Merecedor De Debate, Embora Discorde Já De Algumas Premissas

O Arlindo iniciou um conjunto de artigos com uma proposta de revisão da carreira docente. No primeiro deles apresenta uma estrutura de carreira e indiciária (para efeitos salariais) da qual discordo claramente porque me faz lembrar as propostas de “achatamento” da carreira que li no estudo encomendado por MLR a João Freire e ouvi a alguns vultos associados à governação sob a troika. Não discordo por causa disso, mas por causa dos seus pressupostos que passam por prolongar os escalões, reduzindo-os e amputando fortemente o seu topo que passaria a corresponder, grosso modo, ao antigo 9º escalão (actual 8º, índice 299).

A justificação dada então – e que o Arlindo parece retomar ao preocupar-se em apresentar contas que demonstram o não aumento da despesa, o que agradaria a Centeno como a Vítor Gaspar ou a João Duque ou a um Nogueira Leite ou a qualquer dos Arrojas – é a da previsibilidade e espaçamento das progressões dos docentes, levando a que os acréscimos salariais sejam mitigados no tempo. Não me convence, por razões que poderei desenvolver mais tarde, quando ler toda a fundamentação dada pelo Arlindo.

Mas há algo de que discordo ainda mais fortemente e que é a exclusividade de dois escalões remuneratórios (de uma “carreira docente funcional) equivalentes aos actuais 9º e 10º escalões para, respectivamente, subdirectores/coordenadores de departamento e directores, com eliminação dos actuais suplementos.

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Ora… esta proposta faz-me lembrar demasiado o aspecto de “casta” ou “grupo fechado” que era o grande problema da criação dos titulares. Mas neste caso aplicado a um grupo de professores ainda mais restrito. Que não sei ainda se o Arlindo acha que devem ser “recrutados” da forma que actualmente são. Seja os directores pelo método enviesado do Conselho Geral, seja os subdirectores (e o que dizer dos adjuntos?) por nomeação, seja os coordenadores de departamento por escolha limitada dos colegas, quando ela chega a acontecer.

Porque uma proposta deste tipo não pode aparecer sem que se coloque também em causa o modelo de gestão escolar único que temos, sem flexibilidade e autonomia e muito pouco “inclusivo”.

Vou ser claro, porque o Arlindo me merece isso, por todo um trajecto de respeito comum com mais de uma década nestas coisas blogosféricas: esta é uma proposta que eu leria sem espanto num qualquer quadro do ministério das Finanças ou num documento com os interesses micro-corporativos de uma geração de directores que ainda estão longe do topo da carreira e que, desta forma, passariam automaticamente (independentemente dos anos de carreira) para um topo inalcançável pelos professores rasos. Ou seja, directores que estejam agora no 3º ou 4º escalão da carreira, com o suplemento remuneratório actual, ganham o equivalente a cerca de três escalões acima. Com esta proposta saltariam seis ou sete escalões remuneratórios.

A sua função justifica isso?

Não acho. Sinceramente, não acho. E considero que esta proposta se limitaria a beneficiar uns milhares em detrimento de dezenas de milhar.

Não me parece uma proposta a sério de revisão da carreira docente, mas sim a legitimação de uma carreira autónoma dos cargos de chefia.

Não, Arlindo. Claramente, não. Se já achavas isso em 2005, estavas de acordo com algo mais radical do que a MLR implementou. Aliás, do que está em vigor, porque cortarias completamente o horizonte de progressão a quem esteja actualmente na carreira de uma forma mais brutal do que as quotas, pois simplesmente eliminarias escalões (já nem falo do 370) como o antigo 10º da velha carreira pré-2007.

Mas aguardo uma explicação mais dirigida aos professores das “vantagens” deste modelo” e não apenas uma demonstração aceitável pelos centenos e eventuais mestrandos e doutorandos da nossa amada reitora. Porque isto não tornaria a carreira mais atraente. Esse argumento é demagógico, E explicarei porquê.

Assim como aguardo pela explicação acerca do modo como seria operacionalizada a avaliação do desempenho docente e a transição entre escalões. E se os coordenadores de departamento seriam responsáveis pela avaliação de toda a gente, independentemente da posição na carreira “lectiva” ou das habilitações académicas.

Este assunto merece um debate alargado e claro. Com substância e não com estridência. Eu estou disponível para a discussão, mas não omitirei que que a farei do ponto de vista de um professor de carreira que não quer aceder a funções com índices remuneratórios exclusivos. 

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18 opiniões sobre “Merecedor De Debate, Embora Discorde Já De Algumas Premissas

  1. O coordenador de departamento é alguém que tem 4 horas no horário destinadas a desempenhar algumas tarefas, 99% das quais não carecem de nenhum talento especial, logo não justifica a casta à parte.

    Eu não discordo de uma carreira com menos escalões. Em rigor, no meu caso tanto me faz. Como já disse aqui, para atingir o 10.° escalão, partindo do princípio que não ficaria retido numa das barreiras, teria de trabalhar para além dos 70 anos.

    Em suma, esta proposta parece-me requentada e rejeitada noutros tempos, mas não me aquece nem arrefece. O topo da carreira docente nunca chegará para mim. Sei disto desde os 40 anos de idade.

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    1. Mas eu não gosto de abdicar à partida de algo… curiosamente, para quem entre na carreira porque eu também não chegarei ao topo.
      Passa por aqui uma tentativa (errada e equívoca) de seduzir os “novos” professores.

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  2. Qualquer renegociação séria que se queira fazer só é possível se todas as partes forem credíveis e se o incumprimento do acordado for passível de sanção efetiva. Ora, do nosso lado temos o encantador Nogueira, do outro lado temos a barbárie… valha-nos, portanto, um burro aos coices.

    Entretanto, asseguremo-nos que a base de qualquer negociação seja o cumprimento das negociações anteriores. Isto digo eu, que sou uma besta certificada.

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  3. Os 8 anos aproximam-se dos 10 da FP. E como se faria a transição? Tanto ódio gerou a divisão da carreira na altura e agora é um professor que a propõe? Ou seria melhor dizer ” Director”? Continua cada um a olhar para o seu umbigo ( … não tem nada a ver com o do Paulo, um Umbigo digno do maior respeito) e os outros que tratem da ” sua vida” , como andam a dizer no sindicato a quem os consulta? Afinal dizemos mal de tanta reforma na educação e passamos a vida a mudar tudo, também?
    O zapping já atingiu tudo e todos?
    Temos este ECD. O que pode ser melhorado nele? Mude-se.
    Falei, há dias, com um elemento das chefias ( quase ao mais alto nível). Por razões óbvias, (para mim, pelo menos que sou antiquada) como o respeito , por exemplo, nunca tornarei pública essa conversa. Mas o que fica é a percepção de que, e por todo o lado, as pessoas estão atoladas em novidades que não param de chegar. Inevitavelmente, não há tempo para reflectir, para ponderar. E erra-se.

    Estou como o António: nunca chegarei ao topo. Tenho 57 anos e estou numa lista.
    Gostava que os colegas mais novos nunca ficassem numa lista. Pela humilhação da arbitrariedade.

    Dou por mim a pensar que tenho lido pouco este ano. Há tanto desassossego na escola desde, pelo menos, ano passado, que deixámos de lado coisas tão importantes, como os livros. A nossa formação científica.
    Devia ser uma grande prioridade para todos nós a defesa acérrima do tempo para o conhecimento. Também nós vivemos atolados em grelhas e papeladas inúteis que não nos acrescentam em nada e só nos desgastam. Vivemos rodeados de inutilidades e o pior é que já achamos normal.
    Eu acrescentaria como ponto 1. de uma revisão do ECD: o direito à dignidade e ao conhecimento. O resto é fácil.

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  4. Caros colegas,
    se tiverem um minuto, espreitem o “com regras” e digam-me que eu não li bem as declarações do marido/companheiro (ou deveria dizer antes coordenador de estabelecimento?) de uma das professoras que morreu a trabalhar…
    Eu preciso, mesmo (eventualmente precisaremos todos), para ainda manter uma centelha de respeito pelos representantes da tutela…
    Nota: Paulo, peço desculpa por usar o seu “espaço” para este apelo, entenda como um elogio…

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    1. Não li o ‘com regras’, li o Público de ontem e posso dizer que percebo a sua incredulidade. Até aceito que nenhum dos colegas possa ter sido vítima de excesso de trabalho, mas vir dizer que quem gosta do que faz não morre por excesso de trabalho -foi mais ou menos isto que o caramelo que vivia com a nossa colega disse- é digno de um brutal mentecapto.
      Enfim, com estas misturas entre politiqueiros, politiquices e Ensino estamos cada vez mais sujeitos a ver nas nossas escolas dirigentes com este altíssimo nível intelectual e cristalina sensibilidade…
      É o que há…

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      1. Esse “brutal mentecapto” de que fala também é (ou achará que já não é, por estar coordenador de estabelecimento, NOMEADO por um comissário político qualquer) professor!!!!!!!!!!!

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  5. Acho anormal que se ache normal trabalhar 50 horas. Mas o que não falta aí, e mesmo ao nosso lado, é gente que faz questão em o afirmar, e fazer. ” Tem que ser.”

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  6. Concordo com o Paulo. Não podemos cair no logro de legitimar a injustiça que está a recair sobre tantos colegas. Há maneiras de compensar os cargos e nunca deve ser esta. E como diz o Guinote, tudo se agrava com este modelo de gestão que dá azo a arbitrariedades, para não usar outros nomes. Mas esta hipótese já a ouvi a colegas situados em determinados quadrantes políticos. Paulatinamente vai-se preparando o terreno. E há muita gente à espera da sua migalha.

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  7. “Professor é aquele que ensina, não é aquele que tem cargos! Não são as pessoas que têm cargos que devem ser valorizadas, mas aquelas que diariamente enfrentam turmas de alunos e a eles se dedicam de corpo
    e alma. E que difícil que é ser professor, hoje em dia! Quem quer ter cargos deve ter menos turmas, redução da componente letiva, certamente, sobretudo se for diretor de turma, cargo tão pouco valorizado e tão trabalhoso! Mas ganhar mais por isso? NUNCA! Foi para ser professora que me formei e me preparei ao longo de 5 anos, não para ter cargos! Cargos gostam de ter muitos que conheço e são péssimos professores!! Por isso fazem essa opção. GANHAREM MAIS? Era o que mais faltava.”

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  8. Concordo com o Paulo Guinote, não é de todo uma proposta que dignifique a carreira docente, precisamos de um estatuto que nos devolva o muito que perdemos.
    Também não chegarei ao topo, mas gostaria que os colegas mais novos tivessem essa possibilidade.
    Temos mais uma luta para o próximo ano letivo e talvez seja a mais importante.

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  9. Obrigada Paulo!
    Concordo inteiramente consigo.
    Quando li a proposta do Arlindo nem queria acreditar… será que os cargos “sobem à cabeça”… Que indignação e que desilusão.
    Também passo dos 50 e nunca chegarei ao 10°… mas ser “reservado” a “castas”…

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