O Secretário Anti-Rankings

O SE Costa é um herdeiro daquela corrente que, ao longo de muito tempo, tentou impedir o conhecimento dos dados sobre o desempenho dos alunos em provas finais, também conhecidas como “exames”. Vinte anos depois, de novo no poder, andam a fazer tudo por abafar a divulgação dos dados ou misturá-los com outros indicadores. E a produzir um discurso que falseia a substância das palavras e dos factos, de que é exemplo a breve prosa incluída no (claro!) Diário de Notícias de hoje.

Declaração prévia de interesses, para que (de novo) fique clara a minha posição sobre isto, no sentido de evitar aquelas críticas do género “tu queres rankings porque és de Direita e defendes os privados”, quando estou numa escola cada vez mais próxima do fundo da tabela e isso não me agrada nada.

  • Prefiro que exista alguma (ou mais) informação do que nenhuma ou excessiva (o chamado Big Data) por vezes destinada a baralhar tudo.
  • Dados apenas dos exames são redutores, em especial no Ensino Básico quando ficaram reduzidos a duas provas no 9º ano, pois não permitem qualquer tratamento ao longo do tempo, ao nível da coorte de alunos.
  • Os rankings reflectem apenas uma dimensão do desempenho dos alunos das escolas e devem ser enriquecidos com variáveis de contexto (que as escolas privadas não fornecem) que já são divulgadas há alguns anos, antes deste mandato, com destaque para o trabalho do Público nesse particular.
  • Há no ME informação muito vasta que permite caracterizar de forma adequada a realidade de cada escola de forma estatística, mas não a forma como, internamente, se desenvolvem “micro-políticas de avaliação/sucesso”.

Dito isto, vamos a lá ao naco central da prosa do SE Costa no DN:

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Acerca desta passagem cumpre fazer os seguintes reparos:

Os rankings induzem práticas questionáveis, é certo, mas quando apareceram fizeram o inverso: revelaram situações desconhecidas.

  • Uma série de más práticas identificadas revela apenas que há quem prefira ter os filhos numa escola com bons resultados do que com maus resultados. Se isso leva a uma segregação socio-educacional? Sim, mas o combate a esse fenómeno não se faz com menos informação e é da responsabilidade do ministério da Educação, algo que nem sempre faz.
  • O ME tem todos os dados sobre “os que ficaram pelo caminho” e sobre as disparidades nas notas internas e externas, desigualdades socio-económicas, incidência que alunos com (ex-)nee, etc. Só existirá “opacidade” se o ME não revelar esses dados ou se não os quiser tratar e mostrar de forma clara. O problema é que nem sempre existe a capacidade técnica ou a vontade política para o fazer, se as conclusões não estiverem escritas à partida.
  • Os dados que, de forma sistemática, mais faltam nos rankings, relacionam-se com o contexto socio-económico dos alunos das escolas privadas ou com a spráticas de “inclusão” de alunos com dificuldades. O ME continua a não os recolher ou, se os recolhe, não os divulga. Mas acredito que seja a primeira hipótese, por manifesta falta de força com os fortes.
  • Se as provas finais de 9º ano em duas disciplinas produzem dados muito redutores, porque não se recorre aos resultados das provas de aferição criadas há 3 anos? Eu respondo… porque essas provas foram feitas como estratégia de diversão depois do fim das provas de 4º e 6º ano, para dar a ilusão de que algo está a ser feito. É falso, os relatórios produzidos são de uma confrangedora inutilidade, em especial quando as provas não são feitas de modo a acompanhar os alunos ao longo do tempo. Minto… servem para justificar retoques curriculares adequados a um grupo específico de pressão. Nesse caso, já não é mau examinar o desempenho de alunos com 7 anos.
  • “Opacidade” é ter escolas que podem abrir turmas com um nº de alunos inferior ao regulamentar em disciplinas pouco procuradas, enquanto a poucos quilómetros não abrem outras com o nº adequado de alunos, sem que se percebam os critérios, excepto a existência de “linhas directas” para is centros de autorização.
  • “Opacidade” é afirmar que um dado indicador é melhor e mais “robusto”, mas ocultar que ele depende de “micro-políticas” de avaliação, em que basta alterar critérios internos de transição, aumentando os níveis inferiores a três admitidos para transição, para se assegurarem percursos mais “limpinhos”. Também é “opacidade” ocultar que essas micro-políticas podem passar por estratégias de pressão sobre grupos disciplinares e professores para que atinjam metas de sucesso a qualquer preço, ocultando situações de abandono escolar ou procurando taxas de sucesso quase total,, mesmo para alunos que mal aparecem nas aulas. Uma coisa é dar a oportunidade de transição a um aluno com historial de insucesso repetido por razões que surgem de fora para dentro da escola (e eu já o fiz), outra é mascarar por completo o laxismo. O SE Costa terá entre os seus conhecimentos por certo que, ao nível dos órgãos de gestão, o possa esclarecer sobre o tema, caso não o conheça ainda, o que eu acharia espantoso.
  • Como em finais de 2015 o Bloco serviu de ponta de lança parlamentar para acabar com o “exame da 4ª classe”, calculo que em finais de 2019 o seja para acabar com os “exames do 9º ano”. E poderemos, então, ficar com toda a “transparência” que agrada aos herdeiros de uma pedagogia demagógica, por certo bem intencionada, mas que tem junto do poder quem a defenda com uma enorme imprecisão terminológica, o que é estranho em quem se orgulha de ser linguista.

 

(se o panorama acima me agrada? nada, nadinha, mas irá agravar-se se a desresponsabilização e a ausência de avaliação externa efectiva – a tomada de poder no IAVÉ está em decurso – se tornar a regra, em especial porque quem assim decreta já se safou de a sofrer na pele como encarregado de educação… ou, como certa governante, tem a prole no privado porque lhe abre mais oportunidades)

 

 

 

 

2 thoughts on “O Secretário Anti-Rankings

  1. Análise certeira ao viés ideológico que corrompe a educação nacional. Só o nexo de causalidade está errado, caro Paulo. É o PS que sucumbe ao desvario pseudo-educacional do BE e não o BE que sustenta a ideologia educativa do ME é respectivos SE. O que se conhecia ao Dr. TbR sobre pensamento crítico em educação? O que se conhece após quatro anos no cargo? A cedência às manas Mortágua para sustentação parlamentar da geringonça só podia ser feita à custa de figuração teatral . O resto são figurantes secundários em bicos de pés para aparecer na CS e manterem os seus cargos bem pagos furtando-se assim a voltar às escolas ou a serem atores informados.

    1. Mas o PS tem uma facção muito forte com a mesma tendência ideológica, só que apenas é assumida com clareza por gente menos nova. E, politicamente, dá muito mais jeito ter as manas Mortágua a fazer a proposta do que que “queimar” alguém do PS, como o secretário que prefere a penumbra quando se trata dessas coisas. O ministro Tiago é um absoluto zero, não conta, nem desconta.

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