláveis. Como país, iremos pagar bem claro esta opção (intencional) de promoção da ignorância das gerações mais novas.

  7. De acordo. Contudo…
    “(…) Pelo bombardeamento de informação. A verdadeira. A da memória. A que aposta na ausência de medo ( na segurança?).”
    Qual é a mistura?

    1. A mistura de que falo no post é da Educação Mínima com a desvalorização do Conhecimento.

      O inverso seria o da promoção de uma Educação virada para o Conhecimento que permite analisar criticamente a informação e não sentir medo sem fundamento, apenas com base em crenças.

      1. “Se conhecemos, analisamos criticamente a informação e não sentimos medo sem fundamento, apenas com base em crenças.”
        Será esta uma proposição falsificável?
        Há um “limbo” que a crença preenche.

  8. A mistura explosiva é nada mais nada menos que o recuperar de uma poção mágica com provas dadas no passado salazarento e, depois disso, com ‘pequenas’ incursões em tempo democrático…

    Controlo em quantidades generosas, muita manipulação, castramento intelectual q.b., deixar em repouso para fermentar e está o menu pronto a servir…

  9. Com alguma afinidade ao título do post, vislumbro uma versão à qual chamaria, não mistura explosiva mas “combinação perfeita” : os conteúdos imbecis dos últimos normativos do ME estão a ser difundidos nas escolas por “palestrantes” cujo grau de imbecilidade supera o dos conteúdos. Ora digam se não é uma combinação perfeita…

  10. A propósito deste post deixo aqui uns links que nos vão mostrando, a nível político, de como a bonomia portuguesa pode não ser suficiente para uma manifestação, ainda que subtil e não assumida, entre uma direita democrática e uma extrema direita a fugir para outro lado nada aconselhável……

    https://observador.pt/opiniao/as-fraquezas-e-os-fantasmas-do-david-dinis/

    https://observador.pt/opiniao/a-geringonca-ha-de-inventar-um-bolsonaro-em-portugal/

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